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Amor é o acolhimento da mortalidade - Eu posso estar errado - Edição Nº34

Amor é o acolhimento da mortalidade - Eu posso estar errado - Edição Nº34
Por Gabriel Schincariol Cavalcante • Edição Nº34 • Ver na web
Eu ia escrever outra história, mas esse título estava salvo nos rascunhos

Quando eu me sentei aqui para escrever, eu queria falar sobre outra coisa. A coisa:
Que talvez eu esteja ficando louco.
Ou melhor:
Que eu achei que estivesse ficando louco.
Há pouco mais de uma semana eu escrevi um texto chamado BARULHO, e eu escrevi esse texto porque, naquele momento, havia uma multidão de sons chegando aos meus ouvidos e eu estava perto de surtar. O barulho na rua não cessava um minuto sequer. Uma música alta tocava distante, mas parecia aqui dentro. Os vizinhos de cima estavam enlouquecidos. Minha cabeça estava em parafuso e eu tive a certeza de que aquele momento seria o momento em que eu perderia a minha sanidade. Escrevi quinhentas e poucas palavras sobre isso, já que só escrevendo eu consigo, momentaneamente, silenciar esses momentos ensurdecedores.
E pensando nesse flerte com a loucura, fiquei imaginando se é possível conceber o momento exato em que alguém enlouquece. Quando a travessia é feita, da sanidade para a insanidade.
Era sobre isso que eu queria falar. Sobre a impossibilidade de se fixar, na ocorrência momentânea, o instante exato dos eventos das nossas vidas. Tudo parece definido em retrospectiva: quando saímos de casa, nunca sabemos se aquele é o dia em que não retornaremos. Enquanto escrevo essa newsletter, não sei se esse é o texto que me tornará um fenômeno internacional. Provavelmente não, mas você entendeu o que eu quero dizer.
Enquanto eu sentia que estava perdendo a cabeça, essas ideias não paravam de zunir nos meus ouvidos. Eu estava certo de que o meu cérebro estava desregulado. De que o fingimento tinha acabado: era hora de eu aceitar a minha fragilidade mental.
Aí enfim eu consegui dormir mais do que oito horas e esse desespero passou. A insônia é muito boa em me deixar surtado.
Mas não é sobre isso que eu vou escrever, sobre isso eu iria escrever e não vou mais.
Vou escrever sobre o título dessa newsletter.
Amor é o acolhimento da mortalidade
“Love is awful. It’s awful. It’s painful. It’s frightening. It makes you doubt yourself, judge yourself, distance yourself from the other people in your life. It makes you selfish. It makes you creepy, makes you obsessed with your hair, makes you cruel, makes you say and do things you never thought you would do. It’s all any of us want, and it’s hell when we get there. So no wonder it’s something we don’t want to do on our own.
I was taught if we’re born with love then life is about choosing the right place to put it. People talk about that a lot, feeling right, when it feels right it’s easy. But I’m not sure that’s true. It takes strength to know what’s right. And love isn’t something that weak people do.
Being a romantic takes a hell of a lot of hope. I think what they mean is, when you find somebody that you love, it feels like hope”. - discurso do padre em Fleabag sobre o amor
Eu não sei exatamente quando eu comecei a pensar sobre a morte. O que eu me lembro:
de, menino, meu primo me dizer que alguns adultos tinham um problema de saúde em que a língua deles enrolava e eles paravam de respirar, até morrer. Daquele momento em diante eu fiquei muito atento à língua da minha mãe e do meu pai;
de, menino, observar o peito do meu pai enquanto ele dormia para ver se ele estava respirando;
de, menino, esperar a minha mãe chegar a noite, depois do trabalho, ficando ansioso com cada carro que passava com o farol aceso e não parava em frente de casa, certo de que uma catástrofe estava por vir;
do dia em que eu recebi a ligação para avisar que meu pai tinha morrido (eu já esperava) e no dia em que eu li a mensagem que a minha mãe tinha morrido (eu não esperava).
Apesar de não saber exatamente, eu sei que, há muito tempo, eu tenho a mais absoluta e cristalina noção de que a morte é um fenômeno natural da própria vida, condição sinequanon. Saber disso de maneira absoluta e cristalina em nada torna mais fácil lidar com a perda.
