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A visagem do ovo (QA #01)

A visagem do ovo (QA #01)
Por Danilo Heitor • Edição Nº4 • Ver na web
O ano novo trouxe muitas mudanças por aqui. Como consequência, resolvi reformular esta newsletter. Começando pela periodicidade: a partir de hoje, o desafio é mantê-la semanal, alternando entre as crônicas da escola pública (CEP), onde vou seguir abordando a (minha) vida na escola e os contos de quase agora (QA), ensaios de ficção especulativa entrelaçando tecnologia e cotidiano.
Como neste momento estou de férias na escola pública (e fui demitido da empresa-que-tenta-simular-uma-escola onde trabalhava à tarde), já começo quebrando a regra que estabeleci aí em cima: neste mês de janeiro, serão quatro edições seguidas de contos.
Em fevereiro, as crônicas estarão de volta.
Ao final do conto, tem um comentário breve sobre ele.
Vou adorar receber comentários! =)

A visagem do ovo
Gerônima roçava a terra mais por teimosia. Tinha meses que não chovia. Meses que não crescia nada. Vá lá que seu feijão tinha fama de duro na queda, mas sem água não há nem luta para perder.
Fazia porque era rotina, e sem rotina sobrava só a tristeza. Não dava; mãe de dois não tinha tempo para essas coisas. Então partia para a roça, e roçava, e jogava as sementes na terra junto com o que restava de esperança.
Naquele dia, o sol fervia mais que o normal, e o solo e a cuca sabiam bem disso. Se aproximavam as doze horas e com ele a pino não tinha quem conseguisse prosseguir. Gerônima se preparava para descansar a enxada quando viu brotar da terra um ovo.
Não um ovo de galinha, de pato ou de codorna. Um ovo enorme, do tamanho de uma casa, que pareceu surgir do chão sem produzir nele qualquer fenda. Pior: do ovo, escorria água, como se saltasse de dentro de um lago.
Gerônima não gritou: paralisou. Pensou logo ser alguma visagem, e assim que pôde chamou o filho mais novo para ter certeza dos olhos.
— Antônio! Venha cá!
O rapazote reconheceu o tom de espanto e correu. Parou ao lado da mãe e igual desacreditou da própria vista.
— Diabo… diabéisso, mainha?
— E eu sei?!
Enquanto mãe e filho se espantavam, no ovo se abriu uma porta. De dentro dela, saltou um ser estranho, alto, vestindo uma dessas roupas de mergulho típicas de lugar com muita água, e caminhou em direção a Gerônima, agora certa de que era visagem.
Antônio tomou a frente da mãe, mas o mergulhador-fantasma parou e apontou para ela. Parecia calmo, sem oferecer ameaça. A mulher tirou o filho da frente e encarou o bicho nos olhos — ou onde achou estarem eles.
— Quem és tu? O que quer de mim?
O ser-visagem permaneceu calado. Tirou da bolsa presa às costas um envelope e o ofereceu à Gerônima.
Meio sem jeito, a roceira aceitou o pacote, e o abriu. Dentro dele, duas folhas de papel com algo escrito, indecifrável para a sua leitura. Antônio tomou as folhas para si e também não entendeu nada. Gritou pelo irmão mais velho.
— Euclides! Corra aqui!
O primogênito de Gerônima, pessoa mais letrada da família, saiu de casa num pulo e tomou o mesmo susto dos outros dois ao ver a cena que se desenrolava. Antônio entregou-lhe as folhas de papel e deu um chacoalhão para trazer o irmão de volta do choque.
— Se arrume, homem! Esse bicho aí, tá vendo? Desceu desse… dessa… dessa joça e entregou isso pra mãe. Tu sabe o que é? Consegue ler?
Euclides baixou os olhos para o papel e, ainda em choque, reconheceu a partitura.
— Eu sei o que é, é uma partitura. Mas não sei “ler”.
— Como não sabe?
— Não sei. Precisa de um músico pra saber.
Gerônima, até então de olhos fixos no mergulhador, interrompeu a discussão.
— Antônio! Se tem que ser músico, vá chamar o filho de Luiz, aquele sanfoneiro! Vá enquanto eu passo um café pro… forasteiro.
O caçula concordou com a cabeça e saiu em disparada, enquanto Euclides observava o mergulhador mais de perto e Gerônima colocava água para esquentar.
Mal apitou a chaleira e o aprendiz de sanfoneiro chegou junto a Antônio, o instrumento nas mãos, e um sorriso de descrença no rosto. Cumprimentou Gerônima na cozinha, aceitou a xícara de café dali a pouco e rumou para a roça no fundo da casa. Atravessou a porta e só não fez cair a sanfona mais do que o queixo.
