Eu posso estar errado

Por Gabriel Schincariol Cavalcante

Já não entro mais no mar - Eu posso estar errado - Edição Nº27

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Já não entro mais no mar - Eu posso estar errado - Edição Nº27
Por Gabriel Schincariol Cavalcante • Edição Nº27 • Ver na web
Quando eu não conhecia a vastidão do desconhecido, todo o oceano era navegável.

Talvez eu escreva para compensar a minha memória ruim, para segurar, nas palavras, tudo o que passou e não deixar virar essa fantasmagoria que são as lembranças mal-definidas. Sempre achei que eu tinha boa memória. Sempre achei que meus resultados escolares satisfatórios adviam, eles próprios, dessa boa memória: da minha capacidade de armazenar informações, reter dados, guardar o que precisa ser guardado.
Talvez eu tivesse boa memória, no passado, e agora eu não tenho mais. Tenho uma memória vacilante, que lembra de coisas muito distantes com perfeita exatidão, mas se confunde com aquilo que, um dia, eu julguei inesquecível.
Eu olho para trás e vejo isso: uma ou outra imagem, uns borrões. Então, num estalo, uma memória inteira, completa, de uma noite no Rio de Janeiro quando eu não tinha nem cinco anos. Mais outros borrões, aos montes. E eles vão se acumulando mais para perto do presente, esqueço a água no fogo até queimar a caneca, esqueço o sentido do metrô para a rodoviária (que pego todo mês, há anos), desço na estação errada, confiro repetidamente se paguei ou não a conta de luz. Borrões, borrões, borrões.
Eu tenho muito, muito medo de esquecer, principalmente das coisas que existem agora só nas lembranças, porque, se eu esquecer, então é o fim.
Escrevo.
Vamos ao que interessa.
Um menino loirinho na praia de Ibicuí
Quando garoto, ainda morando no Rio, lembro de irmos constantemente à praia de Ibicuí, em Mangaratiba. Tínhamos uma casa lá, ou um amigo do meu pai tinha uma casa lá, eu não sei bem. Sei que era um destino comum nos finais de semana, nas férias, nos feriados.
Lembro de irmos, mas de Ibicuí eu lembro muito pouco. Lembro da casa ser quase toda de madeira escura, apesar de não saber se isso é uma lembrança minha, ou uma lembrança fabricada por causa de uma foto que eu vi muitas vezes. Lembro de um pedaço de areia. Lembro da água. Lembro com mais detalhe de algo específico: de sempre comer esquibom. Até hoje ao ver um esquibom eu me lembro da praia. Comíamos esquibom sentados na areia, eu me melecava todo.
Íamos eu, minha irmã, meu pai, minha mãe, e às vezes minha avó (na foto), minha tia, conhecidos, parentes. Não lembro de nada disso, só sei que íamos para Ibicuí e ao ouvir a palavra Ibicuí eu me enchia de alegria.
Criança, eu adorava praia. Eu adorava a ideia de ir para a praia. Adorava entrar no mar. Adorava sentir as ondas contra o meu corpo. Adorava especular sobre o tamanho da próxima onda. Eu adorava a água. Outra lembrança: nessa mesma época nós tínhamos uma piscina em casa e eu aprendi a nadar naquela piscina. Aprendi a nadar segurando na borda, aos poucos, invejando minha irmã que já mergulhava, pensando: um dia eu vou mergulhar.
Um dia eu mergulhei, é claro, mas disso eu não lembro. Lembro só de sentir vontade de ser capaz de fazer algo que eu ainda não era capaz de fazer.
Ir para a praia continuou sendo uma das minhas grandes alegrias nos anos seguintes. Depois que saímos do Rio e fomos para Boituva, no interior de São Paulo, praia virou um evento raro e Ibicuí passou a ser mera lembrança. Vez ou outra, com certa raridade, íamos para Santos, para o Guarujá, algum lugar do litoral paulista. Lá eu ficava agitado querendo ir logo para a areia e, em seguida, entrar no mar. Eu podia passar horas e horas dentro da água.
Lembro disso: de nadar e nadar e nadar, disposto a ir o mais longe possível, chegando num ponto consideravelmente distante da areia, onde as ondas não eram pequenas e vários homens e mulheres aguardavam em cima das pranchas para surfar. O mar não estava amistoso naquele ponto e eu tinha dificuldades para continuar nadando. A frequência e a força das ondas me apavorou e eu achei que não conseguiria voltar. Bati os braços, as pernas e tentei retornar para a areia, que não parecia ficar mais perto. Um dos homens que aguardava uma boa onda me ajudou. Cheguei na areia, saí correndo para onde minha mãe e as outras pessoas estavam e, lá chegando, não disse uma só palavra sobre o que havia acontecido.
Apesar desse terror momentâneo, eu não temia o mar, eu o adorava. Eu queria estar sempre dentro da água. Queria nadar para longe, mergulhar fundo, descobrir tudo.
Nenhum medo prévio, mesmo que, ocasionalmente, eu me assustasse com a imensidão do oceano que me cercava. Estava disposto a tudo, mesmo que, mais tarde, quisesse voltar para a segurança do chão.
Tudo era possível, qualquer água era navegável.
