Eu posso estar errado

Por Gabriel Schincariol Cavalcante

Quem está motivado está mal informado (publicado originalmente no medium)

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Quem está motivado está mal informado (publicado originalmente no medium)
Por Gabriel Schincariol Cavalcante • Edição Nº19 • Ver na web
Ritmo é mais importante que motivação, que, por sua vez, não serve para muita coisa.

Esse texto foi originalmente publicado no Medium. Mas, aproveitando o começo do ano e a sua característica universal de ser a data em que fazemos planos para executarmos tudo o que não executamos no passado, achei interessante trazer ele pra cá. E também porque eu não escrevi uma letter nova. Em breve eu escrevo. Até.
Eu estava certo de que, dessa vez, seria diferente. Comprei tudo pela internet. Preparei uma rotina. Criei metas. Adicionei lembretes no celular. Segui as dicas dos vídeos das pessoas famosas. Um, dois, três dias. Duas semanas. Um mês. A vontade foi passando, começar era cada vez mais difícil, fica para depois, amanhã eu faço, amanhã eu vou.
Dessa vez, não foi diferente.
Isso já aconteceu mais vezes do que eu poderia contar. É provável que aconteçam outras mais.
Por muito tempo eu me vi diante da culpa por não querer mais fazer uma coisa que, dias antes, meses antes, anos antes me causou enorme animação. Essa culpa, aliada a um desânimo oriundo da falta de motivação, fazia com que eu, invariavelmente, desistisse de vez de qualquer projeto que fosse.
Uma das raízes dessas repetidas desistências é um medo do fracasso que eu tinha (tenho), do fracasso daquele que aposta todas as suas fichas em um evento, que se dedica integralmente a uma atividade para, no fim, não ter sucesso. Ou, ao menos, não ter o sucesso que se esperava ter. Mais de uma vez eu deixei de me dedicar totalmente a algo para, caso não conseguisse ser bem sucedido, ser capaz de, internamente (no fim, a única opinião que realmente me importava), justificar dizendo: bem, eu nem tentei tanto assim, então não tem problema.
Já escrevi sobre isso mais detidamente quando falei sobre a morte do Kobe e a sua relação com a minha vida (“NÃO HÁ GARANTIAS”).
Fato é que não há, para coisa alguma, garantia.
Não sei dizer se por força da maturidade, da experiência, do conhecimento, de todas essas situações combinadas, eu passei a encarar esses acontecimentos a partir de uma abordagem diferente. Como, por exemplo, ir na academia.
Não, esse não é um texto motivacional que, no fim, vai te oferecer um curso de coaching ou irá te convencer a me pagar para ter acesso ao meu close friends, em que eu compartilharei pílulas de sabedoria inestimáveis.
Não é nada disso.Esse texto é, antes de tudo, desmotivacional. É um texto sobre a ausência de motivação e o seu valor.
Eu nunca gostei de ir na academia. Eu gostaria de ter um corpo mais forte, de ter uma aparência mais atlética. Porém, ir na academia nunca foi meu lance. Eu comecei diversas vezes, desde adolescente. Ia alguns meses, começava a diminuir a frequência, até desistir de vez.
Lá nos meus treze, quatorze anos, eu estava bastante acima do peso. Uma professora fez um comentário sobre o meu corpo que me perseguiu. Me assombrou. Eu não lidei com essa situação de forma saudável. Eu passei a comer o mínimo absoluto para sobreviver e comecei a correr todos os dias. Eu também ia na academia, fazer atividades aeróbicas. Eu não era mais do que uma criança e eu estava obcecado com a minha aparência. Com mais de um metro e oitenta, eu fui dos oitenta e dois quilos para sessenta. 60kg. Ainda nesse peso, eu não me considerava magro. Eu queria mais. Eu me olhava no espelho e não gostava da aparência. Parecia que algo estava sempre sobrando.
Depois dessa jornada ridícula de perda de peso, eu, outra vez, abandonei a academia. E demorei muito para voltar.
A questão é que, apesar de odiar a ideia de ir na academia ficar levantando peso por uma hora, eu adoro jogar basquete. E eu negligenciei o basquete na minha vida por saber que eu nunca seria um grande jogador. Por saber que, por mais que eu me dedicasse, eu não chegaria no alto nível. Eu seria, no máximo, mediano. Então preferi, por muito tempo, ser um jogador medíocre com a desculpa de que eu não me esforçava, do que ser um jogador mediano que se dedicava como um maluco psicótico.
Porém, agora mais velho, eu percebi que o basquete estava chegando ao fim para mim, ao menos com a frequência que eu jogava (tudo isso está em NÃO HÁ GARANTIAS, mas vale repetir aqui). Meu corpo dava sinais de que ia arregar. Meu joelho doía de maneira absurda. Eu estava, outra vez, com um peso elevado para conseguir jogar da forma que eu gostaria. Foi aí que eu me matriculei numa academia, uns bons 10 anos depois da última vez que tive uma cartelinha de treino com o meu nome.
O ritmo é fundamental.
Tudo para mim é ritmo.
Para jogar basquete, eu precisaria passar por essa atividade que me era desagradável. Eu precisaria me submeter a um desgosto para atingir um objetivo importante para mim. E assim eu fui. Dia após dia após dia após dia. Eu coloquei a máquina em movimento. Ergui peso. Corri. Fiz bicicleta. Fiz cardio. Ergui mais peso. Na quadra, eu percebia a diferença. Eu estava mais rápido. Mais forte. Eu pensava com maior clareza. Eu saltava mais rápido. Eu reagia mais rápido. Eu conseguia me impor. Eu conseguia estar presente.
Por isso eu continuei indo na academia. Dia após dia após dia.
