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A magia do ônibus intermunicipal - Eu posso estar errado - Edição Nº26

A magia do ônibus intermunicipal - Eu posso estar errado - Edição Nº26
Por Gabriel Schincariol Cavalcante • Edição Nº26 • Ver na web
Ir do ponto A ao ponto B por meio de transporte coletivo é um avanço social; a utilização do transporte coletivo, por sua vez, traz revelações profundas sobre nós mesmos.

Ônibus da saudosa Wilteer, empresa boituvense de transportes terrestres
Ônibus da saudosa Wilteer, empresa boituvense de transportes terrestres
Comecemos no começo: havia ali um amontoado de gente no tempo passado, e esse amontoado de gente não viajava grandes distâncias, ficava sempre por ali por onde nasceu, e se esse lugar onde esse amontoado de gente havia nascido calhasse de ser um lugar horrível, bem, paciência, esse amontoado de gente morria e o amontoado de gente do lugar menos horrível sobrevivia e prosperava.
Eventualmente o amontoado de gente que continuava morrendo deve ter pensado: talvez eu precise conseguir ir para lugares menos horríveis. E aí começaram a viajar a pé, ou sobre cavalos, quando domaram cavalos, ou sobre burros, quando surgiram os burros, e assim vai. Eventualmente, de novo, alguém percebeu que a matemática Um animal para Uma pessoa não era uma conta que fechava, ainda que fosse possível, às vezes, meter duas, até três pessoas nas costas do pobre quadrúpede. Era preciso levar mais gente de uma vez só.
E inventaram a roda.
E com a roda a charrete, e com a charrete o carro, e assim por diante.
Muitos anos depois, estamos aqui, neste momento presente.
Bom, não foi exatamente assim, mas você entendeu a ideia.
E se você não entendeu a ideia, não tem problema, eu vou explicar: fato é que as pessoas precisam se locomover, e se locomover com transportes sobre rodas é mais rápido do que utilizar as próprias pernas ou, ainda, utilizar as patas de equinos, bovinos, burrinos e variados.
Em um momento de rara iluminação, os seres humanos concluíram que, constantemente, muitas pessoas desejam ir do ponto A ao ponto B mais ou menos na mesma hora, o que indica uma confluência de interesses, e a confluência desses interesses acarreta, se bem utilizada, em economia de tempo e de dinheiro.
E inventaram o transporte coletivo.
Era nisso que eu queria chegar.
Nisso, mas de maneira mais específica: nos ônibus, e avançando ainda mais na especificidade, nos ônibus intermunicipais.
A contenção animalesca dentro de uma caixa de metal
Se você vive em uma cidade com mais de três ruas, você provavelmente já utilizou algum tipo de transporte coletivo. Pode ser ônibus municipal, pode ser metrô, trem, o que for. Cada uma dessas modalidades de transporte têm suas particularidades e regramentos próprios, inclusive de convívio entre os passageiros, regras não escritas e centenárias que garantem que, na maior parte das vezes, todos cheguem vivos aos seus destinos finais - mochila nas mãos e não nas costas nos ônibus municipais, não ficar parado na frente da porta do metrô, etc.
O ônibus intermunicipal, objeto do meu interesse neste momento, é uma forma de transporte coletiva também dotada de particularidades que valem (ou talvez não valham, mas pouco importa, já que eu já estou escrevendo) breves considerações.
Tendo nascido em Boituva, eu utilizei incontáveis vezes o serviço de viações rodoviárias para me locomover entre a minha cidade e as cidades vizinhas, como Sorocaba, Cerquilho, Tatuí, a capital, cidades em outros estados, etc., etc., etc.
Não é exagero dizer que, não fosse a existência dos ônibus, minha movimentação geográfica seria drasticamente reduzida.
Apesar de ser um ótimo instrumento de transporte, o ônibus esbarra num problema profundo e, quiçá, insolúvel, que é o fato de ele existir para transportar pessoas, e pessoas são (se você não percebeu isso até agora, talvez você seja o problema) criaturas complexas de lidar.
Primeiro que ao entrarmos num ônibus, estamos assinando um contrato de fé com um homem-de-meia-idade-com-os-dois-últimos-botões-da-camisa-abertos-e-óculos-no-peito-presos-por-uma-cordinha, o motorista. Não sei quando foi a primeira vez que pensei nisso, mas depois de pensar a primeira vez, como acontece comumente com ideias traiçoeiras, não pude deixar de pensar mais: o nosso desejo de chegar a um destino específico é realizado por força desse contrato de fé, e nossa fé é avalizada por uma série de procedimentos de segurança que vão desde o regramento para o motorista tirar sua habilitação até a esperada diligência da viação em relação à qualidade dos profissionais que dirigem seus veículos (afinal, um ônibus custa bastante dinheiro). Apesar de haver toda uma cadeia de eventos para tentar garantir um mínimo de segurança possível, estamos, de todo jeito, no campo da fé, porque basta um dia muito ruim para que o motorista decida enfiar o próprio ônibus na frente de um caminhão durante a viagem e lá se vai tudo embora.
