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Sobre abraçar o caos

Sobre abraçar o caos
Por Danilo Heitor • Edição Nº20 • Ver na web
Toda sala de aula é um espaço de poder. Querer controlá-las, além de inútil, é um exercício desgastante. Talvez seja melhor abraçar o caos.

Sobre abraçar o caos
Não escrevi nas duas últimas semanas por alguns motivos, relacionados entre si: estive bastante ausente da escola (por feriado, gripe, estágios obrigatórios de educação digital) e consequentemente não tive muito assunto que me motivasse a escrever. Nas duas últimas semanas, por outro lado, estive refletindo e me adaptando aos sentimentos que desde o começo do ano vinham me atravessando. Alguns deles derivam de situações concretas, outros nem tanto. Vou começar a reflexão de hoje a partir de um conflito concreto.
Em uma das turmas da escola, existe um estudante que, meses atrás, resolveu me confrontar sempre que podia. Me xingou direta e indiretamente, esbarrou em mim na porta da sala, me ignorou, e isso me fez levar para a reunião pedagógica a minha apreensão sobre como lidar com ele. Na reunião, descobri um contexto familiar pesado, envolvendo abandono, um laudo psiquiátrico, outros episódios de confronto e violência. Isso tudo colocou minha relação com ele em outra perspectiva, mas não aliviou minha apreensão: eu ainda teria que manejar a situação em sala de aula, o que fez ebulir dentro de mim um sentimento confuso que, agora, eu consigo entender melhor, e que tem relação direta com a parte do ser professor que mais me traz dificuldade: a gestão da sala.
Escolas são espaços de poder. Escolas organizadas tradicionalmente, como 99% das escolas públicas, reproduzem o tempo inteiro uma relação disciplinar que tem em uma ponta o prêmio e na outra o castigo. Quem cumpre as ordens é premiado; quem as desafia, ou rompe, é punido. Praticamente tudo na escola tradicional passa por essa balança, e quando um estudante nunca consegue sair da ponta do castigo, ele passa a enxergar na escola apenas isso: punição.
O que fazer quando se é punido o tempo inteiro, estigmatizado, e a partir daí castigado inclusive antes de ter feito alguma coisa, simplesmente por ser o “aluno-problema”? No limite, essa situação se traduz em suspensão, violência e expulsão da escola e, em sala de aula, em todo tipo de desprezo por parte do estudante a qualquer prática pedagógica que se apresente, já que nada na escola passa a ter outro sentido que não a punição.
De uns tempos pra cá, não por conta desse estudante, mas também, tenho revisto minha postura quanto à gestão da sala de aula. Nunca fui um disciplinador, raramente usei o recurso da punição, mas já me vi muitas vezes apelando para a ameaça, dos pais, da direção, da nota. Antes do início da pandemia, me questionei: o que se pretende com a manutenção da ordem? Por que nos apegamos tanto ao controle total da sala, mesmo quando somos adeptos, leitores, debatedores, experienciadores de pedagogias críticas e libertárias? Foi aí que passei a abraçar o caos, às vezes mais, às vezes menos, e intensificar minha postura de tratar os estudantes como pessoas, ouvi-los, mostrar que estou atento ao que estão passando, dizendo e fazendo - ao mesmo tempo em que também rompi o véu do distanciamento e passei a me apresentar como uma pessoa, não apenas o professor. Uma pessoa com gostos, com problemas, com desejos, com coisas em comum e coisas muito diferentes deles. 
Não se trata aqui da armadilha do “professor amigão”. A ideia nunca foi ser o professor querido, criar amizade com as turmas ou com estudantes em específico (embora não descarte a possibilidade), mas trazer para a diagonal a relação vertical entre professor que reproduz conteúdos e estudante que os retém. A velha discussão sobre a educação bancária, que criticamos muito e sempre, mas da qual acabamos sendo adeptos muitas vezes, voluntariamente ou não.
Para tirar a conversa da abstração, voltemos ao “aluno-problema” do início do texto. Três semanas atrás, estava dando aula para outra turma quando uma das funcionárias da escola trouxe ele e mais um, com perfil parecido, e me fez um pedido: abrigá-los na minha sala, porque tinham sido expulsos da aula deles e se ela tivesse que levá-los para a direção pela segunda vez no dia, seriam suspensos - ou até transferidos, já que estavam “no limite”. Eu poderia ter seguido a cartilha e dito que não, dada a trajetória dos dois e o risco de perturbarem a turma que estava comigo, mas olhei nos olhos de ambos e disse que podiam ficar, desde que não atrapalhassem. Os dois sentaram em um computador e, dali até o fim da aula, jogaram qualquer coisa sem grandes distúrbios.
Ao final da aula, ao sair, me agradeceram. E, de lá para cá, nunca mais encontrei confronto nas aulas com a turma deles. Pelo contrário: participaram das atividades que propus, tiraram dúvidas, deram risada com os memes que mostrei. E, claro, causaram - são adolescentes, afinal.
No último mês, tenho abraçado esse exercício: deixar a turma “perder o controle”, ainda que dentro de algum limite, e me dedicar a percorrer a sala para conversar, orientar e trocar com os pequenos grupos que se formam enquanto cumprem as atividades. Foco em quem está na minha frente e ignoro os chamados por professor, as bolinhas de papel, os gritos; tudo vira som ambiente e deixa de ser bagunça - de novo, até certo ponto, definido às vezes pela inviabilização da atividade em curso, às vezes pelo exagero que perturba inclusive o resto da turma. Quando a bagunça passa a fazer parte, ela deixa de ser bagunça.
Não é um exercício tranquilo. Traz perdas, exige mudanças e adaptações de práticas que temos há muito cristalizadas. E não sei se os frutos dessa estratégia serão realmente interessantes. Mas perder a voz, gritar, tirar da sala, proibir, dificilmente trazem resultados melhores. Na escola pública pandêmica, então, depois de dois anos sem convivência e sem vida escolar - anos em que muitos perceberam que a escola, além de castigo, é também descartável -, tornar a sala de aula um ambiente atrativo outra vez passa por entender que, assim como nós, eles são outros. E que as formas de ser são múltiplas, todas elas impossíveis de conter usando a mesma régua.
Pensando bem, isso independe da pandemia. Aceitar que nunca tivemos o controle, que o controle é uma ilusão disciplinar e opressora, liberta tanto um lado quanto o outro, e faz com que a balança se torne uma medida de muitos pesos. Afinal, ecoando bell hooks, centrar a aula na gestão e análise dos comportamentos aceitáveis e não aceitáveis, sendo os comportamentos modelo um padrão com origem de classe bem definida, é fazer parte do jogo de dominação de classe que a escola tradicional executa muito bem desde o século XIX. 
Sobre o autor
Oi! Legal ter você aqui! =)
Caso você não me conheça, prazer, Danilo Heitor! Além de escrever, sou professor (de Geografia) e apresentador dos podcasts Futuros Possíveis e Professor/a de Escola Pública.
Tenho uns causos escolares postados aqui.
Também tem uns outros textos que eu posto aqui.
Além deles, tem uns contos e crônicas, e um diário de viagem, concentrados no meu site.
E meu primeiro livro, Consigo, saiu pela Editora Primata e pode ser comprado aqui.
Ah! Quer me fazer uma pergunta anônima? Clica aqui.
Até a próxima!
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Danilo Heitor

crônicas e contos de um professor

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Curadoria cuidadosa de Danilo Heitor via Revue.