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Sobre recobrar o sentido

Sobre recobrar o sentido
Por Danilo Heitor • Edição Nº1 • Ver na web
Quem nunca se perguntou se estava falando com as paredes em uma sala de aula?

A escola pandêmica abre e fecha. Nesse movimento, qualquer continuidade se perde: quem estava na sua frente segunda-feira não está na sua tela na quarta, e mesmo quando está não necessariamente está.
Será assim por um tempo, mesmo com as vacinas. Quero imaginar que em 2022 será melhor. Às vezes consigo. Mas, por agora, a sensação que tenho é a de que tudo está suspenso, tudo é efêmero, cada aula se fecha e termina em si mesma e nada permanece.
A coisa piora quando você é módulo (professor substituto). A turma não é sua, os vínculos são esporádicos, muitas vezes secundários. Fico o tempo inteiro planejando aulas únicas, sem depois, sem a certeza de uma sequência que eu não sei nem se, nem quando haverá. O nono ano de hoje pode estar comigo de novo amanhã, ou só mês que vem. No presencial um dia, no remoto outro, aulas suspensas, contágio, afastamento, evasão. Muitas vezes, a aula é para letras em um quadrado, câmeras fechadas, microfones idem.
Tem alguém aí?
Difícil encontrar um caminho nesse labirinto traçado desde além do seu controle. Difícil saber se está fazendo sentido, o quanto está fazendo sentido, o quê está fazendo sentido. E não são poucos os dias, as vezes no dia, em que você se pergunta por quê continuar.
Ou por onde.
Dia desses, esse sentimento deu uma trégua.
A aula era online, introdução à Europa. Planejada e ministrada pelo professor titular, um cara parceiro, firmeza demais, que me dá todas as chances de participar. Ele abre as portas e eu sempre entro, às vezes até tiro o tênis, e também por conta disso eu decidi intervir pouco.
Logo no começo, o tema são as fronteiras europeias. O que realmente separa o continente da Ásia? O professor problematiza, coloca em perspectiva questões culturais, conflitos civilizacionais.
De repente, uma estudante interrompe. E traz pra discussão o conceito de território, “que fronteira tem a ver com território né professor, o professor Danilo falou outro dia, não precisa ter um rio ou um oceano”.
Ela segue tomando o conteúdo pra si e compartilhando o conhecimento, e provavelmente nem percebe o meu sorriso. Não por ter sido citado, ainda que isso também traga algum conforto, mas por ver o sentido acontecer, o peso da incerteza diminuir, não eram só paredes ou avatares, tinha alguém ali aquele dia.
Trinta segundos que ecoaram por horas, dias, e chegaram até aqui, na estreia desta newsletter.
Que bom.
Enquanto eu projetava na escola uma terra arrasada, teve gente enxergando um terreno baldio. E que viu nas minhas pedras, atiradas um tanto sem rumo, tijolos para começar a erguer uma parede.
A pandemia zerou a escola, e no solo devastado que resultou disso todo mundo parece estar reaprendendo a plantar.
Nós, aqui, tentando sementes que vinguem.
A turma, lá, procurando água ou um restinho de sol.
Às vezes dá flor, mas precisamos de árvores - frutíferas e resistentes.
Beatriz, muito obrigado por me trazer de volta.
(a arte da capa é da Marília Carvalho)
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Eu tenho uns causos escolares postados aqui.
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Além deles, tem uns contos e crônicas, e um diário de viagem, concentrados no meu site.
E meu primeiro livro, Consigo, vai sair pela Editora Primata e tá em pré-venda aqui.
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Até a próxima!
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Danilo Heitor

crônicas e contos de um professor

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Curadoria cuidadosa de Danilo Heitor via Revue.