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Sobre retornos e a necessidade de se refazer (CEP #04)

Sobre retornos e a necessidade de se refazer (CEP #04)
Por Danilo Heitor • Edição Nº8 • Ver na web
O ano novo trouxe muitas mudanças por aqui. Como consequência, resolvi reformular esta newsletter. Começando pela periodicidade: o desafio é mantê-la semanal, alternando entre as crônicas da escola pública (CEP), onde vou seguir abordando a (minha) vida na escola e os contos de quase agora (QA), ensaios de ficção especulativa entrelaçando tecnologia e cotidiano.
Em janeiro, como eu estava de férias, foram apenas contos. Hoje, junto com o ano letivo, retornam as crônicas escolares.
Vou adorar receber sua opinião! =)

Sobre retornos e a necessidade de se refazer
— Achei essa capa feia. 
— São os muros da escola.
— Eu sei, mas achei feia. Cadê nossos alunos brasileiros?
— Deve ser porque aqui só tem boliviano e indígena.
Um dia depois do assassinato covarde e brutal de um congolês na zona oeste do Rio de Janeiro, foi esse o papo que escutei na sala dos professores da escola nova em que comecei hoje. Na entrada, todo o corpo docente foi presenteado com o kit típico, caderno, régua, lápis, canetas. Na capa do caderno, reproduções de alguns dos muitos grafites que decoram os muros internos e externos, um deles mostrando um jovem com aparência boliviana e os Andes ao fundo, outro com um indígena em meio a elementos da flora brasileira e um pedaço da bandeira nacional estilizada.
Não entrei na conversa, embora tenha pensado nisso. Não gravei o rosto das pessoas envolvidas na conversa. Minutos depois, estava com elas na sala de informática, escutando a gestão da escola falar sobre o território “com muitos imigrantes e PCDs” onde a escola está inserida. A fala não foi pejorativa, foi factual e pragmática: diretor e assistentes, novos na escola como eu, reconheciam a diferença do novo local de trabalho pro antigo e anunciavam que sabiam do desafio e contavam com a nossa participação.
Imediatamente me veio um medo. De que a conversa de antes fosse o normal do grupo. De ouvir variações das mesmas frases tristes que toda pessoa que já frequenteou uma sala de professores já ouviu. Observei ao redor para ver melhor quantos e quem éramos: 27 mulheres, 5 homens; 26 pessoas brancas, 6 não brancas. Um grupo mais diverso que algumas escolas em que estive, e menos diverso que em outras. Na média do espelho do racismo estrutural que se apresenta em qualquer profissão que exija um diploma do ensino superior, e do sexismo estrutural que se apresenta em qualquer profissão que pressuponha algum tipo de cuidado do outro — especialmente quando o outro são crianças.
Conforme a conversa foi seguindo, permeada de clichês típicos de primeiros-dias escolares, mas com algumas discussões importantes sobre cotidiano, cuidado, comunidade e responsabilidade, meu medo se dissipou um pouco. Muitas falas acolhedoras, poucas impressões de divisão no grupo. A conversa da sala dos professores não ressurgiu. Mesmo assim, a realidade do novo local de trabalho não saiu da cabeça: muitos imigrantes (não brancos) e pessoas com deficiência. No país em que um estrangeiro negro acaba de ser espancado até a morte por cobrar seu salário, e no qual as pessoas dão risada de um vídeo que mostra uma pessoa surda se assustando com a buzina de um caminhão.
Na parte final da reunião, recebemos um papel com três campos: medos e incertezas, avanços e conquistas (nos dois anos de pandemia) e desafios para 2022. O campo do meio foi o mais difícil de preencher. Os outros dois, infelizmente, saíram sem muito esforço.
A incercerza: quando acaba a pandemia?
O medo: teremos alguma morte entre estudantes, já que voltarão sem o esquema vacinal completo? Perdi uma estudante para a meningite alguns anos atrás, outro para uma infecção hospitalar. Nas duas vezes me senti impotente, inútil e questionei o sentido de ser professor quando as crianças não tem nem o direito à vida garantido. Nas duas vezes demorei para me recompor. Agora, depois de tanto tempo em salas de aula “híbridas”, possibilidades restritas, a prática docente atravessada pelas preocupações sanitáriais e os tais protocolos, sinto que o movimento de me refazer é justamente o grande desafio para 2022. Meu, dos colegas, da escola, de quem trabalha, pensa e luta a educação de uma forma geral.
Ser professor importa, sim. A educação importa, sim. É preciso falar sobre imigração, racismo, sexismo, violência de gênero e desigualdade na sala de aula, sim. Mas pra tudo isso ter sentido, é preciso fazer com que a escola tenha sentido — começando por tornar inaceitável, principalmente por parte de educadores, qualquer comentário como os que abrem este texto.
Uma das últimas falas da reunião foi de uma professora que ajudou a organizar o grupo de WhatsApp e a busca ativa por estudantes que sumiram na pandemia. Sua voz embargou ao falar das situações enfrentadas ao bater de porta em porta, e eu me lembrei da minha mãe, assistente social a vida toda.
Trabalhar em territórios vulneráveis, onde as condições para uma vida digna estão sempre estraçalhadas, quando estão, é compreender pouco a pouco que você nunca terá apenas as atribuições que sua categoria profissional pressupõe. Será preciso redobrar a escuta, aumentar a sensibilidade, reforçar a mente, ampliar a solidariedade, recuperar o sentido da palavra “humano”. Será preciso lutar, em coletivo, pela sobrevivência e resistência, sua e da comunidade. Reconhecer as diferenças, os privilégios, e construir sobre os abimos pontes, da borda para o centro, de baixo para cima. Ainda mais em um país que destrói tudo isso em uma velocidade impressionante.
Mãe, obrigado por emprestar sua força, ainda que eu nunca vá conseguir alcançar nem metade dela. Você sempre será minha heroína.
E que o ano letivo que começou hoje possa terminar com notícias — e conversas na sala dos professores — outras.
Sobre o autor
Oi! Legal ter você aqui! =)
Caso você não me conheça, prazer, Danilo Heitor! Além de escrever, sou professor (de Geografia) e apresentador dos podcasts Futuros Possíveis e Professor/a de Escola Pública.
Tenho uns causos escolares postados aqui.
Também tem uns outros causos que eu posto aqui.
Além deles, tem uns contos e crônicas, e um diário de viagem, concentrados no meu site.
E meu primeiro livro, Consigo, saiu pela Editora Primata e pode ser comprado aqui.
Ah! Quer me fazer uma pergunta anônima? Clica aqui.
Até a próxima!
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Danilo Heitor

crônicas e contos de um professor

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Curadoria cuidadosa de Danilo Heitor via Revue.