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Outra vez (QA #09)

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Outra vez (QA #09)
Por Danilo Heitor • Edição Nº17 • Ver na web
Foram anos preso na gravidade do acidente. Até a chance de uma outra vez.

Outra vez
Amarrou firme a chuteira no pé direito. Não lembrava a última vez que tinha calçado uma chuteira. Quer dizer, com certeza antes do acidente, mas quando? Quanto antes? Buscou na memória um vestiário lotado, as chuteiras pretas, sempre pretas, mas não conseguiu encontrar exatamente o momento. Também pouco importava, estava voltando a jogar, ainda que não exatamente o mesmo campo, o mesmo jogo, o mesmo vestiário. Tudo era diferente, tudo era novo e único. Inclusive a chuteira.
Parecia demais com as chuteiras antigas que usava no campo do bairro, só que sem as travas. Quase uma chuteira de futsal, não fosse o material, mais leve, completamente ajustável ao pé. Era quase um abraço, o cadarço praticamente funcionava só como enfeite. “Imagina uma chuteira dessas naquele lamaçal de quando chovia”, pensou, “não ia durar dois jogos”. Até porque eram outros jogos, outro campo. Outro esporte.
Apoiou na muleta para levantar e esperou o organizador do jogo entrar no vestiário. Só ele podia abrir a porta para o campo, ou melhor, para a “caixa”, como chamavam: cem metros de comprimento, sessenta de largura e trinta de altura, revestidos por algum material plástico que ele desconhecia. Nunca tinha entrado em uma, apesar do incentivo da mãe e da namorada, que sabiam o quanto o futebol significava para ele. Foram meses de convencimento até a aceitação de que era melhor aquele futebol do que nenhum. Nunca imaginaria, numa vida inteira, que um dia jogaria bola dentro de uma tupperware gigante, sem campo, sem linhas, só os dois gols e os vinte e dois jogadores flutuando livres de gravidade lá dentro. Um passatempo de astronautas em treinamento que, agora, se tornava mercado, acessível a qualquer pessoa que pudesse pagar ou, como era o caso dele, sem cobrança por conta da deficiência. Assistiu a alguns jogos e, depois do estranhamento inicial e da recusa orgulhosa, viu que era divertido.
Enquanto o organizador não chegava, observou o restante do seu time. Não era o único ali sem pagar: havia uma garota, bem mais nova, amputada do cotovelo direito para baixo; um senhor um pouco mais velho que usava uma prótese no pé esquerdo; e um outro rapaz, que ele chutou ser da idade dele, com as duas pernas tortas. O restante da equipe, tirando o goleiro, também seria difícil encontrar correndo atrás de uma bola em um campo comum: não tinham deficiências, mas eram corpos dissidentes no futebol ao qual estava acostumado. Essa constatação trazia de volta a mistura de orgulho e ressentimento que havia bloqueado a experiência com o futebol espacial até aquele dia: tinha sido um jogador de futebol “de verdade”, ainda que amador, e aquele “circo de pessoas estranhas”, palavras do pai, nunca seria a mesma coisa. Questionava a própria presença quando a porta da caixa de jogo se abriu, e dela saíram os jogadores do jogo anterior, recém-terminado. Alguns tinham deficiências, como ele, a garota mais nova, o senhor mais velho e o rapaz da mesma idade. Todos transpiravam igual, sorriam o mesmo sorriso e comemoravam a mesma vitória: eram astronautas da bola.
Fazia calor no vestiário, nem tanto pela temperatura. A concentração de pessoas, metade na expectativa, metade realizada, produzia uma termodinâmica social quente, vibrante. Perdeu a concentração para aquele biomagnetismo, o suficiente para não notar que um ruivo que jogaria no seu time, gordo, cabelo tigelinha, falava com ele.
– Você já jogou antes?
O cérebro não processou a pergunta.
– Já jogou?
– O quê?
– Você, já jogou?
– Futebol espacial ou futebol futebol?
O ruivo sorriu com alguma condescendência.
– Futebol espacial.
– Não, é… – pensou por um segundo se queria entregar a inexperiência – …quer dizer, já, joguei uma vez – preferiu mentir.
