Eu posso estar errado

Por Gabriel Schincariol Cavalcante

Eu posso estar errado - Edição Nº22

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Eu posso estar errado - Edição Nº22
Por Gabriel Schincariol Cavalcante • Edição Nº21 • Ver na web
A montagem de um guarda-roupa e o erro do homem.

Quando eu me mudei para São Paulo em 2016 eu não tinha muita coisa. Tinha o básico para viver em um apartamento. Tinha uma cama-baú, um ótimo negócio para quem mora em cubículos nos grandes centros urbanos; tinha um sofá comprado na liquidação; tinha um fogão que ganhei de presente; tinha uma mesa que era da minha irmã; tinha uma cadeira que era da minha mãe; tinha uma tevê de 22 polegadas que eu comprei muitos anos antes, ainda adolescente, para jogar video-game; e tinha uma cômoda que ficou no quarto que eu dividi com a minha irmã durante a infância / começo da adolescência por muito, muito tempo - essa cômoda era composta de três gavetas, duas portas na laterais, e um vão entre as gavetas e o tampo.
Esse era o meu apartamento em julho de 2016. Essas coisas, uma porção de livros, e eu.
A cômoda foi comprada pela minha mãe em algum momento entre 2000 e 2008. Tem cara dessa época. Cor dessa época. Se você entrar na casa de uma família de classe média baixa, a chance de você encontrar uma cômoda parecida não é desprezível. Ela funcionou bem por um longo período de tempo. Mas sofreu com sua natural deterioração. Quando foi para o meu apartamento em São Paulo os encaixes da gaveta já estavam tortos, o puxador de uma das portas havia se partido ao meio e todos os puxadores das gavetas estavam deficientes. Em resumo, essa cômoda estava horrível.
Ela permaneceu como o móvel principal para armazenamento de roupas até essa semana.
Nesse período, de 2016 até hoje, novos itens residenciais foram adquiridos por mim.
Meu cunhado fez uma arara de ferro para prender na parede, o que foi uma ótima ideia. O único problema é que o tamanho do braço que segurava a arara era grande demais para o peso das roupas sobre ela, e as paredes dos apartamentos do prédio em que eu moro são todas farofentas. Não sei se existe o termo parede farofenta, mas foi o que o Gilvan, O Faz Tudo disse. Meses depois de ser instalada, a arara despencou no meio de uma noite, me dando um puta de um susto. Quando eu me mudei de apartamento, permanecendo no mesmo prédio, o Gilvan, O Faz Tudo tentou instalar essa mesma arara outra vez, e ela durou menos de uma semana. Despencou com todas as roupas, deixando apenas os furos na parede como uma lembrança de que nem toda boa vontade do mundo supera a má engenharia.
Eu comprei um pequeno rack amarelo para colocar a tevê, agora maior do que 22 polegadas. Quando esse rack chegou eu pensei: não é possível que eu não consiga montar isso.
O erro do homem é achar que é capaz de tudo.
A peça é simples, retangular, com duas divisórias. Nada demais. Tem quatro rodinhas e acabou.
Armado com o meu kit de chaves da Philips, eu me sentei no chão, abri o manual, e segui passo a passo.
Passo a passo.
Passo a passo.
Algumas horas depois a minha mão estava latejando e o rack estava montado, mas completamente bambo. A rodinha estava torta (algum tempo depois ela afundou). Eu me dei por satisfeito, apesar de saber que aquilo estava uma bela merda.
Depois foi a vez da estante de ferro que, de início, serviu para armazenar alimentos e coisas da cozinha, e hoje é ocupada com uma centena de livros.
Também munido do meu kit Philips e cheio de disposição, lá fui eu montar, dessa vez sem manual, porque vieram apenas as peças e os parafusos.
Quão difícil pode ser colocar um ferro em cima do outro?
O erro do homem é ignorar a sua burrice e acreditar que a disposição é o suficiente em qualquer empreitada.
A estante ficou de pé. Ou, pelo menos, ela parece estar de pé. Ela é uma espécie de Torre de Pisa. Se você coloca um livro nesse lado, ela pende para cá; do outro lado, pende para lá.
Ótimo.
Assim seguiu. Comprei uma estante menor para o toca-discos, e essa talvez tenha sido a mais fácil de montar, e que ficou menos bamba. Comprei uma móvelzinho para pôr ao lado da cama, e esse quase me retirou da sanidade. Um dos pés não encaixava de jeito nenhum, porque a rosca tinha espanado. A minha solução foi, às duas da manhã (eu estava realizando a montagem depois de voltar do treino de basquete), ir até o mercado 24hrs, comprar uma tonelada de veda-rosca, cuja função NÃO É A DE AUXILIAR NA MONTAGEM DE MÓVEIS, e torar o encaixe até o negócio ficar no lugar.
Ficou.
Por algum tempo.
Uma noite, despencou.
O Gilvan, O Faz Tudo arrumou mais tarde.
Com o meu kit Philips eu montei tudo que de novo tinha no meu apartamento, e tudo estava bambo e querendo cair, mas não caía.
Tipo eu.
Um novo homem, ou A Parafusadeira-Furadeira
Toda jornada tem o seu momento de inflexão, em que se é obrigado a crescer, a enfrentar a própria realidade.
A minha também teve.
Esse momento foi marcado pela compra, via Mercado Livre, de uma Parafusadeira-Furadeira com bocal variável para diversos tipos pontas e brocas. Eu estava cansado de girar no braço os parafusos mais duros do planeta terra, e decidi deixar a eletricidade e a inventividade humana fazerem força por mim.
