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Pavulagem (QA #06)

Pavulagem (QA #06)
Por Danilo Heitor • Edição Nº11 • Ver na web
Na sexta edição dos Contos de Quase Agora (QA), Jean resolve experimentar um simulador da vida animal. Vestindo a pele — e as penas — de um pavão, aos poucos ele percebe o limite entre o que é humano e o que é animal se diluir, até que… leia para descobrir, hehehe.

Pavulagem
Jean entrou pela porta do estúdio decidido. Também, depois de quase uma semana analisando cada possibilidade, cada espécie oferecida, já era hora de finalmente experimentar o tal simulador pelo qual praticamente todos os seus amigos tinham passado.
Olhou na cara do atendente e foi direto.
— Boa tarde, gostaria de experimentar o porco.
— Boa tarde, senhor. Infelizmente, o simulador de porco está em readequação depois de alguns… incidentes.
Jean não tinha um plano B decidido. Travou.
— O senhor gostaria de tentar alguma das outras opções? — O atendente apresentava um sorriso claramente forçado, daqueles de quem trabalha atendendo público há tempo demais, apesar da pouca idade.
— Posso… posso olhar o cardápio?
— Nosso catálogo, senhor — corrigiu o jovem —, pode ser acessado através do celular. Basta dizer “catálogo” próximo ao aparelho, dentro dos limites da loja, que o menu holográfico será projetado à sua frente.
Jean seguiu as instruções do rapaz e viu saltar da tela uma lista enorme de animais, a mesma sobre a qual tinha se debruçado por dias. Três espécies tinham seu carinho desde criança: as carpas, bonitas e elegantes, fora que sempre quis saber se peixe tinha mesmo memória curta; as girafas, disformes e desproporcionais, olhando o mundo lá de cima; e os pavões, imponentes e belos, com suas táticas de cortejo que eram exatamente o contrário das habilidades de flerte de Jean. Pensou que seria estranho simular uma girafa ali naquele ambiente fechado no centro da cidade, mas pior ainda ser uma carpa solitária ou um pavão mostrando as penas para ninguém. Percebeu que não tinha pensado direito na questão do entorno.
— A simulação é apenas da espécie ou também de seu habitat natural?
— Como preferir, senhor, mas com o habitat fica um pouco mais caro.
Claro. Era bem o perfil dessas novas tecnologias mesmo, cada coisinha, cada acessório, cada complemento ser cobrado à parte. Talvez fosse melhor então escolher um animal urbano, uma pomba, um rato, uma barata. Riu consigo mesmo da ideia da barata, lembrando de um livro estranho que sua avó sempre falava, sobre um cara que se transformava em barata. Imaginou como seria simular um animal que dá medo, mas percebeu que não teria graça sozinho, e pagar a mais para simular a própria cidade parecia jogar dinheiro fora.
Decidiu ter uma experiência mais completa.
Voltou às opções iniciais e descartou arbitrariamente a girafa, por motivo nenhum. Sobraram a carpa e o pavão. Considerou que se a história da memória dos peixes fosse real, ia acabar não se lembrando de nada. Ao mesmo tempo, parecia muito mais interessante experimentar a sensação de respirar dentro d’água do que a de ser uma ave que mal consegue voar. Por outro lado, fora nadar não tinha mais nada muito empolgante em ser um peixe, enquanto ser pavão e ostentar beleza podia levar até a… algo mais, quem sabe?
Resolveu investigar um pouco as possibilidades.
— Me diz uma coisa… como é a simulação do habitat? Tem mais alguém lá além de mim?
— Temos várias modalidades, senhor. Na experiência Comfort Solo, você estará sozinho; na Comfort Plus, poderá encontrar outras pessoas que estejam experimentando a mesma espécie em algum lugar do mundo, sem interação; na Ecosystem Harmony, além da própria espécie, você tem uma experiência não interativa com outras espécies do mesmo ecossistema; e na Ecosystem Total, você tem a experiência completa do ecossistema, com interação.
— Por completa, você quer dizer fazer tudo que aquela espécie faz?
— Exatamente, senhor.
— E você consegue consultar antecipadamente se há outras pessoas experimentando a mesma espécie que eu?
— Consigo. Qual espécie seria?
Jean pensou por alguns segundos. Nem sequer sabia como as carpas interagiam, e não era algo que parecia valer a pena pagar para descobrir. Já os pavões… a cauda, o cortejo, não era a mesma coisa que o porco, mas parecia valer a conta.
Elegeu seu vencedor.
— Pavão.
O atendente voltou-se para o computador por um instante.
— Existem 49 pessoas no ecossistema neste momento, senhor, sendo 12 delas experimentando o pavão.
— Sabe dizer quantas delas são… pavoas?
— Temos 7 pavoas, senhor. Tenha em mente que isso não significa que as pessoas experimentando são mulheres.
— Não tem problema. Quero experimentar o pavão, modalidade Ecosystem Total, por favor.
— Uma hora?
— Podem ser duas.
