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Deu onda (QA #03)

Deu onda (QA #03)
Por Danilo Heitor • Edição Nº6 • Ver na web
O ano novo trouxe muitas mudanças por aqui. Como consequência, resolvi reformular esta newsletter. Começando pela periodicidade: o desafio é mantê-la semanal, alternando entre as crônicas da escola pública (CEP), onde vou seguir abordando a (minha) vida na escola e os contos de quase agora (QA), ensaios de ficção especulativa entrelaçando tecnologia e cotidiano.
Como neste momento estou de férias na escola, no mês de janeiro, serão quatro edições seguidas de contos. Esta é a terceira.
Em fevereiro, as crônicas estarão de volta.
Ao final do conto, tem um comentário breve sobre ele.
Vou adorar receber sua opinião! =)

Deu onda
— Nossa, mãe. Que uniforme feio. QUF — disse Roberto, olhando para o C e o H vermelho dentro do coração amarelo, no meio do peito da camisa branca da escola nova.
— Feio demais, filho, mas o que importa é que a escola é muito boa. EMB — respondeu a mãe, continuando o jogo que faziam desde que ele era pequeno, enquanto estacionava na porta do Colégio Hiper, a nova sensação da cidade.
O filho abriu a porta para descer, o cérebro ainda no modo jogo.
— Tchau mãe. Até a hora do almoço! AHA!
— Até, filho. Boas aulas! BA!
Não era nada muito elaborado, mas abreviar as iniciais das últimas duas ou três palavras, artigos e conectivos exclusos, tinha se tornado uma pequena tradição familiar desde que ele era pequeno, e a adolescência não tinha conseguido (ainda?) romper todos os vínculos infantis com a mãe. O jogo servia para acalmá-lo em momentos de nervosismo.
Roberto desceu do carro batendo a porta e olhou para a escola, um prédio moderno, todo pintado em tons de vermelho com detalhes em amarelo. Tirou o Manual de Boas-Vindas do bolso, confirmou a primeira aula no Laboratório de Ciências e seguiu o mapinha na direção correta.
Andou pelos corredores observando tudo. Na porta do laboratório, uma fila: três pessoas à sua frente. Enquanto esperava, observou também os novos colegas. Pareciam todos tão deslocados quanto ele, vidrados no teto, nas janelas, nas pessoas que passavam, tal qual gatos em casa nova depois de mudança. Estava distraído, olhando para dentro de uma das salas de aula, quando chegou a sua vez.
— Bom dia — disse uma voz feminina e firme —, bem-vindo à sua primeira hiper    experiência!
Estendeu-lhe um panfleto e continuou:
— Siga as instruções desse panfleto e, depois de guardar toda a roupa, tome isto — entregou-lhe um comprimido.
— O que é isso? OQI — respondeu Roberto, ainda no reflexo do jogo.
— Oi?!
— Ehr, ahn… nada não — envergonhou-se.
Olhou para baixo e entrou no vestiário. A mulher fechou a porta. Roberto observou aquela sala toda branca, um banco no meio, um armário, e começou a seguir as instruções do papel: tirou toda a roupa, escolheu um dos armários, abriu com a própria digital. Guardou a roupa dentro, fechou a porta, pegou o comprimido na mão e releu o que o panfleto dizia:
“A pílula de nanicolina serve para ajustar seu metabolismo ao novo tamanho. Aguarde trinta segundos após tomá-la e posicione-se no local marcado no centro do vestiário. Em seguida, aperte o botão para receber o feixe do raio diminutor. Depois disso, é só seguir a seta. Não se preocupe: esta experiência foi autorizada pelos seus responsáveis no ato de matrícula”. 
Roberto fitou o comprimido na palma da mão, entre o medo e a curiosidade. Confiava na mãe, que desde dezembro só sabia falar da excelência da escola nova, e também o raio diminutor não era assim uma novidade: já havia até uma dessas salas de escape room na cidade que usava a tecnologia simulando uma típica casa de subúrbio norte-americana, com jardim, insetos, cachorro e tudo. Respirou fundo e engoliu a pílula a seco, sem nem perceber a oferta de água ao lado do armário, e se posicionou no lugar marcado. Contou mentalmente até trinta e apertou o botão à sua frente.
