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Serei-a (QA #07)

Serei-a (QA #07)
Por Danilo Heitor • Edição Nº13 • Ver na web
Na sétima edição dos Contos de Quase Agora (QA), a história de duas mulheres de mesmo nome que, por uma dessas coincidências da vida, acabaram trocando de corpo sem querer. Ou quase isso.

Serei-a
Adriana dos Santos Neves, 37 anos, nascida em um 23 de março, 1,65m, 57kg, era uma paulistana de classe média alta que, por muito tempo, teve medo da transposição quântica e seguiu fazendo suas viagens de avião. Até que surgiu uma oferta de trabalho inegável em Natal, Rio Grande do Norte, para a qual só seria possível chegar a tempo de forma quântica. Depois de pensar durante o que restava de noite, “Nana”, como era chamada pelos amigos, agendou sua viagem para a manhã seguinte, às 11h09min34s, passagem transposicional FB 134576.
No outro extremo da cidade, Adriana dos Santos Neves, 52 anos, nascida em outro 23 de março, 1,67m, 65kg, juntou dinheiro por anos para realizar dois sonhos ao mesmo tempo: visitar a cidade de seus pais, Natal, e fazer uma viagem quântica, maravilhada que era por toda e qualquer nova tecnologia. Na correria do trabalho, “Dri” deixou para agendar a viagem em cima da hora. E quase no mesmo instante que sua xará, marcou a partida para o dia seguinte, às 11h09min36s, passagem transposicional FB 134577.
Nessa época, as viagens transposicionais já não eram mais uma novidade. Antes mesmo do Grande Desastre de Suez, que inutilizou o canal para sempre, já havia pelo mundo pesquisas sobre uma forma de transporte quase instantânea, utilizando princípios da física quântica. Popularmente, a ideia era chamada de teletransporte, mas no mundo científico o nome dado para a ideia era transposição, uma teoria baseada nos princípios da simultaneidade, da circularidade e do entrelaçamento quântico.
O primeiro laboratório a ter sucesso nas experiências era parte da Evergiven Co., uma holding sino-americana que detinha praticamente todas as patentes, equipamentos e mentes necessárias para conseguir. E o primeiro objeto a ser transposto foi, simbolicamente, um navio, que se desfez quanticamente no oceano Pacífico para ressurgir quase imediatamente na costa leste dos Estados Unidos - tudo transmitido ao vivo. Há até hoje quem diga que foi ilusão de ótica, uma versão contemporânea dos negacionistas da viagem à Lua.
As pesquisas não pararam nos objetos. Demorou pouco para, depois de algumas experiências traumáticas com moscas e baratas, conseguirem enviar uma cachorra – sempre elas – dos EUA para a China. Daí para a transposição de pessoas foi um salto – quântico. Surgiram então as empresas de transposição internacional, todas elas subsidiárias da Evergiven Co., que registrava as viagens no seu servidor central, localizado em algum lugar no subsolo chinês. A tecnologia, que ainda precisava de alguns ajustes, pedia apenas um cuidado: não agendar duas viagens ao mesmo tempo, já que todas aconteciam utilizando a mesma – e única – rede de satélites quânticos da Evergiven.
No princípio, não foi um problema: a transposição de pessoas era cara e raramente havia mais de uma viagem por dia. Mas, com o tempo, foi necessário estabelecer um intervalo limite entre as partidas, primeiro dez minutos, depois um, até chegar ao espaçamento mínimo de míseros dois segundos, que alguns cientistas afirmavam serem desnecessários, enquanto outros alertavam serem insuficientes. Em termos comerciais, os dois segundos geraram um novo problema: usuários ansiosos, ao agendar as viagens online, muitas vezes clicavam em “enviar” duas ou três vezes e acabavam agendando mais de uma viagem, sendo cobrados por todas elas. Depois de alguma reclamação, a Evergiven fez o mínimo esforço possível: ao invés de melhorar o sistema, remendou o programa de agendamento para identificar duplicações e cobrar apenas a primeira, embora mantivesse as subsequentes no registro por “motivos jurídicos”, segundo seu site oficial.
Foi assim que Dri e Nana, naquele dia, produziram involuntariamente um inacreditável caso de falsa duplicidade.