— Certo. Por favor, dirija-se para a sala de simulação e vista o traje completo. É importante ajustar corretamente o capacete e principalmente os óculos. Quando estiver pronto, basta apertar o botão “iniciar” junto à porta.
Jean entrou na sala e encontrou um pequeno vestiário. Deixou a roupa no armário designado e vestiu o traje. O capacete, que parecia pesar uma tonelada, era incrivelmente leve, e os óculos não pareciam mudar nada. Mas foi só iniciar a simulação para perceber que as lentes, quase imperceptíveis, faziam toda a diferença: num piscar de olhos, tudo ao seu redor se transformou em um pedaço de floresta, árvores de todos os tamanhos, um rio, até a sensação de calor era absurdamente real: podia ver o vapor d’água embaçando as coisas à sua frente. Deu dois passos e percebeu que seu andar estava diferente, sacolejante, e que não conseguia mexer os braços da mesma forma. Saltou sob uma pedra e involuntariamente movimentou-os para cima e para baixo, como asas.
A simulação era incrível.
Desceu da pedra e lembrou do motivo principal de escolher ser pavão. Precisava encontrar uma parceira. Caminhou próximo ao rio dando pequenos voos rasantes, mas só viu alguns lagartos e muitos insetos. Seriam pessoas simulando ou personagens não jogáveis? Tentou interagir, mas ao chegar perto dos insetos sentiu uma vontade incontrolável de comê-los. Todos fugiram. Seguiu caçando até que conseguiu capturar alguns, que não saciaram sua fome. Não tinha ideia de quanto tempo havia passado.
Temendo o fim da simulação, resolveu emitir sons, e ouviu resposta não muito longe dali. Seguiu na comunicação vocal por alguns minutos até finalmente ver à sua frente uma pavoa, cinza e pequena. Sem nem perceber, abriu a cauda e começou a caminhar em direção à fêmea de sua espécie, com um andar gingado que lembrava um pouco uma dança. Excitado pela possibilidade que se anunciava, Jean acelerou o passo.
Quando estava a cinco metros de distância, a pavoa simplesmente fugiu.
Sem entender nada, os pensamentos humanos cada vez mais misturados à senciência animal, Jean fechou a cauda para correr atrás da fêmea. Assim que movimentou a pata direita, sentiu seu corpo ser levantado e chacoalhado com força, uma dor penetrante e aguda atravessando o esterno e parte do pescoço. Foi perdendo a força e os sentidos lentamente, até não conseguir mais nem pensar e nem querer qualquer coisa.
Não tinha visto o leopardo se aproximar.
Sobre o conto
Este conto surgiu dentro do desafio mensal de escrita da Revista Mafagafo. O prompt era uma coleção de palavras aleatórias que deveriam ser usadas no texto — pavão entre elas.
A Mafagafo é uma revista independente, bancada pelos membros assinantes, e que trabalha com contos curtos e noveletas de ficção especulativa. Os contos curtos são publicados na Faísca, uma newsletter semanal que sai toda segunda-feira. Tive uma Faísca publicada em janeiro deste ano. Você pode se tornar membro e assinar a newsletter no site da Mafa.
Voltando ao conto, sempre me interessei pela discussão entre consciência e senciência. Humanos que se transformam em animais são comuns na literatura fantástica, mas muitas vezes essa transformação vem junto com super-poderes, ou com uma mistura “otimizada” das habilidades de ambos. Quis brincar com a possibildade de se tornar um animal e viver os detalhes mais, digamos, cruéis dessa transformação — além de aproveitar a situação absurda para refletir sobre questões de poder e de relacionamento no mundo contemporâneo.
Me escreve contando o que você achou =)
(A imagem que ilustra o conto foi tirada daqui)
Sobre a newsletter
Entre Aulas é uma newsletter semanal que alterna entre os Contos de Quase Agora (QA) e as Crônicas da Escola Pública (CEP).
Os contos são exercícios de escrita criativa que envolvem situações cotidianas e tecnologia.
As crônicas são reflexões minhas ocasionadas pelas muitas situações que atravessam o chão de escola.
Nos dois casos, estou sempre à espera de saber o que você, que leu até aqui, achou.
Me escreva!
(A imagem que ilustra o conto de hoje foi tirada daqui)
Sobre o autor
Oi! Legal ter você aqui! =)
Caso você não me conheça, prazer, Danilo Heitor! Além de escrever, sou professor (de Geografia) e apresentador dos podcasts Futuros Possíveis e Professor/a de Escola Pública.
Tenho uns causos escolares postados aqui.
Também tem uns outros causos que eu posto aqui.
Além deles, tem uns contos e crônicas, e um diário de viagem, concentrados no meu site.
E meu primeiro livro, Consigo, saiu pela Editora Primata e pode ser comprado aqui.
Ah! Quer me fazer uma pergunta anônima? Clica aqui.
Até a próxima!
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Danilo Heitor

crônicas e contos de um professor

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Curadoria cuidadosa de Danilo Heitor via Revue.