A garota mais nova, o cabelo preso em forma de coque, se aproximou.
– E tinha mulheres?
– Tinha… tinha, duas ou três – a mentira ameaçava sair do controle. O ruivo suspeitou da contagem, ou talvez tenha percebido a incerteza misturada ao catarro que engrossava sua voz.
– Duas ou três?
– Eram… duas no meu time e uma no adversário.
– Tão poucas… – suspirou a garota.
Ele acenou com a cabeça, como quem demonstrava concordar, e antes que alguém mais se aproximasse encontrou um jeito de sair da conversa.
– Olha, preciso ir ao banheiro antes do jogo. Vocês não vão querer o centroavante de vocês com vontade de mijar dentro de cam… da caixa.
Os dois observaram enquanto ele movimentou as muletas em direção a uma das cabines no fundo do vestiário. Entrou, baixou a tampa, fechou a porta e sentou, desgostoso com a própria mentira. “Por quê, porra, por quê”, perguntava a si próprio, “vão perceber assim que o jogo começar e eu não souber girar”. Pensou nos jogos que assistiu antes de aceitar jogar, as pessoas rodando como se fossem bonecos de pebolim. Sem gravidade, não dá pra tomar distância, então o giro era a única forma de colocar mais potência no chute. O jogo tinha regras estranhas, aliás: os jogadores podiam impulsionar outros do mesmo time, ou se apoiar nas paredes; era permitido dar as mãos para bloquear ou alcançar a bola; só não podiam acertar ou bloquear propositalmente os adversários – isso era praticamente igual ao futebol que ele jogava antes. Uma mistura de gincana de escola com acrobacia de circo, uma bola e dois gols – que ficavam exatamente na metade da distância entre o teto e o solo, proeminentes para fora da caixa, de forma que o travessão e a linha do gol “trocavam de lugar” conforme os times se movimentavam. Era comum, inclusive, os goleiros fazerem defesas tomando impulso nas traves para girar e interceptar uma bola que podia estar indo ao mesmo tempo no ângulo e no cantinho.
Executava o replay mental das principais estratégias, táticas e jogadas do “espaçobol” quando ouviu uma voz ecoar pelo vestiário.
– Boa tarde, equipe azul! Vocês tem um nome? – era o organizador do jogo.
– Não – respondeu o ruivo – estamos esperando o centroavante sair do banheiro para…
Ele levantou rápido, deu a descarga para disfarçar e empurrou a porta a tempo de interromper a frase.
– Tô aqui – e já emendou – e sugiro que nosso nome seja Inadequados.
Do nada. O nome tinha surgido na mente do nada.
A garota mais nova riu, o ruivo se surpreendeu. Uma mulher da idade dele respondeu:
– Inadequados e Inadequadas, pode ser?
Do fundo da sala, uma voz rouca e grave retrucou:
– Inadequades. Nova gramática, pessoal, vamos seguir as regras.
Ninguém pareceu concordar com nada, mas nenhuma boca mais se abriu. O organizador, de olho no relógio, aproveitou a deixa.
– Inadequades Futebol Clube, então, preparem-se pra entrar na caixa! É a primeira vez de alguém?
Ele quase levantou a mão. Resolveu manter a mentira. Dois jovens mais novos disseram um “eu” discreto e quase simultâneo. O organizador levou os dois para um canto e repassou com eles os cuidados principais. De longe, ele tentou ouvir qualquer coisa, mas foi interrompido pela voz grave e rouca.
– Gostei do nome. Realmente, combina com a gente.
– Pois é… era o nome da minha banda, da época da adolescência. Antes do…
– Do acidente?
Ele girou a cabeça e olhou fundo nos olhos dela – ou era ele?
– Como… como você sabe?
Ele – ou era ela? – arregaçou a manga da camisa.
– Ganhei essa prótese aqui depois daquele dia. A explosão foi a três quilômetros de onde eu estava. Adivinha o que eu estava fazendo?
– Dormindo? – ele chutou, pensando na própria experiência.
– Não. Jogando bola.
