Eu posso estar errado

Por Gabriel Schincariol Cavalcante

Grandma's hands - Eu posso estar errado - Edição Nº25

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Grandma's hands - Eu posso estar errado - Edição Nº25
Por Gabriel Schincariol Cavalcante • Edição Nº25 • Ver na web
Grandma’s hands / Used to hand me piece of candy / Grandma’s hands / Picked me up each time I fell

Enquanto eu crescia, minha avó era uma ótima amiga. Sou o neto mais novo de quatro (enquanto eu crescia, eram três; o quarto, mais velho do que eu, descobriu que era filho do meu tio quando eu já tinha uns 12, 13 anos).
Eu não tinha muita noção da diferença de idade, só o que toda criança sabe, isto é: que eu era pequeno, novinho, e todos os demais eram grandes, adultos. Minha irmã, por exemplo, é oito anos mais velha do que eu, e apesar de termos sempre experimentado uma relação próxima e amorosa, oito anos é o suficiente para uma criança considerar Tempo Demais.
Assim eu passei boa parte da minha infância na casa da minha avó enquanto minha mãe trabalhava e minha irmã estava na escola / com as amigas / fazendo qualquer coisa que não envolvesse cuidar do irmão mais novo.
Assim eu quebrei o dedinho da minha avó. Quer dizer, eu não quebrei o dedinho da minha avó, mas eu fui, em alguma medida, o causador da fratura do dedinho da minha avó, que até hoje é meio torto e quando eu falo disso ela sempre dá risada e lembra das exatas circunstâncias do acidente:
Eu insisti muito para que jogássemos vôlei. Minha avó era bastante ativa, forte fisicamente. Ela acordava muito cedo e caminhava pelas ruas da cidade. Ela se alongava. Quando eu dormia lá (o que acontecia com frequência), vez ou outra caminhávamos juntos, ela mostrava o roteiro que costumava seguir, e eu me cansava no primeiro quarteirão. Eu pedia para que ela jogasse futebol comigo, vôlei, peteca, tudo. Naquele dia tínhamos uma bola de vôlei à disposição (minha ou do meu primo, não sei) e eu pedi e pedi e pedi para que jogássemos.
Ela concordou. Fomos para a frente da casa, que tinha uma boa área livre, e começamos a jogar a bola um para o outro. Ela jogava bem. Melhor do que eu, até. O jogo era só esse: jogar a bola de um para o outro. De um para o outro. De um para o outro.
Assim íamos fazendo até ela tentar me devolver a bola com um levantamento e logo depois do movimento gritar um Ai!
Minha vó certamente não é uma atleta de voleibol. E depois desse dia ela nunca mais seria, porque ela gritou Ai! pois seu dedinho quebrou no meio com o impacto da bola. Mais tarde todos riram enquanto falavam sobre como eu quebrei o dedinho da vó Cida, a dona Fulique.
Eu não achei tanta graça assim naquele momento, sentindo a culpa sobre mim.
Hoje eu acho, porque antes de ela quebrar o dedinho nós fazíamos algo que era só nosso: pequenos momentos compartilhados de alegria, de singela amizade.
Pequenos golpes no capitalismo
Comecei a trabalhar entregando peças automotivas aos 14 ou 15 anos, usando uma bicicleta Barraforte vermelha. O trabalho em si era bastante simples, às vezes enchia o saco, e o tempo demorava a passar. Cheguei a me desesperar numa tarde quando, depois de fazer dezenas de entregas, olhei no relógio e apenas uma hora e meia do expediente tinha passado. Amaldiçoei o tempo, amaldiçoei meu trabalho, amaldiçoei as parcelas que eu precisava pagar com o salário mensal de 200 reais.
Foi dessa forma que adotei uma estratégia para tornar mais suportável a minha jornada como profissional do transporte de peças automotivas: quando havia alguma entrega por volta das 15 horas, eu religiosamente passava na minha avó (depois de entregar a peça, porque sou responsável) e pedia para ela me fazer um nescafé caprichado. Enquanto ela fazia o nescafé com leite eu colocava dois pães na torradeira e, ao tempo em que o nescafé estava pronto, os pães saltavam da torradeira, prontos para receber a margarina.