Foi em posse dessa Parafusadeira-Furadeira que eu fixei dezenas de quadros no meu apartamento, sem nenhum insucesso significativo.
Em posse da Parafusadeira-Furadeira eu me senti invencível. Eu era, enfim, capaz de montar qualquer coisa.
Esse é o grande erro do homem. Achar que, munido de uma parafusadeira e de um manual, ele é capaz de montar qualquer coisa.
Era chegado o momento do passo decisivo. O passo para a maturidade definitiva. Era o momento de comprar um guarda-roupa e deixar para o descanso eterno a velha cômoda, já sofrida por tanto tempo de trabalho duro, árduo e não remunerado.
Eu comprei, com o auxílio da Marina, um guarda-roupa de três portas e três gavetas.
A montagem custava R$199,00. Eu não acho que o valor não seja justo - acho, até, que é baixo -, mas ela só seria feita 5 dias úteis depois da entrega. Minha ansiedade jamais me permitira esperar esse tempo todo com o maldito guarda-roupas parado na caixa.
Quando eu era criança minha mãe comprou uma beliche para mim e para a minha irmã. Do dia em que a beliche chegou até o dia em que o montador veio foi mais ou menos uma semana. Durante uma semana eu não dormi direito. Eu sonhava com a beliche. Eu me imaginava na beliche. Ou no beliche? Agora fiquei na dúvida. Esse não é o ponto. Fato é que eu fiquei fissurado por aquela beliche. Ou aquele beliche.
Calma aí.
Beliche, ou cama-beliche, primeiro nomeou o compartimento no alojamento do navio onde ficavam as camas de passageiros ou tripulantes. Por extensão de sentido, passou a ser o nome do camarote, dos leitos estreitos superpostos e por fim o conjunto de camas montadas uma sobre a outra. Exemplo: O quarto do albergue é espaçoso, acomoda 16 pessoas nos 8 beliches de ferro.
Ok. É O beliche. Então. Eu ansiava por aquele beliche como se a minha vida dependesse da sua montagem. Quando montado, eu passei o dia sobre o cama (a de cima, claro), embasbacado. Eu sequer ligava tanto para a ideia de ter um beliche, porém o fato de o beliche estar lá e não estar montado me deixava maluco.
É assim que eu lido com as coisas.
Por isso era impossível esperar a montagem do guarda-roupa.
Em posse da minha Parafusadeira-Furadeira e do manual, com um vídeo de apoio no YouTube, eu preparei a zona de montagem e parti para o trabalho.
E, bom.
Eu deveria ter contratado o montador.
O erro do homem, na verdade, é aprender a ler
Todos os problemas começam depois que você aprende a ler, pois, de repente, um mundo todo (antes inacessível) se torna disponível para você. Basta ler. Basta ler e compreender, e todo conhecimento escrito está, de uma hora para outra, a uma leitura de distância. Claro que ler e compreender são coisas diferentes, mas quando se dá o primeiro passo (aprender a ler), logo se imagina que o segundo (compreender) virá naturalmente.
Este é um erro enorme.
O segundo passo é tudo, menos natural. Ele exige esforço, ele exige repetição, ele exige queda, após queda, após queda. Exige muito texto lido sem entender uma linha sequer. Exige muita página lida só para chegar ao final e dizer: “ok, eu não faço a menor ideia do que eu acabei de ler”. Se você sabe ler, basta pegar o manual e seguir as instruções. Na teoria é exatamente assim. Na prática, bem, na prática a teoria é sempre outra.
Eu passei o dia inteiro montando o armário. Eu cortei meus dedos. Eu usei o parafuso errado diversas vezes, o que, mais tarde, me impossibilitou de prender os puxadores nas gavetas e nas portas (a diferença era de milímetros e a cor dos parafusos era a mesma), o que só foi possível com a compra de novos parafusos (ou a desmontagem de tudo para corrigir o erro, o que estava fora de cogitação). Na hora de encaixar as portas, elas não fechavam. Eu me estressei. A Parafusadeira-Furadeira destruiu o vinco da cabeça dos parafusos e eu tive que prendê-los na mão.
Foi um inferno.
No fim, entretanto, o guarda-roupa ficou de pé. Não só ficou de pé: ele ficou de pé e ficou firme. As portas se fecharam. As gavetas ficaram bem encaixadas.
Eu quis tirar uma foto para mandar para o Gilvan, O Faz Tudo apenas para receber um elogio. Não tirei.
A batalha foi árdua, mas a recompensa foi a glória.
Tá, talvez nem tanto. Mas o guarda-roupa está lá, de pé, um marco de uma nova fase da minha vida (que parece muito com a fase anterior, curiosamente).
Como se vê, é um guarda-roupa bonitinho e nem parece ter sido montado por um completo idiota feito eu. Na foto é possível ver os furos deixados pela arara anti-gravidade.
O erro do homem é, depois de passada a desgraça, esquecer. E fazer tudo outra vez.
Por fim, o merchan
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Gabriel Schincariol Cavalcante

Eu posso estar errado. Mas será que eu estou?
Escritor de ficção, formado em Direito pela USP (não é advogado), mestrando em Teoria Literária - FFLCH USP

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Curadoria cuidadosa de Gabriel Schincariol Cavalcante via Revue.