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Sobre mudanças (CEP #10)

Sobre mudanças (CEP #10)
Por Danilo Heitor • Edição Nº19 • Ver na web
Quando pensamos em desistir, inevitavelmente estamos pensando também em mudar. Toda desistência traz consigo uma mudança, que precisa começar em algum lugar.
Começo a minha por esta newsletter.

Sobre mudanças
Descrição da imagem: um homem carrega uma seta gigante embaixo do braço em cima de um morro
Descrição da imagem: um homem carrega uma seta gigante embaixo do braço em cima de um morro
Eu nunca fui estranho às mudanças. Mudei de casa 19 vezes (e odiei o momento de mudar em cada uma delas, até as em que eu era muito pequeno para lembrar). Mudei de ideia milhões de vezes. De postura. De direção. E de trabalho — que é o assunto principal, mas não o único, por aqui.
Comecei a trabalhar cedo, como quase toda pessoa que trabalha. Não exatamente por necessidade: minha mãe e meu pai eram ambos concursados, e o desemprego só se tornou realidade quando meu pai resolveu se demitir voluntariamente do banco para ser dono do próprio negócio. Deu errado, e o dinheiro minguou, mas nós nos adaptamos sem a necessidade de que minha irmã e eu tivéssemos que nos tornar população economicamente ativa. Mesmo assim, entendi antes da vida adulta a necessidade de me sustentar, e fui entregar primeiro panfletos e depois a própria pizza pelo bairro em que morávamos.
Não durou muito porque entrei na faculdade, depois de passar pelo ensino técnico — sugestão dos meus pais pensando justamente no mundo do trabalho à minha frente. Não me diplomei técnico em processamento de dados porque não quis fazer o estágio obrigatório, mas a escola técnica no currículo serviu para que eu arrumasse, já no segundo semestre da faculdade, justamente um estágio na secretaria municipal do meio ambiente, na área de geoprocessamento. Era a união das minhas experiências no ensino médio e na universidade.
A essa altura eu já tinha saído de casa, porque queria tomar conta da minha própria vida. Claro que tive meus pais de suporte, o quanto puderam, mas eu sempre quis independência e compreendi rápido que isso passava pela questão financeira.
E que o salário de estagiário não bastava.
Então, segui a vocação da família: prestei concurso.
Fui bancário, e larguei para conseguir terminar a faculdade. Depois fui técnico previdenciário, e também larguei, agora já formado, para poder trabalhar na área de formação, a Geografia. Estive em quase todas as seções dos editoriais de material didático em várias editoras de São Paulo, depois fui freelancer para elas. Quando acabou-se a economia do país, e com ela os freelas editoriais, escrevi textos de produtos diversos (como guarda-corpos e bona, entre outros) pensados para melhorar o resultado quando buscados no Google, dei aula de inglês (sem nunca ter feito inglês) e, finalmente, prestei outra vez concurso e me tornei professor da rede municipal.
Durante boa parte desse tempo, só uma ocupação nunca mudou: a de professor no Cursinho Popular da Psico, um projeto autogestionário ao qual me somei em 2008, e onde hoje sou coordenador pedagógico. Talvez porque lá a relação de trabalho não seja de emprego, e o espaço educacional não seja nem obrigatório e nem estruturalmente falido.
Pensei em tudo isso na última semana, depois de assumir para mim mesmo a vontade de desistir da escola. Largar outro concurso público não seria um problema profissional, já que fiz isso outras vezes (ignoro propositalmente nesta reflexão o fato de que, dessa vez, o país enfrenta uma recessão absurda e abrir mão de um emprego estável seria no mínimo um privilégio, para não dizer burrice). A diferença (ou melhor, a diferença que me incomoda) é que largar o banco ou o INSS não tem nem um terço do peso de largar a educação pública.
Não que eu me sinta em dívida com ela, ou que esteja abandonando totalmente o barco: sigo no cursinho. Mas o papel de professor da escola pública traz consigo algo difícil de lidar, já que atravessa um sem-número de expectativas, projetos, ilusões, desejos — meus e do resto do mundo.
Quem liga para um bancário a menos?