Esse processo todo - chegar, dizer oi, fazer o nescafé e os pães e comer - levava uns 15 minutos. Eu comia enquanto conversava com a minha avó, que nunca questionou a minha falta de profissionalismo. A Barraforte esperava na frente da casa, na mesma área em que nosso jogo de vôlei fraturou o dedinho dela anos antes.
Eu daria muita coisa para, hoje, poder fazer uma pausa no meio do dia de trabalho para ir até a minha avó, pedir um nescafé e comer meus pães torrados enquanto eu e ela falaríamos sobre algum assunto qualquer, sobre o qual eu não lembraria nada, porque o assunto não tinha importância alguma.
Dona Fulique precisa descansar
Quando eu mostrei minha tatuagem para a minha vó, a homenageada, em 2016, a reação dela foi: "mais uma?"
Quando eu mostrei minha tatuagem para a minha vó, a homenageada, em 2016, a reação dela foi: "mais uma?"
Eu já não sou mais um menino (apesar de, em muitos momentos, não me sentir mais preparado para o dia a dia do que aquele garotinho com cara de tapado). Eu já não vivo mais em Boituva. Eu já não entrego peças para ganhar 200 reais no mês. Eu já não passo mais o dia na casa da minha avó enquanto minha mãe trabalha e a minha irmã cuida da própria vida.
A minha avó não pode mais cuidar de mim. Agora é ela quem precisa ser cuidada.
Já há alguns anos a saúde da minha vó tem se deteriorado bastante. Sua saúde física se mantém em razoável bom estado, com a pressão controlada por remédios e o coração batendo como deve com acompanhamento do cardiologista. Sua mente, no entanto, está partindo antes do corpo.
Ela já não vive sozinha, não anda sozinha, não consegue fazer seu próprio nescafé, seu cappuccino, nada.
Nossos momentos juntos não têm muita conversa. Apenas dividimos o mesmo espaço, em silêncio, até ela perguntar se eu quero comer alguma coisa, se já almocei, se quero café. As mesmas perguntas do passado, uma viagem no tempo, só que num presente reconfigurado, em que ela só pode perguntar, mas não agir.
Enquanto eu era menino, minha avó era uma mulher ativa, forte, dona de si. Hoje eu sou um homem formado, dono de mim (em alguma medida, pelo menos), e minha avó, com o peso das suas oito décadas, caminha para dentro de si, onde talvez ela consiga descansar, onde não precise sentir dor.
A arbitrariedade e irrevogabilidade do tempo é assustadora. É angustiante. Eu gostaria de poder segurar a minha avó nos meus braços e trazê-la de volta à lucidez, ao pleno domínio da própria mente. É claro que eu não posso. Ninguém pode.
Não há movimento em sentido contrário na ordem temporal.
E amanhã eu estarei mais velho. E depois de amanhã eu esquecerei nomes. E no dia seguinte eu ficarei só em silêncio, por não saber mais o que falar.
Mas eu desconfio, desconfiança que envolve também uma torcida, de que até nesses dias futuros eu me lembrarei da mão da minha avó com o dedinho torto, fraturado na nossa gloriosa partida de voleibol em frente a sua antiga casa. Da mesma forma que até hoje ela sorri ao falarmos disso.
Bill Withers - Grandma's Hands
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Gabriel Schincariol Cavalcante

Eu posso estar errado. Mas será que eu estou?
Escritor de ficção, formado em Direito pela USP (não é advogado), mestrando em Teoria Literária - FFLCH USP

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Curadoria cuidadosa de Gabriel Schincariol Cavalcante via Revue.