(Recentemente li Dias bárbaros, do William Finnegan, e a cada parágrafo em que ele descrevia as ondas que pegou por todo o mundo essas lembranças do meu passado se afloravam, confusas, intensas, saudosas)
Mas eu cresci. E meu medo cresceu na mesma medida em que a minha consciência do mundo se solidificou.
Visita ao sítio
Um pouco mais velho, perto dos 10, 11 anos, fui com um amigo até a casa do pai dele, que ficava em um sítio ladeado por um rio. Esse amigo sempre contava sobre as vezes em que ia ao sítio do pai. Contava que pulava no rio, que nadava com os peixes. Contava que uma vez um sapo estava dentro da privada quando ele foi fazer xixi. Contava que todo tipo de bicho andava pela casa durante a noite.
Enquanto ele me contava eu não dizia nada, não demonstrava nada, mas por dentro, onde tudo acontece (o que eu demorei para entender), eu tinha um enorme medo daquele universo que ele relatava.
Eu perguntava: mas os peixes encostam em você?
E ele dizia que sim, às vezes.
Perguntou se eu queria nadar. Eu disse que não podia, não tinha levado roupa (era mentira, eu estava aterrorizado). Evitei usar o banheiro com medo do sapo. Olhava para o chão a todo instante, temendo encontrar um animal perigoso.
Fomos até o rio para ver e a água era barrenta, escura. Não era possível enxergar nada ali dentro. Congelei. Congelei com a mera ideia de entrar naquele rio e não saber onde eu estava pisando, o que me rodeava. Não ver os peixes que encostariam no meu corpo.
Num só momento eu compreendi que existe um mundo inteiro que eu não acesso, que eu não vejo, e também passei a temer esse desconhecido.
O mundo, na medida em que se explicou nos seus mistérios para mim, ficou mais perigoso. Eu me tornei uma espécie receosa, não mais o menino que nada de braçadas rumo ao meio do mar, e sim o rapazinho que mente sobre não ter roupa para nadar por medo de tocar peixes que não pode ver.
Eu não sabia que havia do que ter medo, por isso eu não tinha. O medo era um elemento físico e imediato: como estar cercado por ondas altas e longe da areia, o perigo era palpável. Não havia em mim a ideia de medo abstrato.
Não havia em mim a ideia de um sapo dentro da privada. Não havia em mim a ideia de um animal escondido sob a água. Não havia em mim a ideia de uma cobra rastejando pelos cantos, pronta para pegar o meu calcanhar.
Algumas dessas ideias que se revelaram perigosas foram amansadas pela minha maturidade. Sei um pouco melhor o que pode e o que não pode me fazer mal. Mas, mesmo que sabendo, tenho muito respeito (um respeito amendrotado, é verdade) por aquilo que não posso ver, mas sei que existe. Daquilo que se esconde.
Penso constantemente sobre o interior do corpo, os órgãos funcionando, as células se multiplicando, morrendo, nascendo, tudo a todo instante. Penso constantemente nesse universo do invisível, ou, pelo menos, do escondido dos olhos. Em tudo que acontece fora do meu campo de visão. Penso no motor do carro movido à gasolina, uma explosão atrás da outra garantindo o movimento do automóvel, e penso na possibilidade de esse motor, de repente, explodir de verdade, uma explosão não controlada. Penso no carregador do celular recebendo e transmitindo centenas de kilowatts para o meu aparelho permanecer ligado, e penso num minúsculo curto que pode acontecer durante a madrugada e fazer o carregador pegar fogo perto do meu rosto.
Penso nessas possibilidades, do invisível me pegar desprevenido.
Penso nessas possibilidades da minha memória falhar e eu esquecer de tudo.
Agora que eu penso nessas coisas, talvez elas estejam, em algum grau íntimo da minha psique, ligadas umas as outras.
E estejam, também, ligadas à minha necessidade quase doentia de permanecer escrevendo - um jogo constante de trazer à luz aquilo que está dentro, aquilo que não está nomeado, aquilo que não se vê, ou, caso seja visto, não se compreende.
Uma luta inglória contra o desconhecido, contra o invisível, e contra o esquecimento.
Ainda hoje quando eu vou à praia eu evito o mar. Dou alguns passos para dentro da água, mas nunca muito longe, e só de sentir texturas estranhas na sola dos meus pés eu já me arrepio: o que pode ser?
Se eu fosse um escritor mais competente eu estou certo de que tudo isso serviria para alguma lição grandiosa, uma metáfora forte sobre o ofício da escrita e as fobias da alma em um mundo complexo e cheio de mistérios.
Mas para o escritor que eu sou, terei que me contentar em substituir as braçadas dentro da água do mar por milhares de palavras, sem perder, quando me vejo cercado pela imensurável vastidão, um certo terror fascinado por esse segredo a céu aberto.
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Gabriel Schincariol Cavalcante

Eu posso estar errado. Mas será que eu estou?
Escritor de ficção, formado em Direito pela USP (não é advogado), mestrando em Teoria Literária - FFLCH USP

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Curadoria cuidadosa de Gabriel Schincariol Cavalcante via Revue.