Ver perfil

Sobre a cumplicidade (CEP #05)

Sobre a cumplicidade (CEP #05)
Por Danilo Heitor • Edição Nº10 • Ver na web
As crônicas da escola pública (CEP) chegam à sua quinta edição com uma reflexão sobre como duas primeiras vezes diferentes podem se encontrar na mesma sala.
Vou adorar receber (seus) comentários sobre o texto! =)

Sobre a cumplicidade
Primeira aula do primeiro dia na escola nova e vem a bomba: a professora de História faltou. Eu, eleito na semana anterior Professor Orientador de Educação Digital (professor de informática pros mais íntimos), planejava conhecer o Laboratório de Educação Digital, considerar seu uso, mas fui logo chamado para substituí-la num sexto ano.
Até você, que não é professor/a e/ou nunca deu aula em um sexto ano, conhece a fama. São crianças, mudando de ciclo (ou melhor, de fase, porque a divisão entre Fundamental I e Fundamental II não corresponde aos ciclos escolares — de alfabetização, interdisciplinar e autoral, cada um com três anos), deixando de ser uma turma com professora única para experimentar todas as dez professoras da escola.
— DEZ!? — reage uma menina quando eu relembro/anuncio isso pra sala.
— Dez. Cada uma de um jeito diferente.
É difícil dar aula pro sexto ano, sim. Não vou mentir. Muita energia acumulada, muitas horas do dia sentados numa sala. Tem tudo pra ser pior quando você é o professor de informática e não vai levá-los pra sala de informática. O que fazer, então?
Como eu já sabia que teria as duas últimas aulas do dia, com um sétimo e um nono, o jeito foi adaptar o que eu tinha preparado.
Primeiro, as primeiras coisas: se apresentar, perguntar sobre eles, contar pra eles que na minha aula não precisa pedir pra ir ao banheiro — é só pegar o “passe para ir ao banheiro” (a parte de cima de um apagador quebrado), ir e na volta deixá-lo de novo em cima da mesa.
— Lembrando que, como diz o tio do Homem-Aranha, grandes poderes…
— Grandes responsabilidades! — é quase em uníssono.
— Ou seja: se você perder o passe, a turma toda vai brigar com você.
Depois da excitação com a novidade, a reação inicial é uma mini-corrida para ir ao banheiro, que se dissipa assim que a conversa segue outro rumo. Pergunto então pra turma o que vamos estudar em “Educação Digital” (é a minha primeira vez na função), e o que vem de resposta remete à tecnologia.
Exatamente como eu queria.
O passo seguinte é ensinar a estratégia do dividir para somar: quebrar a palavra em dois, discutir cada parte dela e depois somar os significados. “Técnica” se transforma em “habilidade”, ou “como fazer”, e “logia”, que eles remetem à lógica, é traduzida como “estudo”.
— Tecnologia, então, é o estudo das técnicas. Mas o que isso quer dizer?
Faço muitas perguntas: eles devolvem uma gama imensa de respostas. A aula, nessas horas, funciona como uma grande colcha de retalhos, com você tendo a função de ligar os pontos e dar os nós. Concluímos que tudo que o ser humano construiu pra facilitar a vida, que envolve alguma técnica, é tecnologia, e a essa altura já se foi mais de uma das duas aulas pras quais fui escalado. Com o sexto ano, isso é ultrapassar o limite da aula expositiva: os diálogos paralelos pipocam aqui e ali. Sinal de que é hora de fazer algo prático e objetivo.
Como forma de entrelaçar o vínculo de confiança (que comecei a estabelecer com o passe para ir ao banheiro) e o conteúdo da aula, escrevo na lousa a tarefa, que pode ser realizada em dupla e fora de sala de aula: escolher um objeto tecnológico da escola e escrever do que ele é feito, para que ele serve, quem faz uso dele e como seria viver sem ele. A saída da sala sem supervisão tem três regras: não atrapalhar o trabalho alheio, cumprir a tarefa e respeitar o horário de retorno.
— Lembrando, sexto ano: grandes poderes…
— Grandes responsabilidades!
Aos poucos, a turma termina de copiar o que é pra fazer no caderno e se vai. Em minutos voltam os primeiros, a tarefa feita de qualquer jeito em meio à excitação de estar fora da sala sem ser recreio e sem a tutela de nenhum adulto. Aponto os problemas, peço pra refazer com mais cuidado, e assim segue acontecendo até a hora combinada. Os últimos voltam pra sala com alguns minutos de atraso, o que rende um apontamento meu, mas sem desmerecer o fato de terem todos feito a tarefa. Discutimos um pouco os resultados, mas já é hora de ir: outra substituição me espera, e arrumar a sala de informática se torna um desejo cada vez mais distante.
Na saída, na porta da sala, uma estudante me pára.
— Professor, eu adorei a sua aula!
— Poxa, é muito legal ouvir isso. Obrigado!
— Eu estava com medo, porque me mudaram de sala, meus amigos ficaram todos no outro sexto, mas foi muito legal.
— Como é o seu nome?
— Maria Luiza.
— Então, Maria Luiza. A escola também é lugar de conhecer gente nova. Você ainda vai conhecer muitas pessoas, no sétimo, no oitavo, no nono, no ensino médio… e seus amigos vão estar sempre com você no intervalo.
Ela me olha, pensativa, entre a animação e o incômodo de ter perdido os amigos.
— Eu sei, professor, mas eu estava com medo.
— Tudo bem. Aos poucos passa!
Sorrio e me afasto, procurando o caminho para o nono ano.
No restante do dia, cruzei com Maria Luiza três ou quatro vezes pelos corredores. Em todas elas, trocamos olhares de cumplicidade, típicos de quem experimenta uma primeira vez e encontra em outra pessoa a segurança que precisava pra enfrentar o medo.
Porque eu também estava com medo, Maria Luiza. Aquele friozinho na barriga bom de escola nova, sabe?
Às vezes vira caganeira. Em outras, vira sorriso.
EXTRA
Além da primeira vez como professor de Educação Digital, também é minha primeira experiência com o ensino integral, com os sétimos anos. Na sexta, tentei uma dinâmica antiga com eles pra discutir tecnologia e trabalho, e funcionou:
Danilo Heitor
sempre fui muito ruim desenhando - apesar de ter feito aula de desenho por vontade própria no colégio. uns anos atrás, conversando sobre isso com a @mar, ela me ensinou o que é ponto de fuga e como usá-lo.

peguei esse aprendizado (ou o que eu consegui tirar dele) e levei +
Sobre o autor
Oi! Legal ter você aqui! =)
Caso você não me conheça, prazer, Danilo Heitor! Além de escrever, sou professor (de Geografia) e apresentador dos podcasts Futuros Possíveis e Professor/a de Escola Pública.
Tenho uns causos escolares postados aqui.
Também tem uns outros causos que eu posto aqui.
Além deles, tem uns contos e crônicas, e um diário de viagem, concentrados no meu site.
E meu primeiro livro, Consigo, saiu pela Editora Primata e pode ser comprado aqui.
Ah! Quer me fazer uma pergunta anônima? Clica aqui.
Até a próxima!
Curtiu essa edição?
Danilo Heitor

crônicas e contos de um professor

Para cancelar sua inscrição, clique aqui.
Se você recebeu essa newsletter de alguém e curtiu, você pode assinar aqui.
Curadoria cuidadosa de Danilo Heitor via Revue.