Eu posso estar errado

Por Gabriel Schincariol Cavalcante

Amanhã começa sempre hoje - Eu posso estar errado - Edição Nº31

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Amanhã começa sempre hoje - Eu posso estar errado - Edição Nº31
Por Gabriel Schincariol Cavalcante • Edição Nº31 • Ver na web
Eu não sabia ainda, mas o tempo funciona dessa forma: amanhã começa sempre hoje, um dia inunda o outro, de trás para frente, e, especialmente, de frente para trás.

William Hogarth
William Hogarth
Não sei quantos anos eu tinha quando os meus pais se separaram, mas sei que eu era criança. Foi pouco tempo depois disso que eu comecei a passar os finais de semana na casa do meu pai. Menino, esses finais de semana eram esperados com ansiedade por mim durante segunda, terça, quarta, quinta e, enfim, sexta, o começo. Passávamos o final de semana juntos, comíamos churrasquinho, víamos tevê até tarde, jantávamos salsicha enlatada, não havia nenhuma obrigação, nenhuma tarefa, nenhum peso, só uma liberdade infantil que tanto me alegrava (e que, mais tarde, tornou-se insuficiente na relação pai e filho, o que é coisa para uma história diferente). Diferente do que acontecia durante a semana, em que a escola me causava angústia, ficar com o meu pai era a expressão da tranquilidade. Só que desde sexta, o começo, eu passava o tempo na presença do meu pai (ou o final de semana na casa dele, fazendo o que quer que fosse) já prevendo o fim, temendo o domingo, quando tudo acabaria. Cada dia bom era acompanhado pelo dia seguinte, mais perto do dia final, e essa pressão aumentava gradativamente. A sexta muito leve, distante da despedida. O sábado era bom, só que cheio de penumbra, estávamos na linha divisória - the line of beauty and grace. E o domingo já era todo dominado pela melancolia do fim, a alegria de estar com o meu pai ofuscada pela pressão do tempo. Quantas noites não tentei passar em claro, para fazer o tempo passar mais devagar, sem sucesso? Eu não sabia ainda, mas o tempo funciona dessa forma: amanhã começa sempre hoje, um dia inunda o outro, de trás para frente, e, especialmente, de frente para trás.
Toda a vida presente é mediada pelo futuro.
E toda compreensão e planejamento do futuro são mediados pela memória, que é própria do passado.
Estamos, então, diante de uma enorme controvérsia. Só vivemos no agora, momento presente, que já se estende a todo instante no futuro, que nada mais é do que o desenrolar do passado.
Viver é, realmente, muito perigoso.
Como ser feliz?
A finitude
O livro Ensaio sobre o dia exitoso, do Peter Handke, fez com que eu voltasse a pensar com frequência em algo que já me acompanha há muito tempo: a noção sobre o peso do fim das coisas durante a sua própria existência, esse anacronismo inerente a todas as experiências humanas.
Não faltam relatos por aí sobre como a música do Fantástico, que tradicionalmente vai ao ar no fim do domingo, é atrelada a um sentimento de tristeza e melancolia - o fim de semana acabou. A musiquinha do programa da Globo é uma orquestra do fim, uma harmonia do finito. Depois que ela toca, sabemos que o descanso acabou e agora é hora de recomeçar: segunda, depois terça, depois quarta, e assim por diante.
Quando eu estava no ensino médio, domingo era sempre desagradável. De manhã o gosto ruim na boca já estava presente, o café era o último, o pão era o último, tudo assim, na medida da escassez da duração daquele dia. O Fantástico chegava e eu sabia que era questão de pouco tempo até eu precisar acordar às quatro e pouquinho para me arrumar, comer e ir pegar o ônibus.
Criança, a mesma sensação quando eu estava na casa do meu pai.
Na Aeronáutica, a alegria da sexta-feira, quando começava o licenciamento e podíamos ir para casa, ir para a rua ou apenas ficarmos dormindo no alojamento (termos, enfim, agência sobre nós mesmos), era uma alegria proporcional à noção de que o final de semana era inevitavelmente curto e tudo deveria ser aproveitado com abundância. A tristeza do domingo seguia a proporção invertida: a semana era longa, muito longa.
Foi na época da Aeronáutica que eu ouvi pela primeira vez a música Daylight do Maroon 5, que começa assim:
Here I am waiting, I’ll have to leave soon
Why am I holding on?
We knew this day would come, we knew it all along
How did it come so fast?
This is our last night but it’s late
And I’m trying not to sleep
‘Cause I know, when I wake
I will have to slip away
Maroon 5 - Daylight (Official Music Video)
Maroon 5 - Daylight (Official Music Video)
Nós sabíamos que esse dia chegaria, nós sabíamos desde o começo. Como chegou tão rápido? Eu tento ficar acordado, porque quando eu acordar será a hora de partir.
