Ver perfil

A última festa (QA #04)

A última festa (QA #04)
Por Danilo Heitor • Edição Nº7 • Ver na web
O ano novo trouxe muitas mudanças por aqui. Como consequência, resolvi reformular esta newsletter. Começando pela periodicidade: o desafio é mantê-la semanal, alternando entre as crônicas da escola pública (CEP), onde vou seguir abordando a (minha) vida na escola e os contos de quase agora (QA), ensaios de ficção especulativa entrelaçando tecnologia e cotidiano.
Como neste momento estou de férias na escola, no mês de janeiro, foram três edições seguidas de contos. Esta é a quarta e última.
Em fevereiro, as crônicas estarão de volta.
Ao final do conto, tem um comentário breve sobre ele.
Vou adorar receber sua opinião! =)

A última festa
Cleber havia sido uma pessoa alegre e brincalhona. Ninguém, absolutamente ninguém, conseguia lembrar uma história triste dele, ou com ele, pra contar. De certa forma, isso era bom: deixava as conversas todas menos pesadas durante seu funeral. Não se ouviam risadas, claro, afinal a partida doía, mas em todas as rodinhas espalhadas pela sala de velório era possível encontrar sorrisos maiores e menores. Mesmo o corpo, no caixão, parecia feliz — efeitos de uma tanatopraxia descuidada.
Era costume na família, desde sempre, oferecer alguma comida na despedida. Trazia conforto, principalmente o açúcar, e diziam alguns que a doçura dos biscoitinhos disparava a ternura nas lembranças. A correlação não tinha qualquer fundamento científico, mas quem é que estaria preocupado com ciência no momento mais metafísico da vida? Então as pessoas comiam, e sorriam, e tomavam café, que era pra tornar mais fácil aguentar a maratona da despedida, iniciada logo cedo de manhã e com hora pra terminar só no dia seguinte.
Quando o sol se foi, o filho de Cleber falava sobre a paixão do pai pela tecnologia. Tudo que era novidade ele comprava, e acabava encostado em casa. Começou a contar histórias e lembrou de uma das bugigangas, em particular, comprada justamente para aquele dia. O rapaz decidiu que era importante que aquilo que o pai tinha imaginado para o próprio velório se realizasse, pediu licença e correu em casa para buscar o aparelho que, em última instância, não era mais do que um tocador de música. A diferença, que inclusive tinha convencido o pai a realizar a compra (não que precisasse muita coisa), era a anunciada função shuffle da alma: um par de plugs que o proprietário grudava na cabeça e permitia ao aparelho criar uma playlist que representasse toda a sua vida. Claro que a esposa e a filha, acostumadas com as presepadas de Cleber, não tinham botado fé naquilo — provavelmente funcionava tão bem quanto o mini-liquidificador USB ou o adestrador automático de cachorros, ambos abandonados em alguma caixa no porão da casa. Mas o marido e pai não se abalou e, teimoso que era, todo domingo à noite plugava no tocador pra atualizar a lista de músicas a serem reproduzidas na sua despedida.
O filho voltou ao velório já começo de noite. Posicionou o aparelho no canto da sala e leu o manual de instruções. Eram trocentas coletâneas gravadas, cada uma para uma ocasião, algumas das quais ele se lembrava: “Natal na casa da vó”, “fim de ano na praia”, “aniversário de casamento”. Fuçou no menu até encontrar o tal shuffle da alma e viu que a última atualização feita pelo pai não tinha nem duas semanas — o tempo exato da última internação no hospital. Deixou o volume pela metade e apertou o play.
Talvez pelo início súbito da música, talvez pela tristeza melancólica da canção, quase todas as conversas pararam assim que os primeiros acordes de “Dia Branco” começaram. Aos poucos, cada uma das quase cinquenta pessoas ali presentes baixou a cabeça, algumas com um sorriso de saudade, outras já quase às lágrimas.
Quando a música terminou, pipocaram abraços por todos os cantos. Era como se naquele momento o pai, o amigo, o companheiro de conversa fiada tivesse se conectado a todos em uma última comunhão indescritível. A sala se tornou silêncio por alguns segundos, interrompido apenas pelo começar da próxima canção. E não foi preciso mais do que dois acordes para que praticamente todo mundo percebesse o que estava prestes a acontecer: em pleno velório, uma marchinha de carnaval inundava o ambiente.
“As águas vão rolar…”
O filho correu em direção ao aparelho, fuzilado pelos olhares da mãe.
“Garrafa cheia eu não quero ver sobrar…”
O tio, que era só um grauzinho menos fanfarrão do que o irmão morto, começou a gargalhar.
“Eu passo a mão no saca, saca, saca-rolha…”
Quase lá, com o dedo a centímetros do stop, o rapaz sentiu o braço ser seguro por alguém.
“E bebo até me afogar, deixa as águas rolar!”
Era a irmã, que chamou sua atenção para o resto da sala.
- Olha!
Encabeçado por uma das conterrâneas do pai, um trenzinho havia se formado, crescendo a cada volta que dava. Alguns tinham arrancado o terno, outros arregaçavam as mangas da camisa e subiam as calças acima do joelho. A mãe, a essa altura, já tinha perdido quase toda a munição dos olhos, e até esboçava um sorriso. Os dois andaram de mãos dadas até ela e, sem dizer nada, passaram a observar a festa póstuma do pai.
Ao final da marchinha, houve um frisson coletivo de expectativa pela próxima música.
E o salão inteiro explodiu em êxtase quando a voz de Zeca Pagodinho tomou conta do ambiente, deixando a vida levar a todos. Até mesmo a morte.
Sobre o conto
Este conto surgiu dentro do desafio mensal de escrita da Revista Mafagafo. O prompt era um meme que brincava com alegria e tristeza, com o desafio sendo escrever algo que englobasse sentimentos opostos.
A Mafagafo é uma revista independente, bancada pelos membros assinantes, e que trabalha com contos curtos e noveletas de ficção especulativa. Os contos curtos são publicados na Faísca, uma newsletter semanal que sai toda segunda-feira. Coincidentemente, tive uma Faísca publicada na semana passada. Você pode se tornar membro e assinar a newsletter no site da Mafa.
Voltando ao conto, meu pai partiu num 25 de janeiro, treze anos atrás, e no velório dele realmente tocou uma marchinha de carnaval acidental. Usei essa memória para brincar um pouco com a despedida dele, que foi, dentro dos limites, um momento também de celebração.
Me escreve contando o que você achou, tanto do “Deu onda” quanto da Faísca de ontem!
(A imagem que ilustra o conto foi tirada daqui)
Sobre o autor
Oi! Legal ter você aqui! =)
Caso você não me conheça, prazer, Danilo Heitor! Além de escrever, sou professor (de Geografia) e apresentador dos podcasts Futuros Possíveis e Professor/a de Escola Pública.
Tenho uns causos escolares postados aqui.
Também tem uns outros causos que eu posto aqui.
Além deles, tem uns contos e crônicas, e um diário de viagem, concentrados no meu site.
E meu primeiro livro, Consigo, saiu pela Editora Primata e pode ser comprado aqui.
Ah! Quer me fazer uma pergunta anônima? Clica aqui.
Até a próxima!
Curtiu essa edição?
Danilo Heitor

crônicas e contos de um professor

Para cancelar sua inscrição, clique aqui.
Se você recebeu essa newsletter de alguém e curtiu, você pode assinar aqui.
Curadoria cuidadosa de Danilo Heitor via Revue.