Eu posso estar errado

Por Gabriel Schincariol Cavalcante

Eu posso estar errado - Edição Nº22

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Eu posso estar errado - Edição Nº22
Por Gabriel Schincariol Cavalcante • Edição Nº22 • Ver na web
Efeito Colateral, conto publicado originalmente no Medium.

Quando eu acordei naquele dia, eu estava certo de que seria o dia em que a minha vida ia mudar para sempre.
Não foi.
O que eu havia planejado não aconteceu. Porém, se tivesse acontecido exatamente como eu planejei, muito provavelmente não seria também o dia em que a minha vida ia mudar para sempre.
É difícil saber. Era só um beijo. Agora era só um beijo, mas naquele dia era o beijo, o único beijo.
É difícil saber.
*
O que aconteceu foi o seguinte. Pelo menos para mim, foi o seguinte, que eu estou contando o meu lado da história, apesar de, se pensarmos bem, o meu lado da história ser o lado menos importante dessa história, mas é o lado que eu posso contar, porque eu sou eu e mais ninguém.
Então o que aconteceu foi o seguinte.
Bom, antes do que aconteceu eu acho que eu tenho que explicar algumas coisas.
A primeira coisa é que eu estava no primeiro ano do Ensino Médio, tinha 15 anos. É importante esse fato, que eu tinha 15 anos e estava no primeiro ano do Ensino Médio. Aos 15 anos e no primeiro ano do Ensino Médio as pessoas não tem muita noção de muita coisa, o mundo é bem restrito, porque o mundo parece só isso, a escola, a casa, os amigos da escola, aqueles planos mais imediatos e mais simples e mais grandiosos, que só a cabeça de um adolescente pode conceber.
O que é que é o mundo aos 15 anos?
Talvez um monte de coisa, depende de quem está falando. Mas o meu mundo era um mundo até que simples. Era isso: escola, meus amigos, ficar em casa. Meus pais trabalhavam, não ganhavam muito, mas não ganhavam pouco, eles sobreviviam, a gente sobrevivia, eu comia e me vestia e dormia em uma cama com colchão. Como não ganhavam muito, eu não estudava em uma escola particular, que era cara. Mas como não ganhavam pouco, eu havia estudado, antes, em uma escola particular, então quando fiz a prova para a escola técnica no Ensino Médio eu já estava muitos passos à frente da maioria dos adolescentes de 14 anos que estavam fazendo a prova.
Sempre depende muito.
Então, eu fiz a prova e eu fiz a prova meio despretensioso, mas ao mesmo tempo preocupado. Eu não queria pensar muito naquilo, era só uma provinha, mas minha mãe já havia dito que se eu não passasse não ia ter como eles pagarem para eu fazer o Ensino Médio numa escola particular, eu iria para a escola municipal, que tinha uma fama meio esquisita, e eu não me sentia muito seguro indo para a escola municipal, não por ser uma escola perigosa, mas por eu ser meio frágil. Eu não era frágil, mas era frágil para aquela realidade.
No fim das contas, eu passei na prova da escola técnica. Era uma escola pública, ou seja, meus pais não precisavam pagar, mas, em teoria, era uma escola de maior qualidade, já que tinha uma prova para entrar.
A ideia era de que, com a prova, havia uma seleção prévia das mentes que ingressavam naquela escola.
Meus pais ficaram contentes. Eu fiquei contente.
Mais tarde, descobri que aos 15 anos todo mundo é mais ou menos igual, ou seja, todo mundo é meio idiota.
Enfim, lá estava eu com meus 15 anos no Ensino Médio. Não tinha nada de especial nisso. Fiz amigos na escola. Tudo ia bem. O único problema é que eu, aos 15 anos, nunca tinha beijado ninguém.
Nunca ter beijado ninguém era um fardo para mim. Eu não era feio, eu acho. Eu me achava feio, mas olhando agora eu vejo que eu não era feio, mas eu pensava que eu era muito, muito feio por não beijar ninguém. E por me achar muito feio eu tinha muito medo de tomar qualquer atitude que poderia me levar a beijar alguém, já que beijos não acontecem por geração espontânea (bem, na faculdade alguns aconteceram, mas não era exatamente espontâneo se considerarmos o papel do álcool nessa equação), o que acabava criando uma invencível situação de O Ovo ou A Galinha.
Todos os meus amigos já tinham beijado alguém, ou, pelo menos, diziam que haviam beijado. Eu também dizia. Eu estava mentindo, alguns deles poderiam estar mentindo também, é difícil saber.
