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Sobre o mínimo (CEP #08)

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Sobre o mínimo (CEP #08)
Por Danilo Heitor • Edição Nº16 • Ver na web
Mariluz virou estrela, daquelas que brilham tanto dentro quanto fora da gente. Sempre que isso acontece, meu mundo fica um pouco mais frio.
O texto de hoje é uma homenagem a mais uma aluna que não foi minha.

Sobre o mínimo
Quinze dias na escola proporcionam muitos temas para uma crônica. Muitas vezes, quinze minutos também. Nas duas últimas semanas eu pensei em escrever sobre muita coisa: o que acontece quando pedimos para as turmas criarem coisas depois de anos e anos sendo treinados como copistas/tarefeiros; as consequências de uma escola com um número grande de PCDs e pouca estrutura capaz de atendê-los; as aulas de empatia que as turmas te dão quando você menos espera.
Mas todo e qualquer tema foi pro ralo hoje porque morreu uma menina do segundo ano.
AVISO: este é um texto com gatilhos. Ele fala de morte, de doença terminal, de tratamento hospitalar, de vulnerabilidade.
Eu não conheci Mariluz. Assim como Yasmin, vítima da meningite em 2018, ela não foi minha aluna. 
Sou professor do Fundamental II. Faltavam alguns anos ainda. Anos que um câncer terminal levou embora.
Mas não é sobre a doença dela que eu quero falar aqui. É sobre contexto.
É sobre o todo.
Mariluz foi filha de imigrantes bolivianos. Que descobriram o câncer cedo, e conseguiram começar um tratamento graças ao apoio financeiro de uma empresa.
Mariluz perdeu o pé, depois a parte inferior da perna, depois o restante dela. Ia de muleta pra escola, e corria atrás dos meninos como todas as crianças da idade dela.
Mas o câncer não foi embora. Depois da suspensão da quimioterapia, veio a metástase. E os pais não entenderam como a filha que “estava curada” pode voltar a ficar doente. 
Associaram ao descaso médico por serem imigrantes. Ninguém pode afirmar que houve.
Nem que não houve.
Nos seus últimos dias de vida, Mariluz passou, junto com os pais, por um despejo. Foi embora de casa carregada no colo. Com dores, seguiu indo à escola, dispensada pelo hospital por “não haver mais o que fazer”. O único alívio seria morfina: não foi liberada para ser administrada em casa. 
Restou apenas a dipirona.
Mariluz sentia dores intensas, que eu não ouso sequer imaginar. Já as vi, quando perdi meu pai. Mas nunca vivi. Mesmo assim, escondia o desconforto, não queria ir para a secretaria nem que ligassem para casa, porque “não queria chatear mamãe e papai”.
Foi só um dia antes de partir que eu soube da existência dela. Porque as professoras estavam indignadas com um email recebido pela escola, vindo de outro órgão público, perguntando qual seria o “projeto pedagógico” para a menina.
Àquela altura, já era questão de tempo.
Tarde demais para um projeto pedagógico.
Ou uma política de assistência social que garantisse moradia e vida digna para a família e para ela, mesmo que isso não adiasse o fim.
Ou uma escola que permitisse a ela, e à todas as outras PCD que lá estudam, ter acesso pleno a todos os seus espaços.
É o mínimo. Deveria ser. E, como aprendi com um amigo tantos anos atrás, no mínimo, nós queremos o máximo.
Mariluz foi estrela entre os seus, apenas um número pro Estado. Como tantas outras que vemos apagar diariamente.
Mariluz, assim como Yasmin, não foi minha aluna.
E ainda assim as duas dormem de mãos dadas em algum lugar profundo dentro de mim, que eu não sei onde fica, nem porque é, mas que sinto estilhaçar em vários pedacinhos cada dia um pouco mais, cada estudante um pouco menos.
Sempre na falta do mínimo.
Mariluz, mar y luz.
Nos encontramos por lá.
Sobre o autor
Oi! Legal ter você aqui! =)
Caso você não me conheça, prazer, Danilo Heitor! Além de escrever, sou professor (de Geografia) e apresentador dos podcasts Futuros Possíveis e Professor/a de Escola Pública.
Tenho uns causos escolares postados aqui.
Também tem uns outros causos que eu posto aqui.
Além deles, tem uns contos e crônicas, e um diário de viagem, concentrados no meu site.
E meu primeiro livro, Consigo, saiu pela Editora Primata e pode ser comprado aqui.
Ah! Quer me fazer uma pergunta anônima? Clica aqui.
Até a próxima!
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Danilo Heitor

crônicas e contos de um professor

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