Na manhã seguinte, ambas sentaram na mesma sala de embarque. Entraram cada uma em uma cabine quântica, despiram-se e experimentaram a transposição com dois segundos de diferença. Quando seus corpos se refizeram, pouco depois, já em Natal, sentiram a cabeça girando e um estranhamento no corpo, que acreditaram ser da viagem. Saíram das cabines e recolheram as roupas, enviadas separadamente. Nana, que tinha o encontro de trabalho dali trinta minutos, vestiu-se rápido e, mesmo ainda zonza, partiu. Dri, incomodada com algo que não sabia bem o que era, esperou a tontura passar e resolveu usar o banheiro. E percebeu de imediato que aqueles pés não eram seus.
Nem as pernas. Ou o quadril.
Nada da cintura para baixo lhe pertencia.
Nana só foi notar a mesma coisa na hora do almoço.
Tornaram-se as duas primeiras — e únicas — sereias quânticas do mundo.
A Evergiven negou qualquer problema na transposição, deletou as evidências e, uma semana depois, aumentou o tempo de intervalo entre as viagens para dez segundos, sem maiores explicações. Ambas registraram reclamações indignadas contra a gigante sino-americana, que dizia para uma que a outra não existia, e apresentava para as duas os dois registros, com o ano de nascimento alterado, como sendo uma duplicidade.
O caso nunca foi adiante. Dri e Nana passaram a vida procurando sua outra metade.
Quando finalmente se encontraram, décadas depois, não houve choro, mas agradecimento.
Nana por ter realizado o sonho de jogar futebol, que só foi possível por conta das pernas habilidosas de Dri, atleta na época da universidade.
E Dri por ter conseguido dançar, tango, salsa e até cumbia-funk, daquelas bem rápidas e coreografadas — tudo graças à cintura mole e desenvolta de Nana, sambista desde os tempos em que ainda existia desfile de Carnaval.
A única reclamação, dos dois lados, foi aquela lombada esquisita entre o abdômem e o quadril, que fazia ambas parecerem fotos mal editadas no computador.
Eram metades de tamanhos diferentes.
Sobre o conto
Este conto surgiu dentro do desafio mensal de escrita da Revista Mafagafo. O prompt era o acidente do navio Evergiven no canal de Suez.
A Mafagafo é uma revista independente, bancada pelos membros assinantes, e que trabalha com contos curtos e noveletas de ficção especulativa. Os contos curtos são publicados na Faísca, uma newsletter semanal que sai toda segunda-feira. Tive uma Faísca publicada em janeiro deste ano. Você pode se tornar membro e assinar a newsletter no site da Mafa.
Voltando ao conto, quis misturar com um tema recorrente na ficção científica, o teletransporte, com um tema muito popular nas comédias românticas, a troca de corpo. Amarrei as duas ideias com algumas relações entre corporações e pessoas comuns nos dias atuais.
Me escreve contando o que você achou?
(A imagem que ilustra o conto foi tirada daqui)
Sobre a newsletter
Entre Aulas é uma newsletter semanal que alterna entre os Contos de Quase Agora (QA) e as Crônicas da Escola Pública (CEP).
Os contos são exercícios de escrita criativa que envolvem situações cotidianas e tecnologia.
As crônicas são reflexões minhas ocasionadas pelas muitas situações que atravessam o chão de escola.
Nos dois casos, estou sempre à espera de saber o que você, que leu até aqui, achou.
Me escreva!
(A imagem que ilustra o conto de hoje foi tirada daqui)
Sobre o autor
Oi! Legal ter você aqui! =)
Caso você não me conheça, prazer, Danilo Heitor! Além de escrever, sou professor (de Geografia) e apresentador dos podcasts Futuros Possíveis e Professor/a de Escola Pública.
Tenho uns causos escolares postados aqui.
Também tem uns outros causos que eu posto aqui.
Além deles, tem uns contos e crônicas, e um diário de viagem, concentrados no meu site.
E meu primeiro livro, Consigo, saiu pela Editora Primata e pode ser comprado aqui.
Ah! Quer me fazer uma pergunta anônima? Clica aqui.
Até a próxima!
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Danilo Heitor

crônicas e contos de um professor

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Curadoria cuidadosa de Danilo Heitor via Revue.