Você já teve 15 anos, né? Se você já teve 15 anos você sabe como beijar alguém é um tema importante, é um big deal. Beijar alguém, depois dos 15 anos, não é tão big deal assim, mas nós só temos as referências que nós temos no momento.
A referência que eu tinha no momento era a de alguém com 15 anos. Alguém com 15 anos e BV.
BV.
Era uma mancha terrível na minha vida, ser BV.
Eu fingia que não era, porque seria ridículo admitir que eu era BV para os meus amigos de 15 anos da escola nova. Mas eu era. E isso me corroía por dentro.
Acho que era isso que eu precisava explicar.
Porque o que aconteceu foi o seguinte.
Eu estava decidido a resolver esse problema. Resolveria o problema naquele ano. Nem um ano a mais.
Porém, a minha decisão individual não bastava, já que para beijar alguém o alguém é elemento fundamental. Então alguém precisaria concordar em me beijar para que eu resolvesse o problema.
O que me impedia: a sensação de que eu era muito, muito feio, e uma timidez paralisante com pessoas que eu não conhecia e, em especial, pessoas em quem eu tinha algum interesse.
Resumindo, eu era um imbecil. Muita gente era.
O que me ajudava: era uma escola nova, com gente nova, então a maior parte das pessoas ainda não sabia que eu era um imbecil, me dando tempo para fazer alguma coisa e formar uma opinião contrária.
Assim aconteceu.
Uma menina, também do primeiro ano, me aceitou no Orkut. Eu sabia quem ela era porque alguns amigos sabiam quem ela era. E ela sabia quem eu era, porque alguns amigos dela sabiam quem eu era. Networking adolescente.
Ela me aceitou, eu mandei um oi, ela respondeu um oi, a gente conversou, ela respondia o que eu perguntava e fazia novas perguntas, que eu também respondia. Ao que tudo indicava, ela não me achava um imbecil. Troquei minha foto e ela elogiou. Também não parecia me achar muito, muito feio.
Comecei a ficar nervoso.
Nós nos encontramos na escola, é claro, e aí eu ficava travado. Conversávamos, mas eu não conseguia falar nada com nada, não conseguia ser engraçado, fazer piada, nada. Era uma conversa de imbecil, um imbecil de 15 anos com a segurança de um barbante segurando o peso de uma carreta. Por sorte ela não parecia se irritar com essa dinâmica e nós continuávamos conversando, online e pessoalmente, mais online do que pessoalmente.
Daquele ano não passaria. Mas eu não tomava atitude alguma.
Até que ela tomou e eu quase vomitei de nervosismo. Ela mandou mensagem dizendo que queria fazer uma pergunta, eu disse para ela fazer, e ficou lá, digitando, digitando, e eu nervoso, quase cagando nas calças.
O que ela perguntou foi: o que você quer?
Ela perguntou com mais palavras, mas o resumo era aquele. O que eu queria com aquela conversa, o que eu queria com as piadas, onde eu queria chegar?
Onde eu queria chegar?
Aí eu fiquei nervoso e digitei e apaguei e digitei e apaguei e digitei e apaguei.
E no fim eu respondi que não sabia.
E ela meteu um KKKKKKKKKKKKKKK e eu fiquei primeiro ofendido, e depois aliviado que ela estava rindo.
Eu respondi com KKKKKKKKKKKKKK.
Então amanhã vou te dizer o que eu quero, ela disse.
O que é?
Amanhã te digo.
Mandei um emoji, que chamávamos de emoticon.
Ela mandou outro.
Disse que tava curioso.
Ela riu outra vez e disse: vou te dizer e te mostrar.
Fiquei taquicardíaco. Era tudo o que eu queria e tudo o que eu temia. Ela tomou a dianteira, fez tudo o que eu era incapaz de fazer. Comecei a questionar minha primeira certeza, que foi: ela quer me beijar. E o questionamento era: talvez ela não queira e talvez eu esteja viajando.
Eu questionava muito minhas próprias certezas.
Eu ainda questiono, mas agora é outra história.
O nível do tanto que eu questionava:
uma vez uma outra menina que estudava comigo e conversava comigo todo dia me chamou para ir no cinema, só eu e ela, e eu aceitei (isso foi uns dois anos antes), e eu tive certeza, no início, de que ela queria me beijar, porém chegando lá eu já não tinha mais essa certeza, e assim a gente viu um filme sobre o Chico Xavier, eu acho, sem que eu fizesse absolutamente nada, sem que eu sequer encostasse na mão dela, e no fim a gente se despediu e não se beijou.
(anos depois a gente se beijou, o que também é outra história)
Então eu estava nesse vai, não vai da dúvida, mas me segurando na ideia de que eu precisava beijar alguém. Se eu beijasse alguém eu ia superar essa barreira invisível da maturidade e tudo seria mais fácil.
