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Sobre a morte, o futuro e as segundas-feiras (CEP #03)

Sobre a morte, o futuro e as segundas-feiras (CEP #03)
Por Danilo Heitor • Edição Nº3 • Ver na web
Esta é uma newsletter em três atos. Antes de começar a ler, um aviso: a primeira parte fala de morte, luto e sentimentos doloridos. Se esses forem assuntos delicados para você neste instante, melhor pular para a parte dois.

I.
Quando faltava uma semana pra completar um ano da morte do meu pai, eu escrevi um texto colocando pra fora todos os soluços e as lágrimas que serviram de tempero na hora do almoço, sozinho, pelos botecos do Anhangabaú, onde eu trabalhava, depois que ele se foi. Claro que o texto era sobre meu pai, mas era também sobre mim, sobre ele em mim, sobre o buraco que a partida dele abriu e que eu estava ainda começando a aprender a preencher.
O exercício desentupiu a torneira e eu repeti no dia seguinte, e no outro, e por sete dias eu tirei meu pai de dentro de mim. Foi parte do processo de luto, e foram mais alguns anos até conseguir passar pelas datas dele sem ter vontade de chorar. Nada contra o choro, sempre bem vindo, mas a existência da vontade marcava, pra mim, uma página a ser superada.
Antes do meu pai, eu tinha me despedido da minha vó, mãe dele. Depois, foram as vezes da outra vó e do meu cachorro. Mas acho que as mortes familiares abriram buracos muito distintos daqueles cavados pelas mortes infantis. 
O enterro do filho de uma amiga, três anos de idade, uns quatro anos atrás, foi com certeza a coisa mais difícil que eu vivi na vida. Nada ali parecia possível, porque era tudo muito pior que isso: era real e inadiável. Me lembro da fila de pessoas para dar um abraço nela e no quanto aquele abraço me parecia inútil e até desrespeitoso, um protocolo que não ajudava a lidar com a dor, talvez até o contrário. Aquele dia eu quis tirar a morte do lugar de um jeito quase tão forte quanto o da última visita ao meu pai na UTI, pressão 6 x 3, a pele fria, e eu esfregando minha mão no braço dele sem perceber, como se fosse possível devolver o calor da vida.
Depois desse enterro, achei que nada podia ser mais dolorido. Até que perdi uma aluna. Ou melhor, a irmã de uma aluna. Yasmin gerou um dos textos mais difíceis da minha vida, que eu chorei tentando ler pra turma, e que até hoje me faz marejar os olhos só de pensar.
Eu não tenho um motivo especial para escrever sobre a morte numa segunda-feira, entre uma aula e outra. Talvez seja efeito do texto que publiquei na Scriv na última quinta, e com certeza fui motivado pela newsletter da Nessa Guedes falando sobre literatura e necromancia. Ela me fez lembrar do meu pai, da minha vó, da Billa, da Yasmin e do quanto eu carrego comigo um pouco de tudo isso. No meio de uma pandemia e de tanta morte ao redor, acho que as minhas desceram os degraus do porão e se esconderam por um tempo, vindo bater à porta agora que foram invocadas. E sempre que elas aparecem, eu sigo o caminho que construí pra conseguir fazer delas um diálogo: lançá-las às palavras, como pedras num lago, criando pequenas ondas que se espalham até a margem antes de submergir outra vez.
Até a próxima pedra.
II.
No último bimestre, em uma das escolas, o tema foi a sociedade de consumo e os futuros possíveis. Navegamos por geladeiras, mineração, Antropoceno, água, aquecimento global e justiça climática. O trabalho final era imaginar um futuro possível, utópico ou distópico. 
Entre vários trabalhos excelentes, reproduzo aqui um no qual o grupo distribuiu uma carta do futuro para a sala, baixou as luzes, colocou essa música no ambiente e em seguida declamou a carta.
Um monólogo distópico de altíssima qualidade.
***
24 de Setembro de 2086
Mais um dia se passou e estou bem cansado hoje. Parece que todos os dias pioram, andar na rua só machuca meus ouvidos, o ar estava pesado hoje, bem sujo. Desde 2020 usamos máscaras, o Covid-19 acabou mas deixou rastros irreparáveis em nossas vidas. É triste pensar nisso, as pessoas desde aquela época já não se importavam com o próximo?
Queria poder apreciar um campo com bastante árvores. Antes de falecer, minha avó dizia que no início do século existiam bastante delas, mas os humanos eram muito mais egoístas e acabaram com isso também. Pelo menos há alguns verdes pela cidade, mas ainda lamento pela fauna e flora…
26 de Setembro de 2086
Ando na rua e só vejo pessoas estressadas mas eu não as julgo, ando igual ultimamente.
Eu só queria tomar um banho demorado e esquecer dos problemas pelo menos uma vez… mas isso me traria muitos problemas financeiros como meus pais sempre dizem.