Um feixe de luz colorido tocou sua cabeça e aos poucos envolveu seu corpo todo. A sala parecia aos poucos aumentar de tamanho, dez, trinta, duzentas vezes maior do que era. Roberto caiu de joelhos, sem ar, e esperou alguns segundos até recobrar direito os sentidos e lembrar que a sala não tinha mudado: ele é que tinha encolhido. Seu coração parecia bater três vezes mais rápido, a boca seca, efeitos da nanicolina. Levantou-se e, do lado do armário, viu uma caixa, imperceptível até então, com a palavra “uniforme” escrita na frente, além de uma seta que indicava uma porta, “Laboratório de Ciências” piscando acima.
Do outro lado da porta surgiu um homem, de macacão vermelho e segurando um capacete com duas antenas.
— Bem vindo, jovem, ao laboratório de ciências! Por favor, vista um uniforme que lhe caiba e, depois, este capacete — exclamou o desconhecido, entusiasmado e apontando para a caixa.
— Como… como eu vou saber… meu… tamanho? — respondeu Roberto, cobrindo o corpo envergonhado por estar pelado.
— Hmmm… você parece ser M — disse o homem. Pegou um dos pacotes de dentro da caixa, a letra “M” na frente, e jogou em sua direção.
Roberto agarrou o pacote no ar. O homem repetiu:
— Vista o uniforme, o capacete e venha comigo. E logo! Você não quer correr o risco de ser pisoteado pelo próximo — avisou, em um tom ao mesmo tempo protetor e ameaçador.
“PPP”, pensou Roberto, enquanto vestia o uniforme rápido, mais pela vergonha do que pelo perigo anunciado. Colocou também o capacete e seguiu o homem através da porta.
O interior do laboratório era cheio de aparelhos eletrodomésticos de décadas atrás, coisas que ele tinha visto só em filmes ou na casa do avô. Identificou um liquidificador, uma televisão 4K daquelas bem antigas, um forno elétrico e o que ele entendeu ser uma geladeira. Era ao mesmo tempo estranho e instigante, ver aqueles objetos conhecidos em outra proporção. O gigantismo da sala também era impressionante.
Mais calmo, Roberto olhou para o homem que caminhava agora ao seu lado e perguntou:
— Onde estamos indo? Quem é você?
— Você já vai ver. Eu sou o assistente da professora — respondeu o homem, parando em frente a um micro-ondas com a porta aberta. Dentro, cerca de vinte adolescentes, com o mesmo uniforme, o mesmo capacete e a mesma sensação de atordoamento.
— Chegamos. Entre, que a professora já vem.
Observado por aqueles quase quarenta olhos, Roberto encontrou um canto sobre o prato giratório, acenou para um dos estudantes que lhe fez um gesto de boas-vindas e percebeu uma caixa azul da cor do céu encostada ao seu lado. Eram os cinco minutos mais inusitados de sua vida, e ele mal tinha tido tempo para processar aquilo tudo. Observava o diamante estampado na tampa da caixa quando uma mulher de voz suave entrou no micro-ondas, acompanhada do que parecia ser o último dos estudantes.
— Bom dia, Turma M3! Vocês devem estar se perguntando por que eu reuni vocês dentro de um micro-ondas, logo no primeiro dia de aula.
Não era bem uma pergunta. A turma seguia em silêncio.
— Bom, meu nome é Lucy, sou sua professora de Física e sempre acho que é melhor mostrar do que falar. Alguém imagina o que tem dentro dessa caixa? — continuou, apontando para onde estava Roberto.
— Micro pranchas? — respondeu um aluno, em tom de gozação.
A professora Lucy olhou compenetrada para o engraçadinho por alguns segundos, e caiu na gargalhada.
— Muito boa, como eu não tinha pensado nessa? Mas não, não são micro pranchas. São… lentes sensoriais dinâmicas! — exclamou, enquanto se aproximava da caixa e abria a tampa, tirando uma das tais lentes de dentro.