Eu gosto de ir na academia? Se eu precisar responder, a resposta é não. É um tempo que eu poderia usar de outra forma. No entanto, eu já não odeio ir na academia. Ir na academia não é, agora, uma reação ao comentário inapropriado da minha professora. Não é um testemunho do meu ódio pelo meu corpo. É um testemunho do meu amor pelo jogo de basquete. A academia é um meio, um caminho que eu preciso trilhar para chegar no destino. E eu estou disposto a trilhar. Dia após dia após dia após dia.
Mesmo nos dias em que eu acordo e penso Bem, talvez hoje não. Talvez seja a hora de parar. Nesses dias, em que a motivação desaparece, eu recorro a outro instrumento fundamental, que é a disciplina e a constância. Tem dias que eu não quero jogar basquete, mas se eu tenho a oportunidade de estar na quadra, eu vou até lá. Eu arremesso uma, duas bolas. Eu entro no ritmo.
O ritmo é fundamental.
Tudo para mim é ritmo.
E aí eu jogo uma, duas horas. Talvez eu saia da quadra exausto, talvez eu não fique satisfeito com o meu jogo, talvez eu sequer fique contente por jogar. Mas eu jogo, porque eu acho importante manter esse ritmo.
E ir na academia dia após dia após dia é parte desse ritmo, é parte fundamental dessa engrenagem que eu montei.
Tudo se resume a uma questão mais simples, imediata e, paradoxalmente, de incrível complexidade na sua compreensão: o autoconhecimento.
Quando a motivação falta, então, eu apenas penso Tudo bem, não preciso estar motivado. Eu só preciso ir e fazer a minha parte. Boom. Done. Uma hora depois o treino acabou e eu estou suado e cansado e a vida continua do jeito que era. Ninguém me aplaude. Ninguém me congratula pelo feito incrível. Sou eu, comigo, e mais nada. E eu me dou por satisfeito.
Murakami, em Romancista por vocação, traça um paralelo muito similar a partir da sua relação com a corrida. Ele está convencido — e eu também — que a força física, não necessariamente um corpo musculoso, mas um corpo são, é indispensável ao bom escritor. O corpo é o instrumento desse escritor. Para Murakami, a forma de manter seu corpo em bom estado é através da corrida. Ele adora correr, para ele é algo que ele deve fazer. Ainda assim, em certos dias ele não quer correr, falta-lhe à vontade. “De qualquer forma, é algo que tenho que fazer”. Então ele vai. Corre como sempre. Faz o que tem que fazer. A corrida como meio para a escrita.
A academia como meio para o basquete.
E agora vem a parte desmotivacional: você certamente não precisa fazer nada disso. Você não precisa, se não quiser, ir para a academia. Não precisa perder peso, ganhar peso, jogar basquete, jogar futebol, seja o que for. Eu vou na academia por que eu me satisfaço com o resultado dessa atividade. Eu encontro satisfação do outro lado do caminho. Murakami corre, porque ele não se vê sem a corrida. Motivação não tem nada com isso. Inspiração não tem nada com isso.
Tudo se resume a uma questão mais simples, imediata e, paradoxalmente, de incrível complexidade na sua compreensão: o autoconhecimento.
O que é que você deve fazer? Você está aqui para quê? Ou, melhor, afastando qualquer tom de coaching: o que é que você deseja fazer, e, em se definindo o que, como é que você pode fazer isso? Não se trata de uma solução mágica ou de um step-by-step. Motivação só te leva até uma parte do caminho. O resto é autoconhecimento, disciplina, ritmo. Entrar em movimento para fazer as forças cinéticas atuarem em seu favor.
Por acaso, eu escrevo. Eu poderia ficar sem escrever, se me fosse dada uma ordem desse tipo? Se, no exercício proposto por Rilke em Cartas a um jovem poeta, me fosse proibida a escrita, eu conseguiria seguir vivendo da forma como eu vivo?
Creio que não e creio que não, outra vez.
Escrever é uma parte fundamental de quem eu sou. E escrever, assim como jogar basquete, exige uma série de comprometimentos. Exige idas à academia. Exige um esforço como meio para atingir o fim. Exige, é claro, ritmo.
Eu busco esse ritmo todos os dias, em todas as atividades que exerço. Quando vou na academia. Quando entro em quadra. Quando me deito. Quando abro um livro. Quando bato o ponto no trabalho. É um equilíbrio delicado e fantástico.
O que eu quero dizer, talvez, é algo como: você não se verá motivado todos os dias. Você não sentirá uma vontade pulsante de escrever a maior obra de arte da história, você não sentirá uma vontade pulsante de fazer um desenho belíssimo, de produzir uma canção sobre amor, de erguer um prédio, de cortar a grama do jardim, de cumprir as oito horas diárias, de estudar, de ler um livro depois do outro, de terminar a dissertação, de treinar, de seguir o plano nutricional, de levantar da cama, de voltar para cama. Em alguns dias, você sentirá uma vontade oposta a tudo aquilo que você julgou ser fundamental. Essa vontade também faz parte de quem você é. Motivation only goes so far. O ritmo é a força de base para tudo isso. O ritmo de, na ausência da motivação, colocar o motor para funcionar e dar início ao movimento. Movimento que gera movimento que gera movimento que gera movimento.
“De qualquer forma, é algo que eu tenho que fazer”.
Seja o que for.
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Gabriel Schincariol Cavalcante

Eu posso estar errado. Mas será que eu estou?
Escritor de ficção, formado em Direito pela USP (não é advogado), mestrando em Teoria Literária - FFLCH USP

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Curadoria cuidadosa de Gabriel Schincariol Cavalcante via Revue.