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Snif (QA #05)

Snif (QA #05)
Por Danilo Heitor • Edição Nº9 • Ver na web
Na quinta edição dos Contos de Quase Agora (QA), uma nova funcionalidade nos celulares altera o cotidiano de uma jovem que, desde pequena, adora sentir os cheiros da vida.

Snif
— Sente só!
Ela aproximou o nariz do telefone e fungou. Um cheiro cítrico, adocicado, entrou rasgando as narinas e foi despontar no cérebro, causando uma dorzinha fina. Afastou o rosto do aparelho e diminuiu a intensidade, cheirou de novo. Era perfeito.
— Pode comprar, ela vai amar. É bem o tipo de perfume que a mãe usa — disse, com firmeza, para a irmã do outro lado da linha. Em seguida se despediu e desligou o telefone, voltando o olfato para o que estava fazendo antes: almoço. O cérebro retornou para o aroma leve da salsinha, cortada pela metade ali na tábua, interrompido pela ligação. Fosse vinte minutos mais tarde e ia ser difícil usar o celular na cozinha, o cheiro forte do feijão misturado com o do peixe, nunca que daria para entender o perfume. Pegou a faca e voltou ao corte, enquanto pensava nos cheiros e sabores todos da vida.
Gostava muito do olfato, desde pequena. Sempre foi uma pessoa de cheiros. No café, nas flores do jardim, no cangote do crush. Era seu sentido de contato com o mundo, mais que a visão, muito mais que o tato. A audição era aquela coisa, não fedia nem cheirava. O que ativava os hormônios e fazia ebulir as sensações mesmo eram os aromas. Até por isso era sempre ela que a mãe chamava para sentir “esse cheiro estranho na cozinha, filha, olha só”. Claro que muitas vezes era cheiro nenhum, mas até por isso os chamados: se ela que era autoridade nasal naquela casa não sentisse, não era nada. Lembrou algumas das vezes que a mãe teimou, os tempos de vida em família, e teve uma pontadinha de saudades do perfume daquela casa, um cheiro doce de infância, que mudou definitivamente depois da morte do pai. Toda vez que visitava a mãe tentava reativar a memória olfativa do passado, mas tudo que subia pelas narinas era uma mistura de solidão com saudade.
Até por isso evitava as visitas. Nem era tão longe, vinte minutos de ônibus, mas a ultraconexão dos tempos atuais permitia resolver quase tudo à distância. Ainda mais depois que surgiu o Snif. Foi uma loucura para ela: finalmente uma rede social que fazia sentido, com a qual ela se identificava, merecedora da sua atenção. Passava horas rolando a barrinha e sentindo os odores, campo, colheita, comidas, riachos, casas fechadas, casas vazias, casas cheias, até mesmo de sexo quando não tinha ninguém por perto. Ficou mais esperta depois que inventaram o meme do chulezão, aquele cheiro de queijo podre escondido em todo tipo de mensagem, tão forte que empesteava completamente o ambiente e gerava uma sensação de vergonha extrema, “olha lá, caiu no chulezão”. Passou a só usar o Snif sem máscara em casa, nunca mais no transporte público, na escola, no clube. Não gostava da máscara, concentrava os odores de um jeito estranho, mas era melhor do que ficar passando vergonha por ter clicado em um cheiro de comida boa e de repente inalar o azedo daquele pé que todo mundo conhecia, mas ninguém sabia de quem era.
Não era esse o único problema do Snif. Quer dizer, a maioria dos outros problemas não era com a rede social, mas com as pessoas, como sempre. Tinha gente que obrigava o parceiro a postar o cheiro do corpo quando não estava em casa, e ai se houvesse ali qualquer resquício de feromônios, perfume barato de motel ou notas de suor alheio. Uma forma extrema de controle, mas que já existia antes, desde que desenvolveram o transmissor de cheiros. Era comum entre casais desconfiados as ligações “onde você tá, deixa eu te cheirar” sempre que o outro demorava um pouco mais, dizia que estava fazendo hora extra ou que ia jogar bola com os amigos. Nada saudável, e ao mesmo tempo nenhuma surpresa para o padrão das relações afetivas contemporâneas. “Tanta coisa boa pra cheirar no mundo”, ela pensava, “e esse povo usando a tecnologia pra aspirar ciúme”. Mas esses eram problemas conjugais, muito mais que olfativos, e não era essa a maior crítica feita ao Snif. O que movimentava argumentos por todo o planeta era outra coisa: a manipulação e o vício.