Não teve tempo de assimilar aquela informação. Era como se o tempo e o espaço tivessem comprimido para juntar todos aqueles fatos num mesmo lugar, ali, agora, os dois, o acidente, o futebol no campo do bairro, o vestiário, a caixa, o passado e o futuro se transformando em presente. O organizador se aproximou.
– Tudo bem? Bora pro jogo?
Os dois assentiram com a cabeça, ele ainda atordoado, e entraram na fila de onze pessoas, puxadas pelo goleiro, que perfilaram em frente à porta por se abrir como se fossem a própria seleção nacional. Vindo de dentro da caixa, ouviram o anúncio, “respeitável público, defendendo o gol azul neste primeiro tempo, com vocês, Inadequades Futebol Clube”, e a plateia, toda ela virtual e projetada nas paredes da própria caixa, fazendo ecoar aplausos, sibilos e cornetas. O goleiro passou pela porta, ele era o quinto, a cabeça ao mesmo tempo longe e ali, e antes de entregar as muletas ao organizador para entrar no espaço de jogo teve um impulso: tocar o campo com a mão direita para se benzer, como sempre fizera.
Mas não havia campo.
Sem apoio, mergulhou de cabeça em direção ao fundo da caixa, já sem gravidade, as pernas pesando para o lado oposto, e sem querer fez um giro perfeito, que pareceu ao mesmo tempo ensaiado e exibicionista. O tom dos aplausos subiu, acompanhado de um frisson de entusiasmo e expectativa. O ruivo parou ele com as mãos e um olhar confiante, a voz grave e rouca sorriu admirada. E o estômago, que revirava desde que ele sentou na privada, finalmente encontrou seu lugar.
O camisa nove era outra vez.
Sobre o conto
Escrevi este conto em 2021 para um edital da revista Suprassuma. O texto não foi selecionado, mas me proporcionou ótimas conversas sobre a representação de outros tipos de pessoas e de corpos na literatura, diferentes do meu. Com ele, descobri a existência da leitura sensível, e fiz uso dela pela primeira vez.
Há um debate importante sobre a representação na literatura (e não só nela) por parte de autores que não fazem parte dos grupos representados. Na maioiria das vezes, falta cuidado, e com isso acontecem estereotipações, exotizações e apropriações de vivências que desconhecemos. Não acredito que isso faça com que cada pessoa só possa escrever sobre aquilo que é ou que conhece, mas tenho certeza de que quando nos colocamos a escrever outras vidas, precisamos, sempre, conversar com as pessoas que as vivem.
De homens brancos contando histórias a partir de pontos de vista enviesados e sem nenhuma alteridade o mundo já passou da conta, não acham?
Me dá sua opinião (sobre o conto e sobre esse debate)!  
E leiam a Suprassuma, só contos excelentes na primeira edição!
(A imagem que ilustra o conto foi tirada daqui)
Sobre a newsletter
Entre Aulas é uma newsletter semanal que alterna entre os Contos de Quase Agora (QA) e as Crônicas da Escola Pública (CEP).
Os contos são exercícios de escrita criativa que envolvem situações cotidianas e tecnologia.
As crônicas são reflexões minhas ocasionadas pelas muitas situações que atravessam o chão de escola.
Nos dois casos, estou sempre à espera de saber o que você, que leu até aqui, achou.
Me escreva!
Sobre o autor
Oi! Legal ter você aqui! =)
Caso você não me conheça, prazer, Danilo Heitor! Além de escrever, sou professor (de Geografia) e apresentador dos podcasts Futuros Possíveis e Professor/a de Escola Pública.
Tenho uns causos escolares postados aqui.
Também tem uns outros causos que eu posto aqui.
Além deles, tem uns contos e crônicas, e um diário de viagem, concentrados no meu site.
E meu primeiro livro, Consigo, saiu pela Editora Primata e pode ser comprado aqui.
Ah! Quer me fazer uma pergunta anônima? Clica aqui.
Até a próxima!
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Danilo Heitor

crônicas e contos de um professor

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Curadoria cuidadosa de Danilo Heitor via Revue.