Quem aponta o dedo para um técnico previdenciário para dizer “olha lá, não aguentou”?
Já um professor, categoria que navega no imaginário popular por toda sorte de cobranças sobre futuros melhores, faz sempre muita falta em uma rede em que já há enorme falta de professores/as — em parte por afastamentos ligados à saúde mental.
E qual professor/a, nem que seja no início da carreira, não enxerga na profissão um lugar de nobreza, dignidade, utilidade para a sociedade e para as tão desejadas mudanças que se quer ver no mundo?
Desde que passei no concurso, tenho para mim que não quero, e nem devo querer, ser mártir, herói ou qualquer coisa similar. Acredito que pude ter essa perspectiva desde o começo porque entrei na educação pública “tarde”, já na casa dos trinta e tantos anos, tendo acompanhado diversas pessoas que trilharam esse caminho antes de mim — e perceberam a armadilha do professor-herói a tempo. Mesmo assim, sempre que eu penso em ganhar a vida com outra coisa e direcionar minhas forças para outros espaços educacionais que não a escola, eu me sinto mal. Como se estivesse traindo a classe.
Como se tivesse acordado do sonho. De propósito.
Mesmo sabendo que ele está se tornando cada dia mais pesadelo.
Enquanto sigo me debatendo internamente com esse assunto, o que inclui pensar com que outra coisa poderia trabalhar, resolvi mudar o que consigo mudar por agora.
Começando por esta newsletter.
Entre Aulas” surgiu, ano passado, quando eu passava o dia todo em função da escola, que então eram duas: uma pública e outra privada. Era uma forma de colocar para fora todas as reflexões, comparações, contradições e experiências que me atravessavam enquanto eu cruzava a cidade de norte a sul para lecionar. Acabei abandonando a newsletter quando o trabalho se tornou mais pesado do que a capacidade de escrever sobre ele.
Este ano, livre da escola privada, resolvi retomá-la de outra forma, revezando as reflexões sobre a escola pública com os contos, a parte criativa da minha vida que também funciona como uma forma de me relacionar com o mundo.
Agora, mudo de ideia outra vez: pretendo devolver à newsletter o caráter exclusivamente educacional, semanalmente se eu encontrar energias. Os contos, resolvi abrigar na minha conta na Scriv, uma plataforma brasileira que tem feito um trabalho bem interessante de divulgação de novos escritores.
Se você gosta da parte literária da “Entre Aulas”, não se preocupe: anunciarei aqui sempre que houver coisa nova lá.
Enquanto isso, você já pode dar uma passeada pelos textos que já postei, dois deles — aqui e aqui — merecedores de segundos lugares em dois concursos diferentes que a Scriv promoveu.
Talvez essa seja uma mudança que não influencie em nada a resolução do dilema que me consome, mas nos quase quarenta anos (faltam menos de cinco meses!) em que perambulo pela Terra, aprendi que, quando me sinto confuso, mal ou perdido, mudar alguma coisa no cotidiano ajuda a limpar a vista para enxergar melhor o que vem pela frente.
Mesmo que o futuro seja, no final, mudar sem se mudar — também conta como mudança, e como!
(A imagem que abre o texto é do fotógrafo islandês Sigurdur Gudmundsson)
Rapidinhas
— Professor, por que o laboratório de informática tem tantas trancas?
— Porque nós vivemos no mundo da propriedade privada.
— Mas quem vai roubar esse monte de tablet que não funciona?
Sobre o autor
Oi! Legal ter você aqui! =)
Caso você não me conheça, prazer, Danilo Heitor! Além de escrever, sou professor (de Geografia) e apresentador dos podcasts Futuros Possíveis e Professor/a de Escola Pública.
Tenho uns causos escolares postados aqui.
Também tem uns outros textos que eu posto aqui.
Além deles, tem uns contos e crônicas, e um diário de viagem, concentrados no meu site.
E meu primeiro livro, Consigo, saiu pela Editora Primata e pode ser comprado aqui.
Ah! Quer me fazer uma pergunta anônima? Clica aqui.
Até a próxima!
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Danilo Heitor

crônicas e contos de um professor

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Curadoria cuidadosa de Danilo Heitor via Revue.