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Sobre desistir (CEP #09)

Sobre desistir (CEP #09)
Por Danilo Heitor • Edição Nº18 • Ver na web
Um dia a mais ou um dia a menos?

Sobre desistir
Descrição da imagem: estêncil de uma criança deixando um balão em forma de coração escapar
Descrição da imagem: estêncil de uma criança deixando um balão em forma de coração escapar
Já faz um tempo que eu penso em desistir. Sair da escola, dizer chega e não voltar nunca mais. Ir fazer qualquer outra coisa da vida. Um sentimento que, neste começo de 2022, tem se tornado mais e mais intenso.
Não, eu não deixei de gostar ou de querer ensinar. Não é uma questão “de carreira”. O espinho que me espeta é mais complexo e cheio de pontas do que a simples desilusão com o exercício profissional. Ele é atravessado por dezenas de acontecimentos, momentos, descobrimentos, frustrações, entendimentos. Coisas do dia a dia, coisas da estrutura, coisas maiores que a estrutura. Dentre todas elas, eu não sei eleger uma que esteja me desequilibrando mais nestes dias. 
Mas tenho minhas desconfianças.
Todo mundo já ouviu em algum momento na vida que a escola pública “é difícil”. Eu ouvi trilhões de vezes antes de estar nela como professor. Depois de entrar, esse senso comum se aprofunda tanto que chega quase a não fazer mais sentido repeti-lo. A escola pública não é difícil: é projeto, é planejado, é barbárie.
***
Entre todas pessoas que estudam nas escolas municipais de São Paulo, cerca de 20.000 são PCD. Caso alguém desconheça a sigla, ela signica pessoa com deficiência. Na educação, se usa também uma outra sigla, NEE: necessidades educativas especiais. Não gosto desta segunda sigla, mas ela aponta para uma questão fundamental: quem foge ao padrão - corporal, mental, emocional - tem necessidades que a escola não está preparada, não foi construída para atender. Elas não são especiais: são apenas fora da norma.
Para tentar lidar com essas necessidades, a escola conta com alguns profissionais: os AVEs (auxiliares de vida escolar), os PAAIs (professores de apoio e acompanhamento à inclusão), os PAEEs (professores de atendimento educacional especializado) e as estagiárias. São quase 40 estudantes dentro dessa categoria na minha escola. Nenhum AVE. Nenhum PAAI. Uma PAEE. Três estagiárias. Na rede como um todo, há uma proporção de um profissional para dez estudantes com NEE. Uma conta que não fecha, e nem quer ser fechada.
Peguemos como exemplo as estagiárias. Até 2019, a remuneração oferecida para essa função era de 612 reais. Meio salário mínimo. Aumentou este ano para 800 e tanto. Foram abertas 100 vagas para estágio apenas na diretoria de ensino da região onde trabalho. Apareceram 6 pessoas interessadas. Duas aceitaram as condições de trabalho.
Olhemos para um outro aspecto, o arquitetônico. Minha escola tem mais de 50 anos de idade. Dois andares. Nenhuma rampa. E o elevador quebrado.
Tudo isso, e mais um tanto que eu não quero relatar aqui para não transformar a newsletter em lista de reclamações, gera coisas que, estou descobrindo aos poucos, eu não sei lidar. 
Coisas como uma turma com dois estudantes autistas, um deles não verbal e agitado, o outro introspectivo e avesso ao barulho, que eu preciso incluir em uma aula única semanal de 45 minutos, sem desconsiderar os outros 30 estudantes da turma; outra turma com uma estudante cadeirante que não tem como acessar o laboratório de informática, que é minha sala de aula, porque ele fica no segundo andar; outra com um estudante diagnosticado com TOD (transtorno opositivo desafiador) que, desde o começo do ano, busca confronto com todas as professoras, eu incluso. E aqui estamos falando apenas de quem tem um laudo médico.
Porque, no final das contas, a divisão real não é entre estudantes sem NEE e estudantes com NEE: é entre quem tem laudo e quem não tem.
Como disse uma colega, a precariedade das políticas de inclusão gera a exclusão de todos: sem ou com laudo, sem ou com NEE, não há como atender as diversas demandas da turma, estabelecer qualquer relação educativa real e inclusiva de fato, e não apenas no papel.
***
Na semana retrasada, depois de subir as escadas para a primeira aula, fiquei com falta de ar. Enquanto recuperava o fôlego, percebi um incômodo no peito, parecido com uma vontade de chorar. Não era consequência do exercício físico: o finalzinho daquela sensação era, na verdade, ansiedade.
Passei o resto desse dia, e boa parte dos seguintes, com perguntas na cabeça. O que eu estou fazendo na escola? Qual o sentido dela, para mim, para os estudantes, para as famílias? O quanto mais eu consigo seguir com esse sentimento de que é tudo uma farsa, um acordo, somos todos apenas panos quentes tentando evitar que a panela de pressão exploda?
Tenho lido notícias por todo o Brasil de estudantes com ataques de ansiedade nas escolas, individuais, coletivos. Nós, professoras, somos a categoria profissional com o maior índice de licenças médicas ligadas à mente no município. 
Olhando bem, será que já não explodiu?
***
Costumo ficar feliz, me sentir bem quando alguma atividade, algum diálogo se transforma em algo positivo na escola. Relato esses “sucessos” aqui. Escondo muitos fracassos também. O saldo dessa conta, em 2022, é que todo dia eu penso um pouco mais em desistir.
Se trabalhar for apenas para sobreviver, como é e como foi por tanto tempo, então quero sobreviver de outro jeito. Um que não me dê tantas ilusões, que não me cobre tantos futuros alheios, que não me obrigue a tapar tantos buracos de violência.
Pensando agora, enquanto escrevo, talvez o erro tenha sido justamente esse desde o início: trazer desejo e expectativa para algo que foi desenhado e aperfeiçoado para nos massacrar.
Às professoras, aos estudantes, à todos os de baixo.
Resistimos?
Sobre o autor
Oi! Legal ter você aqui! =)
Caso você não me conheça, prazer, Danilo Heitor! Além de escrever, sou professor (de Geografia) e apresentador dos podcasts Futuros Possíveis e Professor/a de Escola Pública.
Tenho uns causos escolares postados aqui.
Também tem uns outros causos que eu posto aqui.
Além deles, tem uns contos e crônicas, e um diário de viagem, concentrados no meu site.
E meu primeiro livro, Consigo, saiu pela Editora Primata e pode ser comprado aqui.
Ah! Quer me fazer uma pergunta anônima? Clica aqui.
Até a próxima!
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Danilo Heitor

crônicas e contos de um professor

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Curadoria cuidadosa de Danilo Heitor via Revue.