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Interferência (QA #02)

Interferência (QA #02)
Por Danilo Heitor • Edição Nº5 • Ver na web
O ano novo trouxe muitas mudanças por aqui. Como consequência, resolvi reformular esta newsletter. Começando pela periodicidade: o desafio é mantê-la semanal, alternando entre as crônicas da escola pública (CEP), onde vou seguir abordando a (minha) vida na escola e os contos de quase agora (QA), ensaios de ficção especulativa entrelaçando tecnologia e cotidiano.
Como neste momento estou de férias na escola, no mês de janeiro, serão quatro edições seguidas de contos.
Em fevereiro, as crônicas estarão de volta.
Ao final do conto, tem um comentário breve sobre ele.
Vou adorar receber sua opinião! =)

Interferência
“Duas colheres de açúcar, três ovos, farinha”.
Eu odeio essa estrada. Com todas as minhas forças. Preciso sair daqui logo.
“Hoje tem as coleguinhas no aniversário da doutora. Não sei como vou fazer para cantar com essa voz. Mas vou dormir um pouco de tarde que de noite estarei zerada”.
“Vocês sabem da dificuldade que tive para emagrecer. Eu tentei muitas coisas. Tomei remédio, fiz dieta da sopa, dieta saudável comendo só alimentos saudáveis. Eu fiz tudo o que estava ao meu alcance. Tudo o que vocês imaginarem sobre dieta e emagrecimento… procurei tudo. Inclusive, fiz uma cirurgia chamada gastroplastia endoscópica. Na época, perdi uns bons quilos mas, infelizmente, como não é algo para sempre, voltei a comer e a engordar”.
A pior parte é que não dá pra desligar essa merda. Quem sabe se eu cantar uma música? Mas que música? Porra, quando a gente precisa somem todas da cabeça.
“Temos muito trabalho, um filho… Parece que o Gabriel sente que a gente vai sair e fica fazendo manha até mais tarde. Tem que achar lugares novos na casa e nossa casa sempre está cheia”.
“Se não bastasse a pandemia que a gente estava junto o tempo inteiro, agora estamos juntos também no trabalho. Uma felicidade ainda maior. A gente consegue diferenciar bem o que é trabalho e o que é pessoal, mas claro, a gente acaba conversando sobre trabalho em casa e sobre a casa no trabalho”.
Já sei, sertanejo. “Eu não vou negar que sou louco por você, tô maluco pra te ver, eu não vou negar…”
“Faz bem ter os projetos solos. Eu queria muito. O Luciano também canta superbem e não merece ser segunda voz a vida inteira. Fez um trabalho gospel lindo. Acho que tudo isso soma para a dupla. Tantos artistas de bandas internacionais fazem shows solos”.
Porra, sério? Foi só cantar… parece perseguição. Vai ver uma coisa chama a outra. Que merda…
"O mapa astrológico vai dizer o que acontecerá no trabalho e na vida amorosa. É certeiro”.
Ah não, horóscopo não!
“O mapa de previsões é o que pode acontecer no próximo ano para você. Com ele, vou visitar a pessoa e explicar as possibilidades astrológicas do ano, qual é a missão dela, a personalidade e o que fazer”.
Foda-se o limite de velocidade, vou acelerar até sair daqui. Não dá, não dá!
“Estou solteira e em busca de um grande amor, mas zero paqueras. Acho que o Instagram é o novo aplicativo de relacionamento, mas mesmo assim eu sou muito fraca para paquerar. Estou precisando dar um jeito, reativar os meus contatos”.
Se pelo menos desse pra responder… mas não. E ainda fica tudo pela metade, nenhuma história completa. Bom, a maioria é melhor nem completar mesmo.
“O vírus está ali e a gente tem que tomar muito cuidado. Nunca tive muito isso de beijar sem saber o nome, sempre fui de namorar. Mais do que nunca, quero viver um relacionamento, mas a vacina é imprescindível”.
“A minha intenção não era expor o Caio, nem ser cancelada e nem lidar com hater por isso. Eu sou muito eu. Independentemente de ser cancelada ou não, sempre serei eu. Fazendo merda ou não, o que importa é que sou eu mesma. Aprendi muito com isso tudo. Vou tomar mais cuidado daqui para frente”.
