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O paradoxo do ônibus atrasado - Eu posso estar errado - Edição Nº30

O paradoxo do ônibus atrasado - Eu posso estar errado - Edição Nº30
Por Gabriel Schincariol Cavalcante • Edição Nº30 • Ver na web
Eventos cotidianos

Quarta-feira, das 22h às 00h, eu treino junto com o time de basquete da São Francisco. Na quinta, às 14h, eu tenho aula da disciplina da pós em Teoria Literária, na Cidade Universitária.
Entre um e outro eu preciso trabalhar, então depois de chegar do treino e tomar um banho, restam algumas horas para eu dormir, nunca suficientes.
Isso não é tão importante assim, mas é um pouco de contexto.
Porque na quinta passada estava muito frio e eu trabalhei das 6:30 às 12:30, comi, entrei no aplicativo do Google Maps, digitei “prédio da letras”, cliquei na sugestão de destino, e vi pelas rotas o ônibus mais próximo. Segundo o Maps, o ônibus mais próximo sairia do ponto em 12 minutos. Eu chegaria no ponto em 8.
Parecia bom.
Cheguei no ponto em 8. 4 minutos depois, o ônibus não chegou. “Atrasado”, no Maps.
Mais contexto: geralmente leva uns 40 minutos para chegar da minha casa na Cidade Universitária. Era 12:55. A aula começa as 14h. Tinha tempo.
Só que estava frio. E eu estava com sono. E o ônibus continuava atrasado. Vi outras alternativas: alguns saíam de um ponto ali perto, em 5 minutos. Outros, em 15, em um terceiro ponto.
E nada do ônibus que eu estava esperando originalmente chegar.
Fiquei, inevitavelmente, preso no paradoxo do ônibus atrasado. Eu não podia sair de lá e tentar pegar o outro, correndo o risco dele chegar, e também não podia ficar esperando para sempre, porque ia me atrasar.
Terrível.
Era mais ou menos 13:20 quando eu tomei uma decisão, que não envolvia nem esperar mais, nem ir para outro ponto: eu ia embora para a minha casa dormir.
Decidido, firme e convicto, guardei o celular no bolso e enfiei a mão direita dentro da luva outra vez. O semáforo de pedestres fechou. E nesse momento o ônibus que eu esperava desde as 12:55 veio se aproximando.
Queria eu ser rebelde a ponto de deixá-lo passar para, em seguida, atravessar na faixa e voltar para a minha cama.
Queria eu.
Mas o que eu fiz foi mais simples: eu ergui o meu braço, o motorista me viu e parou no ponto em que eu estava.
E de lá eu fui para a Cidade Universitária, com frio e com sono, olhando no relógio para saber se eu estava ou não atrasado para a aula das 14h.
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Gabriel Schincariol Cavalcante

Eu posso estar errado. Mas será que eu estou?
Escritor de ficção, formado em Direito pela USP (não é advogado), mestrando em Teoria Literária - FFLCH USP

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Curadoria cuidadosa de Gabriel Schincariol Cavalcante via Revue.