Era só esperar o dia seguinte. Era só esperar o dia seguinte, em que tudo iria acabar e começar outra vez.
Bom, não foi assim.
*
No dia seguinte eu cheguei na escola e fui para a sala, como fazia todos os dias, e tivemos as três primeiras aulas até o intervalão, que durava meia-hora. Era nesse intervalo que nós íamos nos encontrar, eu e a menina. Eu não contei nada para os meus amigos, porque não queria expor aquela possibilidade, já que, no pior dos casos, poderia não acontecer nada.
Eis o que aconteceu.
Nós saímos da sala e fomos andando para o pátio. Dava para ouvir um barulho estranho vindo de lá, uma gritaria. Sempre havia gritaria no intervalão, porque era um bando de adolescente de saco cheio de ter aula enchendo o cu de açúcar na cantina ou jogando bola ou se beijando ou sei lá o quê. Dessa vez, não era isso.
A gente foi se aproximando do pátio e o barulho foi aumentando, eram gritos concentrados. Entramos no pátio.
Havia uma aglomeração de gente em um canto, e de lá vinham os gritos. Fiquei de coração gelado. Que é que tava acontecendo? Será que isso vai me atrapalhar?
Fomos para perto da aglomeração e os gritos aumentavam e aumentavam e aumentavam.
Era porradaria.
Porradaria era um centro gravitacional das escolas, quando havia briga todas as outras ações tradicionais suspendiam suas atividades para acompanhar a porradaria. O futebol, sagrado, parava. A fila da cantina e da merenda se desfazia. As rodinhas de conversa paravam. O truco parava. Tudo parava para acompanhar a briga.
A porradaria era sagrada.
E lá fomos nós para perto da porradaria ver o que estava acontecendo.
Eu não podia acreditar no que estava acontecendo.
Uma menina, que eu já tinha visto, mas não conhecia, estava enchendo uma outra menina de tapa e de soco, enquanto a segurava pelo cabelo. Era tapa e soco atrás de tapa e soco, e a outra menina não conseguia reagir, ela só protegia o rosto.
Eu não podia acreditar no que estava acontecendo: a menina que tava sendo merendada na porrada era a menina com quem eu conversava.
Fiquei sem reação. Fiquei com as pernas bambas. Fiquei gelado e fiquei quente. Fiquei taquicardíaco de novo.
Ela apanhava sem parar e eu sentia que devia interceder, mas eu não intercedi. Tinha, acima de tudo, um puta de um medo de entrar ali no meio e tomar uma porrada na cara.
Os coordenadores e monitores apareceram correndo, tradicionalmente atrasados, e puxaram uma para cada lado. A menina que batia tentava se soltar para continuar batendo. A menina com quem eu conversava tentava respirar. O que eu mais temia era que ela me visse, e me visse a vendo apanhar. Ela me viu. Ela me olhou diretamente, com o cabelo todo desgranhado, e desviou o olhar. Eu olhei para o chão. Pensei que fosse desmaiar. As duas foram levadas para fora do pátio. A aglomeração se dissipou, com conversas paralelas focadas na briga.
Disse para o meu amigo que precisava ir no banheiro. Eu precisava, mesmo.
No caminho, encontrei um tufo de cabelo. Era da menina. Era da menina que havia me dito que falaria o que queria. Mais que isso, que ia me mostrar o que queria. E lá estava o seu tufo de cabelo, resultado da surra pública que ela levou.
Aguentei o restante das aulas e fui para casa o mais rápido possível.
*
Naquela tarde e naquela noite, ela não ficou online. Compreensível.
No dia seguinte, ela não estava na escola. Perguntei para os nossos amigos em comum, e eles disseram que não sabiam, que não sabiam quando ela voltaria.
Não sei nem se ela volta, um deles disse.
À noite ela estava online. Eu abri a janela da sua conversa e vi nossa conversa anterior. Digitei Oi, mas não mandei. Digitei Oi de novo, mas não mandei.
Ela não mandou nada.
Eu também não.
O amigo que disse que não sabia se ela voltaria estava certo, ela não voltou. A menina que bateu também não. A escola soltou um comunicado dizendo que brigas eram intoleráveis em um ambiente escolar.
Em muitas outras noites ela esteve online e eu também.
Mas eu era, como eu disse, um imbecil.
Não nos beijamos.
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Gabriel Schincariol Cavalcante

Eu posso estar errado. Mas será que eu estou?
Escritor de ficção, formado em Direito pela USP (não é advogado), mestrando em Teoria Literária - FFLCH USP

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Curadoria cuidadosa de Gabriel Schincariol Cavalcante via Revue.