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Diálogo monológico sob a luz amarela na cadeira do dentista - Eu posso estar errado - Edição Nº28

Diálogo monológico sob a luz amarela na cadeira do dentista - Eu posso estar errado - Edição Nº28
Por Gabriel Schincariol Cavalcante • Edição Nº28 • Ver na web
A faculdade de odontologia é uma ode a James Joyce

Você chega no horário e é recebido com um bom-dia. Você se senta na recepção e espera chamarem o seu nome. Chamam o seu nome e você vai para dentro do consultório, em que a cadeira reclinável ocupa o centro do espaço, e sobre a cadeira reclinável está a luz amarela potente que vai direto nos olhos do paciente.
“Pode se sentar”, diz a dentista. E você se senta. “Pode deitar”, e você se deita. Um babador é colocado sobre o seu peito. A luz amarela é ligada.
“Liga o compressor pra mim, Carla”, diz a dentista, e a Carla (você supõe) responde alguns segundos depois “pronto, doutora”.
Então você abre a boca e o sugador de água é enfiado embaixo da sua língua e a dentista diz “agora vamos começar”, e você responde com um ahã, e ela diz “se sentir qualquer coisa é só avisar”, e você responde com outro ahã.
E por começar, é claro, ela não quer dizer começar apenas o procedimento odontológico (uma limpeza de rotina), mas, especialmente, começar o diálogo monológico aprendido no curso de James Joyce que toda boa faculdade de odontologia possui como obrigatório no seu Plano Pedagógico.
O som do motorzinho na mão na dentista é a deixa para que ela comece a falar.
“E o São Paulo, ein?, eu não vejo futebol há muito tempo, não ligo mais, esse time não tem jeito, mas ontem decidi assistir, três a um no primeiro jogo eu tinha certeza de que a gente ia ser campeão, mas eu também pensei que o São Paulo poderia muito bem acabar perdendo por soberba, faz quanto tempo que a gente não vai bem de verdade?, eu lembro que a gente ganhava tudo, eu assistia a todos os jogos, você lembra? - ahã -, então, eu via tudo, agora parei de ver tem uns anos, chega, futebol não deixa ninguém feliz, começou o jogo e eu já vi que ia ser cagada, o goleiro fazendo cera, vê se pode - uhm -, e aí um gol, dois gols, três gols, eu já desliguei a tevê, fui fazer outra coisa, não tem como, eu lembro de um outro jogo assim também, o São Paulo adora fazer isso, pode fechar a boca e puxar o sugador igual canudinho, isso, pode abrir, o São Paulo é campeão nisso, um jogo contra o Fluminense, tava sendo campeão até os acréscimos, né isso? - ahã -, e aí o jogador do Fluminense fez gol, que ódio desse time, nossa senhora, é um horror, por isso eu não vejo mais futebol, não tem mais graça, pode fechar a boca, agora eu prefiro ver BBB, pode abrir, esse tá horrível, né, ano passado que foi bom, aquela doida tocando o terror, eu amava, mas aí o pessoal, brasileiro não sabe votar, você assistiu? - uhum -, eu não via, mas com a pandemia passei a ver, não sabe votar, começou bem, mas aí no fim pra deixar aquela planta tirou o Gil, o Gil, que era o melhor, aff, o cara é maravilhoso, não tem jeito, aí tiram pra deixar uma planta, e no fim, pode fechar a boca, no fim deram o prêmio pra chorona da Juliette, pode abrir de novo, quando o povo gosta de alguém, já viu, não importa, aí ela ganhou, só chorava, chorava, e ganhou, o povo é besta demais, aí esse ano tá pior ainda, o Boninho passa um ano escolhendo os participantes e faz um negócio desse, horrível, aí o pessoal fica nessa, fulano tem que ganhar porque é preto, ciclano porque é azul, não é assim não, tem quem ganhar quem joga melhor, querem que a tal da Lina ganhe, chata demais, nossa senhora, só por que é travesti vai ganhar?, não, não, pode fechar a boca, querem forçar uma coisa, sabe, mas não vai, ela é muito chatinha, pode abrir, não ganha, e o resto é tudo insuportável, o Arthur também é muito chato, mas pelo menos ele movimenta o jogo, eu vejo por ver, mas tô achando é um saco esse ano, quem deveria ganhar um milhão e meio é a gente que aguenta o programa, assim aposentava pelo menos, pode fechar, porque eu acho que minha geração não aposenta mais, e a sua, então, nossa senhora, meu filho, não vai ter nem mais planeta, Jesus vai voltar antes, pode abrir, vão destruir o planeta inteiro - ahã, hehe -, eu não sou vegana, acho legal quem faz por opção, acho bonito, mas isso de impor, de transformar em ideologia eu não concordo, apesar de que esse tanto de pasto vai destruir tudo, mas não pode impor, quer comer um lanche, uma carninha, tem que comer, quem quer comer, que coma, nossa, olha só a cor disso aqui, parece danoninho, né?, até engana, até o cheiro é doce, se vacilar acaba comendo, dá um sorriso, isso, sentiu o gosto?, é adocicado também, fica com o sorrisão assim, e aí o planeta vai acabar, eu concordo que tem que preservar, mas essas atrizes, influencers vão na tevê, fazem vídeo falando ah, meu Deus, vamos salvar a Amazônia, que cara, né? - uhm -, fala em salvar a Amazônia e o closet dela é maior que o meu apartamento, ela acha que veio da onde, acha que isso não desmata?, o pessoal é sem noção, pelo cachê falam qualquer coisa, aposto que essas atrizes veganas adoram McDonalds, eu adoro, como mesmo, deveria até diminuir um pouco, a outra dentista, que teve que cancelar sua consulta, ela passou mal, fez bariátrica há um tempo e passou mal e achou que era apendicite, mas era a bariátrica, fez cirurgia de emergência, tava comendo mais do que podia, e agora ela perde duas vezes, né, financeira e patologicamente, porque é autônoma, a gente não tem INSS, eu falo pra elas, recolhe um pouquinho, é pouco mais é melhor do que nada, mas elas não me escutam, não tem jeito, só sofrendo pra saber - ahã -, aí agora tá em casa, de repouso, e perdendo dinheiro, mas pelo menos tá recuperando, isso que importa, graças a Deus, pode fechar a boca, fecha bem, igual canudinho, isso, pode abrir, pronto, pode cuspir, aqui o papel pra limpar a boca, seu óculos, prontinho, tudo bem? - tudo bem, obrigado - imagina, é só assinar a ficha do convênio na recepção, elas dão o comprovante de horário, também, fica com Deus, tchau”.
Você assina a ficha do convênio. Pega o comprovante de horário. E sai pensando se a dentista terá o que dizer, depois de falar tanto com você, para o rapaz que está esperando na recepção quando você vai embora. Mas é claro que terá. Ninguém é tão hábil em unir assuntos desconexos como um dentista.
Talvez os cursos de escrita devessem contar com um profissional da odontologia no corpo docente.
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Gabriel Schincariol Cavalcante

Eu posso estar errado. Mas será que eu estou?
Escritor de ficção, formado em Direito pela USP (não é advogado), mestrando em Teoria Literária - FFLCH USP

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Curadoria cuidadosa de Gabriel Schincariol Cavalcante via Revue.