Assim como todas as outras redes sociais, o Snif também era movimentado por algoritmos. Criava bolhas de cheiros, dividia nichos, e todo marketeiro experiente sabia usar isso para atiçar grupos na direção que queria. Alguns países chegaram a bloquear a rede, mas isso só piorou o problema, já que outras redes, piratas, eram criadas, para atender a um mercado crescente — e clandestino, o que significava poder cobrar e muito. A coisa piorou significativamente nas eleições: escândalos sexuais foram apimentados com cheiros, compartilhados entre eleitores rivais e disputados como sendo ou não sendo realmente daquele político, “isso não é cheiro de sexo”, “claro que é, é do motel tal, eu já fui lá”. O fenômeno dos fake smells se espalhou como uma praga de gafanhotos sobre a população de cheiradores, que crescia exponencialmente no Snif. Foi nessa época que ela resolveu dar um tempo. Amava os cheiros, mas o contexto todo estava causando paranoia, loucura, e de repente o cheiro de vinho subia as narinas estragado, ativava emoções confusas. Trancou a conta e resolveu voltar o olfato para os odores simples do dia a dia.
O feijão era um deles. Com a comida quase pronta, já pensava na experiência olfativa do almoço quando o telefone tocou outra vez. Era a mãe, sentindo cheiro de gás na cozinha, um subterfúgio quase diário usado para falar com ela. Colocou o nariz em ação, deu aquela fungada condescendente no celular só para confirmar que “não, mãe, é cheiro normal de cozinha”, e deixou a matriarca da família falar sobre as coisas de sempre, a guerra na Europa, os problemas no judiciário brasileiro e todo o esquema de corrupção envolvendo o prefeito, aquele da campanha do “cheiro de coisa nova”, que disparava mensagens pelo Snif com aromas deliciosos associados ao seu governo — alguns diziam que eram gases manipuladores de opinião fabricados na China. Com o celular ainda na orelha, desligou o transmissor de cheiros e o feijão e foi para a varanda tomar um ar. Abriu as portas de madeira, uma madeira velha e com cheiro de cupim, e sentiu a brisa bater no rosto.
De olhos fechados, inspirou fundo. Era a melhor sensação que conhecia, o cerébro gradativamente sendo preenchido pela dopamina. Ligou de volta o transmissor de cheiros, interrompeu a digressão da mãe sobre a ditadura da tecnologia “que cada vez mais controla as nossas vidas” e anunciou, entusiasmada:
— Tá sentindo? — nem esperou a mãe terminar de fungar. — Hoje vem chuva.
Era seu cheiro preferido.
Sobre a newsletter
Entre Aulas é uma newsletter semanal que alterna entre os Contos de Quase Agora (QA) e as Crônicas da Escola Pública (CEP).
Os contos são exercícios de escrita criativa que envolvem situações cotidianas e tecnologia.
As crônicas são reflexões minhas ocasionadas pelas muitas situações que atravessam o chão de escola.
Nos dois casos, estou sempre à espera de saber o que você, que leu até aqui, achou.
Me escreva!
(A imagem que ilustra o conto de hoje foi tirada daqui)
Sobre o autor
Oi! Legal ter você aqui! =)
Caso você não me conheça, prazer, Danilo Heitor! Além de escrever, sou professor (de Geografia) e apresentador dos podcasts Futuros Possíveis e Professor/a de Escola Pública.
Tenho uns causos escolares postados aqui.
Também tem uns outros causos que eu posto aqui.
Além deles, tem uns contos e crônicas, e um diário de viagem, concentrados no meu site.
E meu primeiro livro, Consigo, saiu pela Editora Primata e pode ser comprado aqui.
Ah! Quer me fazer uma pergunta anônima? Clica aqui.
Até a próxima!
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Danilo Heitor

crônicas e contos de um professor

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Curadoria cuidadosa de Danilo Heitor via Revue.