Antônio precisou segurar o rapaz pelos braços.
— Eu sei, homem, eu sei, todo mundo aqui teve a mesma reação. Mas foi assim: saiu esse… ovo do chão, de dentro dele o bichão aí, e então ele entregou essas folhas aqui, ó, pra mainha. Euclides disse que é uma partitura.
O sanfoneiro pegou o papel com as mãos trêmulas que só, e precisou de uns segundos para processar a coisa toda. Nisso, voltou Gerônima com o café, que o mergulhador não aceitou, dando a entender que não podia tirar o capacete.
O filho de Luiz tomou o café de um gole e se recompôs. Posicionou a partitura em uma mesa e começou a tocar, nota por nota. Formavam um xote bom de dançar.
Conforme a música ganhava ritmo, o ovo começou a piscar, vermelho, azul, laranja, verde e amarelo, reagindo ao som da sanfona. De sua lateral, saíram outros quatro seres-mergulhadores, tocando bumbo, caixa e triângulo. Juntaram-se ao sanfoneiro e um deles tirou da bolsa outro papel e um microfone, que entregou à Gerônima.
A roceira bateu os olhos na letra, entendeu o ritmo e, lembrando da cantora que fora na juventude, soltou a voz:
— O sertão vai virar mar… dá no coração, o medo que algum dia o mar também vire sertão…
Fechou-se ali um encanto. Antônio, Euclides e os mergulhadores formaram pares, e se puseram a dançar. O som foi atraindo gente das vizinhanças, e em pouco tempo todo o povoado bailava ao redor do ovo na roça de Gerônima, num São João fora de época que atravessou a noite toda.
Na manhã seguinte, Antônio foi o primeiro a acordar. Não se lembrava de ter ido dormir. Abriu os olhos, deitado no meio da roça, e não viu nem sinal do ovo.
Aos poucos, o povo todo foi também se levantando, confuso. Pareciam despertar de um transe, sem entender direito onde estavam ou o que aconteceu.
Os mergulhadores tinham sumido.
Gerônima, a garganta arranhada da cantoria, a voz quase no fim, caminhou cambaleante até o lugar de onde brotou o estranho ovo. Encontrou lá um cachorro caramelo, desses bem vira-lata, latindo sem parar para um buraco que surgira no solo.
A roceira se aproximou e ouviu correr, lá embaixo, tanta água que nem pode acreditar. Chamou Euclides e Antônio e toda a vizinhança e mandou trazer baldes e uma corda, que tinha água para todo mundo.
Daquele dia em diante, a roça de Gerônima deixou de ser só rotina. Tornou-se futuro. E toda última sexta-feira do mês, para celebrar o acontecido, o povoado se encontra por ali para dançar e cantar a visagem do ovo.
Ao cachorro, chamaram Baleia.
Sobre o conto
Este conto foi escrito como presente de amigo secreto de final de ano do grupo de apoiadores da Escambanáutica, uma revista de ficção científica pós-colonial e decolonial independente. A Escambanáutica também tem uma newsletter, chamada de Pulpa. Nela, você recebe contos curtos (como este) escritos pelos escambanautas e por outras pessoas que submeteram seus textos e foram selecionados. 
Você pode ler a revista e assinar a newsletter no site do Escambau, o coletivo organizador de ambas.
Voltando ao conto, o pedido da minha amiga secreta era por uma história em que viajantes viessem do futuro para contar que o sertão realmente iria virar mar.
E aí, o que você achou?  
(A imagem que ilustra o conto foi tirada daqui)
Sobre o autor
Oi! Legal ter você aqui! =)
Caso você não me conheça, prazer, Danilo Heitor! Além de escrever, sou professor (de Geografia) e apresentador dos podcasts Futuros Possíveis e Professor/a de Escola Pública.
Tenho uns causos escolares postados aqui.
Também tem uns outros causos que eu posto aqui.
Além deles, tem uns contos e crônicas, e um diário de viagem, concentrados no meu site.
E meu primeiro livro, Consigo, saiu pela Editora Primata e pode ser comprado aqui.
Ah! Quer me fazer uma pergunta anônima? Clica aqui.
Até a próxima!
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Danilo Heitor

crônicas e contos de um professor

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Curadoria cuidadosa de Danilo Heitor via Revue.