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Sobre estar cansado (CEP #07)

Sobre estar cansado (CEP #07)
Por Danilo Heitor • Edição Nº14 • Ver na web
Hoje é terça-feira, e eu estou cansado. Quando estamos cansados tão cedo na semana, é difícil querer acordar amanhã. Ainda mais quando o destino de todo dia é um moedor de carne.

Sobre estar cansado
Uma aula na escola pública municipal de São Paulo tem 45 minutos. É o tempo de metade de um jogo de futebol profissional, de um episódio de série, de uma viagem de ponta a ponta da linha azul do metrô. O que acontece nesses minutos, entretanto, reverbera dentro da cabeça e do peito por tempo indeterminado.
Desde a última crônica, aconteceram muitas coisas na escola. Já elegi umas cinco diferentes para servir de tema pra crônica de hoje. Eu poderia falar sobre a aula que comecei varrendo a sala junto com as duas únicas profissionais da limpeza na escola de manhã - foram 30 minutos, e os 15 finais acabaram se tornando um debate sobre a situação. Ou sobre a aula que preparei no laboratório de educação digital e não pude dar porque uma das estudantes da turma é cadeirante e o elevador da escola está quebrado. Poderia falar da aula reserva que preparei pra essa mesma turma e também não pude dar porque envolvia sair da sala e as duas profissionais da limpeza, outra vez elas, estavam limpando o pátio emergencialmente — o motivo da emergência eu desconheço. Mas o fato é que, nesta terça-feira, eu estou cansado. Já estava cansado ontem. E quando estamos cansados tão cedo na semana, são pequenas as chances de encontrar nos 45 minutos de aula momentos de esperança pra contar depois.
Todas essas situações cotidianas, cada vez mais normalizadas, sempre me colocam pra refletir, pensar, desanimar e procurar um jeito de recuperar as forças pro dia seguinte. Nem sempre dá. Tem dias que eu acordo querendo chorar, não ir, ficar na cama. Volto pra casa e só penso em dormir. Chega a noite e eu me desespero porque não preparei as aulas de amanhã direito, e aí vou dormir tarde, e durmo mal. Tenho dormido mal com frequência. Revirado na cama. Culpei o calor várias vezes, mas não é só ele: é a escola. 
Contraditoriamente, não estou numa situação profissional ruim atualmente. Estou melhor que em vários outros momentos. Uma escola organizada, um grupo comprometido, um espaço físico grande, arborizado, cheio de possibilidades. Não é a escola atual, essa escola em si. É tudo, a falta de sentido, a reprodução do que existe de pior no mundo, a rotina diária de buscar uma saída que não existe. A sensação de que, mesmo quando alguma coisa legal acontece, não passa de uma fagulha, um ponto fora da curva de castigo, punição e violência que é o ambiente escolar. Eu poderia, sim, escrever aqui sobre a saída de campo com os nonos anos na última sexta, a visita à três exposições de arte, a conversa com os artistas, os olhinhos brilhantes e interessados da turma - parte dela só por estar fora da escola. Foi um dia legal, e cansativo. Mas depois dele voltamos pra escola. E a escola é extremamente competente em arrebentar com qualquer início de relação educacional mais livre. É um massacre, estrutural, feito pra moer profissionais e estudantes até que desistam.
Hoje, fiz mais uma vez a dinâmica com um dos sétimos anos de simular uma fábrica, pra depois compará-la com a sala de aula. Toda vez funciona, e toda vez me faz notar ainda mais o quanto um espaço parece com o outro. A escola-fábrica não faz sentido. Mas é tudo que temos, e estar lá dentro é um ciclo interminável de ludismo e repressão, ludismo e repressão, ludismo e repressão. Arrebentamos de leve os muros, pra no minuto seguinte estarem de pé novamente. Não é uma questão de escolha, de atuação, de posicionamento. É um projeto.
Dia desses, um estudante terminou a tarefa e me pediu para ficar no pátio. A sala de aula sufoca. Disse pra ele que se ele assumisse a responsabilidade de estar lá, podia ir. Não era o que eu queria dizer. Queria ir junto. Queria não ter que autorizar. 
Ele foi, e logo todos quiseram ir, e terminaram a tarefa de qualquer jeito pra poder estar lá fora. No processo, alguns saíram sem terminar a tarefa, e os que se esforçavam nela apontaram os dedos, todos. É isso que a escola ensina de melhor: vigiar. Cobrar punição. Cumprir tarefas sem sentido pra poder desfrutar de uma pseudo-liberdade controlada, sujeita ao relógio, ao sinal, ao início dos próximos 45 minutos.
Eu amo a sala de aula. A educação é toda a minha vida profissional. Mas eu estou cansado. De estar nela, de tentar fazer dela outra coisa, de dormir mal e acordar cedo pra fazer parte de uma engrenagem prisional e sufocante. 
E quando a gente está cansado tão cedo na semana, são pequenas as chances de encontrar nos 45 minutos de aula momentos de esperança pra contar depois.
Sobre o autor
Oi! Legal ter você aqui! =)
Caso você não me conheça, prazer, Danilo Heitor! Além de escrever, sou professor (de Geografia) e apresentador dos podcasts Futuros Possíveis e Professor/a de Escola Pública.
Tenho uns causos escolares postados aqui.
Também tem uns outros causos que eu posto aqui.
Além deles, tem uns contos e crônicas, e um diário de viagem, concentrados no meu site.
E meu primeiro livro, Consigo, saiu pela Editora Primata e pode ser comprado aqui.
Ah! Quer me fazer uma pergunta anônima? Clica aqui.
Até a próxima!
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Danilo Heitor

crônicas e contos de um professor

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Curadoria cuidadosa de Danilo Heitor via Revue.