Eu acho que nos tempos antigos nessa época estaríamos na primavera. Quão lindo deveria ser as árvores floridas e coloridas? Eu não consigo nem imaginar porque o “aquecimento global” (diz meu irmão que é isso) estragou as estações pra gente…
Queria poder ter um tempo para ir ao parque, olhar um lago limpo, ouvir pássaros felizes, o som do vento balançando as folhas….
Por que o mundo se tornou tão cruel?
29 de Setembro de 2086
Fiquei sabendo pela TV que houve um incêndio em um dos maiores parques de preservação ambiental, na verdade, um dos únicos no planeta, e o governo não fez nada…. que revoltante. Os lixões só crescem e a biodiversidade diminui, o que, sinceramente, é bem irônico. Meu pai ficou tão furioso que teve crise de pânico e meu irmão teve que sair pra buscar remédio mas ainda não voltou.
Eu e minha mãe fomos estudar comportamentos e apreciar animais, uma atividade que minha vó gostava e nos ensinou a gostar também. Mas ver eles presos é muito deplorável. Pensando bem, está melhor viver nos zoológicos do que viver por ai nesse mundo sujo e cheio de pessoas más. Não consigo acreditar que exista gente que mate eles por vontade própria, mas minha mãe sempre diz isso.
01 de Outubro de 2086
Meu irmão ainda não voltou pra casa e a mamãe não para de chorar. Isso me lembrou o quanto eu odeio o governo, ele é cruel. Queria poder ajudar as pessoas com mais necessidades do que nós. Ando com muitas dúvidas.
Por que existe essa porcaria de governo? Por que ele não ajuda os que mais precisam? Por que o mundo ficou assim? Será que existem mais de mim? Claramente estou revoltado.
Sinto inveja das pessoas do passado mas ao mesmo tempo… sinto raiva. Por que vocês não se preocuparam com o agora, o futuro? Egoísmo, talvez?
02 de Outubro de 2086
Eu às vezes penso que não queria ter toda essa tecnologia. Por uma parte é bom, muito bom mas… Será que é mesmo necessário? Essas máquinas e aparelhos requerem muito da Terra, não é? Tenho muitas dúvidas, elas estão começando a corroer minha mente.
Será que ainda vou conseguir sobreviver mais 10 anos?
31 de Outubro de 2086
Meu irmão foi dado como morto. Acho que eu, mamãe e papai pegamos algum vírus. Então não vou poder escrever aqui mais, minha cabeça anda doendo muito. A humanidade realmente mudou o ciclo da Terra e ele parece chegar ao fim.
***
Escrito por Isabella Fiuza
Design por Nathaly Costa
Pensado e produzido por Beatriz Cazita
Gabriel Lins
Gabriel Blois
Isadora Marques
Nicolas Morais
III.
Começo de semana e já substituição no sétimo ano. 
Entro pela porta e ouço uma gritaria aguda, como se estivesse adentrando o recinto um ídolo adolescente dos tempos atuais.
É apenas minha segunda vez na turma, sendo que na primeira mais conversamos do que estudamos qualquer conteúdo.
— A gente adora sua aula, professor.
— Claro né, a gente só conversou com ele da outra vez.
— Professor, na minha igreja todo mundo já sabe do senhor!
Apreensivo, pergunto por quê.
— Ele não entendeu ainda, gente.
— A GENTE TE AMA, PROF!
Às vezes, as hipérboles caem bem numa segunda-feira. E fazem a cartografia se tornar bem mais interessante.
— Vocês já perceberam que a América é um pato?
EXTRAS
  • Consigo, meu primeiro livro, foi lançado dia 25/09 nesta live. Se você quiser comprá-lo, clique aqui. Também dá pra baixar a versão digital em PDF no meu site.
  • Aqui tem uma matéria muito boa sobre os novos escritores de fantasia brasileiros, vale demais a leitura.
  • Ser professor, às vezes, é cumprir promessas inusitadas.
Danilo Heitor
tema do bimestre: sociedade do consumo e futuros possíveis
aposta: façam a tarefa que eu pago um mico
turma: online
mico: dei aula vestido de dinossauro e no final cantei Pequena Eva no karaokê.

me parece um mico apropriado pra falar de aquecimento global. https://t.co/FHQ8CrImRK
Oi! Legal ter você aqui! =)
Caso você não me conheça, prazer, Danilo Heitor! Além de escrever, sou professor (de Geografia) e apresentador dos podcasts Futuros Possíveis e Professor/a de Escola Pública.
Tenho uns causos escolares postados aqui.
Também tem uns outros causos que eu posto aqui.
Além deles, tem uns contos e crônicas, e um diário de viagem, concentrados no meu site.
E meu primeiro livro, Consigo, saiu pela Editora Primata e pode ser comprado aqui.
Ah! Quer me fazer uma pergunta anônima? Clica aqui.
Até a próxima!
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Danilo Heitor

crônicas e contos de um professor

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Curadoria cuidadosa de Danilo Heitor via Revue.