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Sobre elefantes e correntes (CEP #02)

Sobre elefantes e correntes (CEP #02)
Por Danilo Heitor • Edição Nº2 • Ver na web
(Antes do texto, um anúncio: hoje é o último dia de pré-venda do meu livro! E também é meu aniversário, então, se quiser me dar um presente, corre lá =) )

Escrever semanalmente sobre a(s) escola(s) é um desafio interessante.
Porque uma semana em tempo escolar é um mundo inteiro.
Nesta, terminei dois projetos na escola nº 3, um de criação de países imaginários e outro de produção de uma intervenção urbana abordando temas socioespaciais paulistanos (as estudantes escolheram a questão dos rios e a desigualdade racial), ambos em parceria com a Marília Carvalho, professora de Arte e a companheira de uma vida inteira; retornei presencialmente para a escola nº 1, com direito a assumir a primeira aula do primeiro dia de retorno com um nono ano em que, pela primeira vez, esteve presente um estudante PCD - sobre o qual eu não sabia nada, cena típica de uma escola que não consegue lidar de verdade com a diversidade e, com isso, exige de seus professores um eterno improviso; e segui presencialmente na escola nº 2, onde as turmas estavam no remoto até ontem (ou seja, fui pra lá para dar aula à distância), discutindo a questão da água no planeta dentro da perspectiva do bimestre: a sociedade de consumo e os futuros possíveis.
Abuela Grillo - Curta-metragem Boliviano completo
Abuela Grillo - Curta-metragem Boliviano completo
(Abuela Grillo é uma animação ótima sobre a Guerra da Água em Cochabamba, excelente para discutir a cultura dos povos originários e a luta dos movimentos sociais pelo planeta)
Mas mesmo com tudo isso acontecendo, o que me pegou de jeito para escrever aqui hoje não foi um acontecimento escolar, embora seja algo que esteja repercutindo aqui dentro justamente nos pensamentos sobre o chão de escola: foi um livro, ou melhor, o grupo de discussão de um livro que aconteceu no último sábado.
Alvorada em Almagesto”, da argentina Teresa P. Mira de Echeverría, lançado pela Editora Monomito, é uma obra de new weird (se você não sabe o que é isso, leia este texto do Arthur Marchetto; se você sabe, leia também) que se passa em um planeta plano e retangular, Almagesto. Nele, acompanhamos a trajetória de Alastair Weller, um humano de QI altíssimo e gênio da matemática, que trabalha como carcereiro de uma alienígena que foi sequestrada de outro lugar, ainda em seu estado larvário, e “inserida” no corpo revivido de uma pessoa qualquer, sobrevivendo às custas de aparelhos e máquinas de suporte à vida. Essa alienígena, assim como os outros quatro de sua espécie no planeta, tem a capacidade de mover estrelas, de forma que os cinco se alternam na movimentação cada um de um sol diferente sobre Almagesto, onde, dessa forma, nunca anoitece.
Uma trama, digamos, não muito convencional. E que aparentemente nada tem a ver com a escola, você deve estar pensando.
Vamos lá então tentar descrever o movimento que meu cérebro fez para construir essa ponte.
Logo no começo do livro, há uma metáfora que exploramos bastante na discussão de sábado: os alienígenas em corpos frágeis e putrefatos seriam como elefantes presos a uma corrente. Acostumados a ela desde pequenos, crescem acreditando que não podem rompê-la, sem nunca conhecer o fato de que sua força é mais do que suficiente para fazerem-se livres. A autora, doutora em Filosofia e em Astrofísica e adepta do pensamento - e dos movimentos - queer e decolonial, estaria fazendo uma referência justamente ao colonialismo, simbolizado pela corrente e pela construção de uma humanidade mesquinha e opressora que escraviza uma outra espécie.
Pelo menos foi assim que interpretamos no grupo de discussão.
Essa ideia não me saiu da cabeça desde então. E encontrou morada junto a um questionamento que, enquanto professor, faço e refaço o tempo inteiro: que papel exerço dentro da escola?
Sou um elo da corrente que aprisiona estudantes-elefantes-alienígenas, confinados na escola-prisão-cadáver-putrefato?
Ajo confirmando o projeto colonial e reproduzindo discursos e práticas castradoras e que submetem a existência infantil-periférica a uma ordem opressora?
Ou é possível construir no chão de escola, junto com as turmas e a partir da força e dos desejos delas, martelos que possam ser usados como ferramentas para quebrar a corrente?
Não tenho respostas para esse questionamento, embora tenha desejos de ser martelo e evidências de ser corrente. E passei a semana inteira olhando para a minha presença na escola sob essa perspectiva, às vezes binária e às vezes dialética, dependendo do dia, da hora e de se eu consegui dormir mais do que 6h e/ou tomar café da manhã.
Agora trago ela aqui para você, que me lê. E termino sem concluir nada.
Não sou grande fã de certezas.
(A arte da capa é da Marília Carvalho)
EXTRAS
  • Fui entrevistado neste podcast, dedicado a ouvir professores/as:
Fale com o Mestre | RedCircle
  • Tomei hoje a segunda dose da vacina, um presente-coincidência que o universo me ofereceu =)
Danilo Heitor
o universo me deu de aniversário a segunda dose bem no dia dos 39 anos.

vou comemorar como na primeira:

viva o SUS!

viva os trabalhadores da saúde!

e fascista bom é fascista morto! https://t.co/zZVKUNIv4d
  • Começa hoje a FutureCon, com escritores do mundo todo. Vale conferir!
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The second edition of FutureCon is happening from September 3rd to 5th!

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Oi! Legal ter você aqui! =)
Caso você não me conheça, prazer, Danilo Heitor! Além de escrever, sou professor (de Geografia) e apresentador dos podcasts Futuros Possíveis e Professor/a de Escola Pública.
Tenho uns causos escolares postados aqui.
Também tem uns outros causos que eu posto aqui.
Além deles, tem uns contos e crônicas, e um diário de viagem, concentrados no meu site.
E meu primeiro livro, Consigo, vai sair pela Editora Primata e tá em pré-venda aqui.
Ah! Quer me fazer uma pergunta anônima? Clica aqui.
Até a próxima!
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Danilo Heitor

crônicas e contos de um professor

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Curadoria cuidadosa de Danilo Heitor via Revue.