Essa parece ser a sensação comum de toda a vida. A alegria do tempo compartilhado com quem amamos, a felicidade de estar onde queremos estar, as sensações são mediadas pela inevitabilidade do fim adiante, e na medida em que o fim se aproxima a alegria, a felicidade ficam mais intensas, na mesma proporção em que a agonia cresce e se apodera de tudo:
Uma felicidade melancólica, a alegria agridoce, o adeus que desfigura a presença e potencializa o amor.
A noção de que o amanhã virá, essa noção que só nós, humanos, dotados de temporalidade e permanência (e também inconclusibilidade), somos capazes de perceber, é a noção que define nossas existências. É por causa do amanhã que nós fazemos planos. É por causa do amanhã que formamos memórias - os dias que passaram, os amanhãs que foram vencidos. É por causa do amanhã que nos seguramos com força àqueles que amamos, é por causa do amanhã que experimentamos o luto. É por causa da passagem autoritária do tempo que o presente se torna tão urgente e tão impossível de ser fixado.
Olhar para trás e sentir carinho pelo que passou é bom, é satisfatório, mas também pode ser enganoso. A memória, que é reconfigurada no presente para pensarmos no passado, tem operações engraçadas capazes de alterar nossas percepções. Deixe passar tempo o bastante e o pior dos dias parecerá um dia comum, agradável até.
Como, então, aproveitar o dia em que estamos, como viver com plenitude aquilo que experienciamos na hora da experiência, sem deixarmos a angústia do fim iminente nos dominar, sem ter que recorrer ao futuro produto da memória para reconhecermos (inevitavelmente tarde demais) o valor daquilo que possuíamos?
O que mais?
Em Felicidade conjugal, de Tolstói, Sierguiéi Mikháilitch nos diz:
“Passei por muita coisa na vida e agora penso que encontrei o que é necessário para a felicidade. Uma vida tranquila e isolada no campo, com a possibilidade de ser útil à gente para quem é fácil fazer o bem e que não está acostumada que o façam; depois trabalhar em algo que se espera ter alguma utilidade; depois descanso, natureza, livros, música, amor pelo próximo - essa é a minha idéia de felicidade. E depois, no topo de tudo isso, você como companheira, e filhos talvez - o que mais pode o coração de um homem desejar?”
Essa passagem bucólica traz a felicidade como fruto da utilidade do homem perante os demais, fruto da vida simples no campo, fruto do amor correspondido. O que mais pode o coração desejar?
É simples, portanto: para que o presente nos seja agradável, basta que o amanhã não seja opressor. Basta que vivamos uma vida que nos preencha e que a passagem do tempo não nos assuste, basta que nossa rotina não seja excruciante, mas recompensadora. Basta que nossas interações sejam todas saudáveis, basta que o amor nos cerque, basta que a luz do dia seguinte seja apenas o prenúncio do melhor dos dias - como uma criança que acorda na manhã do dia em que terá uma grande excursão -, o melhor dos dias até então. Basta que o amanhã, que inunda o hoje, prolongue (e não ponha fim) nossa experiência feliz, alegre, amorosa.
É simples, mas não é fácil de fazer.
Em Felicidade conjugal, depois que Sierguiéi revela o segredo do coração do homem, essa vida por ele anunciada desmorona. As diferenças entre ele e Mária, sua esposa, tornam-se grandes demais, fortes demais, e o amor, antes inabalável, até continua existindo, mas com novas roupas, dividido por um abismo.
Eles se amam, sim, mas é o suficiente?
O amanhã é sempre uma surpresa. E a cada amanhã estamos mais e mais longes do ontem, o último dia exitoso de verdade.
Viver o momento é, assim, um desafio, uma necessidade e uma urgência. Viver o momento é, por outro lado, uma impossibilidade humana. Compreendemos o movimento do tempo, somos acossados pela maldição de entender a temporalidade, a permanência e, em especial, a impermanência. Todo o momento vivido é definido pelo que veio antes e por aquilo que virá depois, sobre o que temos pouco ou nenhum controle.
Como ser feliz? Talvez assim: tomando nas mãos o que controlamos, fazendo da memória uma matéria da permanência e da lembrança e do aprendizado, e olhando para o futuro menos com medo e mais com fascínio, pois o futuro começa sempre no hoje, no agora, e ainda que parados estamos sempre, para o bem ou para o mal, sendo movidos adiante.
A luz da manhã chegará, é melhor que nos esquente os rostos e nos ajude a ver melhor o que temos a nossa frente.
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Gabriel Schincariol Cavalcante

Eu posso estar errado. Mas será que eu estou?
Escritor de ficção, formado em Direito pela USP (não é advogado), mestrando em Teoria Literária - FFLCH USP

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Curadoria cuidadosa de Gabriel Schincariol Cavalcante via Revue.