Disso nós sabemos todos, e o que nós fazemos, talvez, é nos enganar com maior ou menor intensidade. Nós não falamos muito sobre a morte no dia a dia. Nós evitamos trazer o assunto à tona. Nós sabemos que a morte está lá, no futuro incerto, mas, por vezes, nós fingimos não saber.
Quem sabe conosco seja diferente?
Quem sabe na nossa vez (nossa, nesse sentido, é em relação a vida dos demais, que nos cercam, em virtude do amor que sentimos) a morte desista, encontre uma paixão mundana e a seguinte frase seja estampada no romance de nossas vidas, escrito pelas mãos de Saramago:
“No dia seguinte ninguém morreu”?
Fingimos, mas não podemos fingir para sempre.
A negação da mortalidade no cotidiano é uma espécie de subterfúgio para continuarmos vivendo, para que as coisas tenham sentido, para que os planos não se mostrem vazios.
De repente um ator famoso ou uma atriz famosa ou um cantor famoso ou uma cantora famosa morre de maneira trágica e a noção da mortalidade inafastável é, mais uma vez, jogada em nossas caras, e sofremos com um luto coletivo. Dói como se fosse a morte de um parente, de um amigo. Sentimos medo. Ficamos angustiados.
Não podemos fingir para sempre.
Quando olhamos embaixo da cama, não encontramos monstros. Encontramos outras coisas.
Encontramos essa absoluta e cristalina certeza de que tudo terá seu fim. Alguns de nós lidam melhor com essa certeza. Outros de nós, não.
Seja como for, ela não se altera.
All things must pass. Nós também.
E o amor não é o oposto da mortalidade, mas o seu acolhimento. Temos medo de morrer, mas temos ainda mais medo de que morram aqueles que amamos. Temos medo de morrer, porque é desconhecido o que vem depois, mas temos ainda mais medo de que morram aqueles que amamos porque sabemos exatamente o que vem depois:
o vazio que fica;
a falta que fica;
as memórias que não se renovarão;
todo o tempo que nos resta sem a presença de quem partiu.
E para se amar é preciso fazer as pazes com esse ridículo absurdo que é a morte.
Ao nutrirmos amor por alguém, nós aumentamos o potencial de dor da nossa mortalidade. Se tememos por nós, para cada um que amamos nossos temores são multiplicados.
Estamos diante de uma situação aparentemente impossível: é esse amor que nos move adiante, e é esse amor que vai nos dilacerar, que vai nos romper ao meio quando a pessoa para quem esse amor é dirigido morrer.
Aparentemente impossível, porque é só na aparência. Não existe conflito real.
Veja: a morte está lá, no futuro incerto.
O amor, por sua vez, é um exercício do agora. O amor, por sua vez, não supera a morte, não é possível superar o inevitável, mas o amor concede à morte um caráter poderoso.
Até que a morte nos separe.
E quando a morte nos separar, o amor se dissipa no ar?
O amor não supera a morte. O amor é um exercício absurdo de permanência em uma natureza transitória.
O amor e a morte dividem essa característica em comum: são fundados no permanente. Todo o resto, não. Estar vivo é, por definição, um evento transitório. Vamos nos transformando, nos transformando, nos transformando, até que nossa transformação cessa de ocorrer quando morremos.
Aí, ponto final.
O amor é o acolhimento da morte. Em vida, experimentamos, por meio do amor, a sensação de eternidade que só a morte nos confere. A dureza e a beleza do amor aí residem: para amarmos, precisamos reconhecer a nossa própria mortalidade e a mortalidade de quem amamos, e desse difícil reconhecimento nós compreendemos que, sim, a morte será dolorosa e nos romperá no meio, mas que, diante da sua inevitabilidade, fizemos da nossa existência passageira um canto duradouro e afetivo.
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Gabriel Schincariol Cavalcante

Eu posso estar errado. Mas será que eu estou?
Escritor de ficção, formado em Direito pela USP (não é advogado), mestrando em Teoria Literária - FFLCH USP

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Curadoria cuidadosa de Gabriel Schincariol Cavalcante via Revue.