A turma seguiu em silêncio.
— Vocês nunca viram uma dessas, nem em filme?! Elas servem pra… bom, não vou estragar a surpresa. Peguem uma cada um — e começou a lançar as lentes para a turma.
Depois de distribuí-las, a professora caminhou pelo micro-ondas, assegurando-se de que todos vestiam o objeto corretamente por baixo do capacete. Assim que teve certeza, tirou do bolso um controle e apertou nele um botão.
A porta do micro-ondas fechou lentamente.
A professora voltou-se para a turma e perguntou:
— Preparados? Então vamos lá! — exclamou, pressionando outro botão do controle.
Imediatamente, o prato começou a girar, não tão rápido para desequilibrar a turma, nem tão devagar quanto um carrossel infantil. Era a velocidade certa para a experiência. Ao seu redor, os estudantes observaram tremular ondas coloridas, azuis, roxas, vermelhas, amarelas, que se chocavam entre si e produziam pequenas explosões, similares a fogos de artifício. Às vezes, essas explosões pareciam tomar formas, de animais, objetos, pessoas, gerando um sentimento parecido com o de observar nuvens no céu. Um a um, os estudantes emitiam sons de encantamento, sorrindo de ponta a ponta por baixo do capacete, os uniformes recebendo o contato das ondas e ora refletindo, ora absorvendo, ora estilhaçando-as em um sem-número de cores maravilhosas.
De repente, a professora chamou a atenção de todos.
— Turma! Apertem o botão no lado direito do capacete para ligar as antenas — orientou, enquanto seguia ela mesma a instrução em seu capacete.
Roberto obedeceu e de repente era possível ouvir as ondas, um zumbido que lembrava as abelhas e, ao mesmo tempo, tinha um timbre similar aos antigos discos de vinil da casa do avô. Quando explodiam, provocavam um sibilo, parecido com o de um chocalho cheio de contas, e ao se chocarem com os uniformes o som era de ovo estalando na frigideira.
Sentindo o cérebro ser tomado pela dopamina, Roberto viu um cavalo cor-de-rosa sendo atacado por uma tartaruga lilás à sua frente, ambos emitindo sons parecidos com o de um golfinho em transe, e subitamente lembrou da mãe e do jogo de criança. Olhou para a caixa celeste ao seu lado, algumas lentes ainda dentro, e balbuciou para si mesmo, enquanto escrevia as iniciais de cada palavra no ar com o dedo:
— Lentes Sensoriais Dinâmicas. Faz todo o sentido.
Sobre o conto
Este conto surgiu dentro do desafio mensal de escrita da Revista Mafagafo. O prompt era “vocês devem estar se perguntando porque reuni vocês neste elevador”.
A Mafagafo é uma revista independente, bancada pelos membros assinantes, e que trabalha com contos curtos e noveletas de ficção especulativa. Os contos curtos são publicados na Faísca, uma newsletter semanal que sai toda segunda-feira. Coincidentemente, tive uma Faísca publicada ontem. Você pode se tornar membro e assinar a newsletter no site da Mafa.
Voltando ao conto, a ideia era brincar com algumas referências pop da minha (e talvez da sua) adolescência. Será que você pegou todas?
Me escreve contando o que você achou, tanto do “Deu onda” quanto da Faísca de ontem!
(A imagem que ilustra o conto foi tirada daqui)
Sobre o autor
Oi! Legal ter você aqui! =)
Caso você não me conheça, prazer, Danilo Heitor! Além de escrever, sou professor (de Geografia) e apresentador dos podcasts Futuros Possíveis e Professor/a de Escola Pública.
Tenho uns causos escolares postados aqui.
Também tem uns outros causos que eu posto aqui.
Além deles, tem uns contos e crônicas, e um diário de viagem, concentrados no meu site.
E meu primeiro livro, Consigo, saiu pela Editora Primata e pode ser comprado aqui.
Ah! Quer me fazer uma pergunta anônima? Clica aqui.
Até a próxima!
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Danilo Heitor

crônicas e contos de um professor

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Curadoria cuidadosa de Danilo Heitor via Revue.