Ver perfil

Sobre viver sem (CEP #06)

Sobre viver sem (CEP #06)
Por Danilo Heitor • Edição Nº12 • Ver na web
No segundo carnaval sem carnaval em dois anos, uma atividade com o 5ºano justamente sobre como viver sem algumas coisas básicas.
Vou adorar receber (seus) comentários sobre o texto! =)

Sobre viver sem
Nesta terça de carnaval sem carnaval (o original, o popular, nas ruas), resolvi escrever sobre as aulas com os 5ºs anos nas últimas semanas. Como contei aqui, é minha primeira experiência com estudantes dessa idade, e também como professor de Educação Digital e não Geografia. 
Pois bem, na primeira aula trabalhei com as turmas a ideia de tecnologia. Nas duas últimas, resolvi fazer uma atividade que os levasse a refletir sobre tecnologias que nem sequer consideramos tecnologias. Dividi as turmas em grupo e pedi pra cada grupo pensar em formas de como viver sem uma das seguintes coisas: chaves, talheres, papel, privada, remédios e geladeira. Eis os resultados:
  • Talheres: nas duas turmas, o apelo foi para a natureza. Madeira, pedra e folhas apareceram. Em uma delas, sugeriram comer com as mãos; em outra, fazer talheres com esses materiais - o que seria quebrar a regra, porque a ideia era como viver sem talheres, não como fazê-los sem ser de metal. A surpresa foi a sugestão de usar arco e flecha que surgiu em uma das turmas, que depois de explicada era na verdade a ideia de usar apenas a flecha como talher. Ao final, contei para a turma que até alguns séculos atrás talheres eram caros e as pessoas comiam com as mãos, e mesmo depois deles serem inventados muita gente seguiu preferindo as mãos.
  • Papel: aqui era pegadinha, quase, já que a substituição do papel é um processo em curso atualmente. Em uma das turmas, o foco foi mais na comunicação do que na mídia: sugeriram usar gestos e a fala, fazer esculturas como mensagem e usar código morse. Na outra, recorreram à natureza e sugeriram uma vez mais pedras, madeira e folhas. Também falaram em usar terra. No final da apresentação perguntei se não escrevíamos hoje no celular e no computador cada vez mais e os grupos acrescentaram “usar telas” nas sugestões.
  • Privada: mais uma vez recorreram à natureza. Cavar um buraco no mato surgiu nas duas turmas. Em uma, a ideia era cobrir com orquídeas; questionei porque orquídeas e ampliaram pra “qualquer flor cheirosa”. Na outra, também apareceram garrafa e balde como alternativas. Foram com certeza os grupos de maior fonte de risadas na sala. No final, perguntei porque não um banheiro que dissolvesse as necessidades (aka banheiro químico) e contei sobre como faziam quando havia vasos mas não encanamento - ninguém gostou muito de saber que os nobres colocavam os mais pobres pra levar baldes de merda até o rio.
  • Remédios: esse foi um dos mais interessantes. Nas duas turmas recorreram às plantas. Em uma, também falaram de usar “comidas que curam” (sopa, mel, própolis). Na outra, sugeriram “recorrer ao pajé”. Ninguém pensou em tecnologias que curem automaticamente as pessoas, como nos filmes de ficção científica. Neste caso não teve muito o que contar sobre o passado.
  • Geladeira: nas duas salas a ideia foi usar uma caixa com gelo. Questionados sobre como fazer onde não tivesse gelo (ou neve), em uma das turmas o grupo teve a ideia de uma impressora de alimentos, assim não haveria a necessidade de estocá-los. Contei para eles que antigamente eram buracos na parede com gelo ou neve (e palha) que se fazia nos lugares frios mesmo, e que havia até a profissão de “geladeiro”, que era o homem que vendia neve/gelo basicamente.
  • Chaves: de longe, a tecnologia substituída com mais facilidade. Em ambas as turmas, a proposta foi usar impressão digital, íris e rosto, coisas que já acontecem hoje em dia. Perguntei por que não deixar as coisas sem trancar e confiar nas pessoas, mas não houve tempo hábil para discutir a propriedade privada (quem sabe na próxima aula).
Saí bastante pensativo dessas aulas. Interessante perceber como os 5ºs anos ainda tem um encantamento em relação ao mundo que, nos 6os, já se quebrou consideravelmente. Descobrir como eram as coisas é sempre fascinante para eles. Aproveitei pra apresentar pras turmas no final da aula o livro que serviu de ideia pra atividade: “Como fazíamos sem”, de Bárbara Soalheiro, lançado pela Panda Books. Dica da minha companheira, Marília Carvalho, e empréstimo de uma das professoras de educação física da escola.
E você? Já pensou seriamente como seria a sua vida sem alguma tecnologia básica que você nunca nem parou pra pensar que é uma tecnologia?
Me conta!
Sobre o autor
Oi! Legal ter você aqui! =)
Caso você não me conheça, prazer, Danilo Heitor! Além de escrever, sou professor (de Geografia) e apresentador dos podcasts Futuros Possíveis e Professor/a de Escola Pública.
Tenho uns causos escolares postados aqui.
Também tem uns outros causos que eu posto aqui.
Além deles, tem uns contos e crônicas, e um diário de viagem, concentrados no meu site.
E meu primeiro livro, Consigo, saiu pela Editora Primata e pode ser comprado aqui.
Ah! Quer me fazer uma pergunta anônima? Clica aqui.
Até a próxima!
Curtiu essa edição?
Danilo Heitor

crônicas e contos de um professor

Para cancelar sua inscrição, clique aqui.
Se você recebeu essa newsletter de alguém e curtiu, você pode assinar aqui.
Curadoria cuidadosa de Danilo Heitor via Revue.