É cada drama dessa gente… nossa, não aguento. Como pode? Todo esse dinheiro pra compra toda bugiganga nova que inventam e eles usam pra isso…
“Não me decepcionei com ele, porque entendi o lado dele. A internet cria muita coisa na cabeça das pessoas e entendi o julgamento que estavam fazendo com ele. Faz parte. Ele disse que nem foi ele quem me desconvidou… Mas só acho que ele poderia ter falado comigo pelo direct”.
Esses devem ser os piores três quilômetros que existem no planeta, alguém precisa proibir essa merda, não é possível. Eu passo aqui todo dia, caralho, todo santo dia!
“Quando o médico disse que não existia mais batimentos eu imediatamente paralisei e acho que, inconscientemente, bloqueei qualquer tipo de emoção ali. Eu não queria que ela sofresse. Então, sinto que guardei essa informação numa gaveta, fechei e não quis mais mexer. Eu tinha que ser forte! Então achava que eu estava bem apesar de tudo”.
Putz… assunto pesado. Logo no finalzinho… quem sabe se eu acelerar mais…
“Nós tentamos explicar de uma forma simples e sem usar palavras como vida e morte, pois acho que para ela ainda é difícil entender. Então só dissemos que a sementinha na barriga da mamãe parou de crescer e que o irmãozinho não vai mais nascer”.
“Evito chorar na frente dela porque a gente acha que ninguém é capaz de entender. Às vezes ela vem, faz carinho na minha barriga, beija… Ela me emociona demais com…”.
Acho que… acho que acabou. Ufa. Eu não aguento mais passar por esse maldito vale, todo dia é isso. Ô invençãozinha de merda, esse aparelho de transmissão de pensamento. Imagina a hora que sair do vale e ganhar o mundo. E pensar que eu reclamava de gente falando no celular no transporte público…
Falando em celular, cadê o… cadê… cadê meu celular? Era só o que… não, não, por favor não!
Caralho. Vou ter que voltar.
Sobre o conto
A versão original deste conto foi escrita dentro do desafio de escrita semanal do grupo de apoiadores da Escambanáutica, uma revista de ficção científica pós-colonial e decolonial independente. A Escambanáutica também tem uma newsletter, chamada de Pulpa. Nela, você recebe contos curtos (como este) escritos pelos escambanautas e por outras pessoas que submeteram seus textos e foram selecionados. 
Você pode ler a revista e assinar a newsletter no site do Escambau, o coletivo organizador de ambas.
Voltando ao conto, o desafio da semana era a telepatia, que podia ser abordada como achássemos melhor. Resolvi inserir o tema dentro do projeto “quase agora”, que tenho tentado trabalhar em desafios, exercícios e concursos desde 2020 e que, como explicado na introdução, relaciona tecnologia e cotidiano em futuros próximos. Para construir o conto, usei trechos de notícias com pessoas famosas de diversos portais de notícia.
Me conta o que você achou?  
(A imagem que ilustra o conto foi tirada daqui)
Sobre o autor
Oi! Legal ter você aqui! =)
Caso você não me conheça, prazer, Danilo Heitor! Além de escrever, sou professor (de Geografia) e apresentador dos podcasts Futuros Possíveis e Professor/a de Escola Pública.
Tenho uns causos escolares postados aqui.
Também tem uns outros causos que eu posto aqui.
Além deles, tem uns contos e crônicas, e um diário de viagem, concentrados no meu site.
E meu primeiro livro, Consigo, saiu pela Editora Primata e pode ser comprado aqui.
Ah! Quer me fazer uma pergunta anônima? Clica aqui.
Até a próxima!
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Danilo Heitor

crônicas e contos de um professor

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Curadoria cuidadosa de Danilo Heitor via Revue.