Sempre cumprimentei o motorista ao embarcar e agradeci com a clássica frase “Obrigado, motor” ao desembarcar, porém, depois de ser acometido pelo pensamento acima exposto, meu cumprimento passou a ser mais efusivo, singelo, um quê desesperado, e meu agradecimento mais honesto, aliviado, fervoroso.
Certa feita, dois motoristas se sentaram nos bancos atrás do meu, e calhou de eu ouvir parte da conversa deles. Essa conversa girou, basicamente, em volta da carga de trabalho que eles têm, e como constantemente eles dirigem mais horas do que o previsto para fechar a escala, especialmente em feriados e afins. Quando eles começaram a falar em números eu aumentei até o limite o som do meu fone de ouvido, porque eu queria, e quero, permanecer na mais plena ignorância sore esse tema.
Eu sei que os motoristas de ônibus lidam com escalas perigosamente inchadas e que isso invariavelmente impacta na capacidade de decisão deles atrás do volante, mas eu sei disso de maneira abstrata, e quero continuar sabendo de maneira abstrata, porque eu preciso continuar viajando de ônibus.
Se o motorista, responsável pelo caixote de metal a quase 100 km/h sobre o asfalto, é protagonista desse transporte coletivo, os passageiros não são menos importantes e, talvez, sequer sejam sujeitos passivos, ao contrário do que o nome pode indicar.
Um exemplo simples. Em 23 de novembro de 2013, foi editada, em São Paulo, a lei n. 15.937, “que proíbe o uso de aparelhos sonoros ou musicais [em som alto e sem fone, é claro] no interior de veículos de transporte coletivo”.
Não é preciso ser bacharel em Direito e nem ter feito IED para saber que a norma em questão surgiu como instrumento de coação contra um comportamento específico, i.e., ouvir som alto dentro do transporte coletivo. Ela surgiu pois, na sua ausência, a mera cortesia social não foi suficiente para evitar que numerosos passageiros metessem em seus celulares cada vez mais sofisticados e com alto-falantes cada vez mais potentes uma variedade quase-infinita de gêneros musicais, vídeos e derivados.
É de se supor que, na média, as pessoas sabem que não vivem sozinhas no planeta Terra. É de se supor que, na média, sabendo desse fato, as pessoas também sabem que é preciso respeitar, ainda que minimamente, os demais, obtendo uma convivência harmoniosa.
Porém, de suposição em suposição acabamos com a lei n. 15.937/2013.
Por mera ignorância ou por deliberado descaso, uma parcela considerável da sociedade presta pouco interesse no sossego alheio, e dentro do ônibus intermunicipal você está preso a essa parcela da sociedade, por reflexo estatístico, durante um considerável período de tempo em que não há escapatória possível (a não ser que você considere viável pular pela janela).
Noves fora, agora os ônibus tem o aviso contido na lei, que é regulamentada pelo decreto n. 55.191/2014, proibindo o som alto.
Durante meu ensino médio (o primeiro dos dois que eu fiz) estudei em Sorocaba, cidade vizinha de Boituva, na ETEC Fernando Prestes. Para ir até lá eu precisava pegar um ônibus fretado da Wilteer, que não existe mais, às cinco e pouquinho da manhã, e, acompanhado por mais uma dezena de pessoas, viajar por uma hora.
Cinco da manhã, ônibus, uma hora de viagem. É de se supor que todos dormiam no trajeto inteiro ou, então, permaneciam calados olhando pela janela, pro celular (não tinha tanta coisa para fazer no celular em 2009), ou, ainda, conversavam o mais baixo possível, enfim, mantinham alguma civilidade.
É de se supor, mas nem sempre.
Vez ou outra um camarada começava a falar alto e gritar e tocar música, e se alguém fazia o sonoro Shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh, ele dizia que ônibus não era lugar de dormir.
Não sei como um homicídio não aconteceu dentro do ônibus da Wilteer. A lei 15.937/2013 deveria ter o nome desse camarada como homenagem.
Mas esse é só um exemplo dentre muitos outros. Quando você viaja muito de ônibus você vê de tudo e mais um pouco.
Você vê:
  • gente que fica na fila do embarque com mala que precisa ser guardada na parte debaixo do ônibus, tendo que mudar de fila ao chegar perto de embarcar, e depois se emputecendo por querer subir na frente dos demais;
  • gente que é incapaz de conhecer o limite do próprio banco em relação aos cotovelos;
  • gente que tira o sapato e coloca o pé sujo (via de regra quem faz isso está com o pé sujo) no assento do lado enquanto ninguém chega para sentar;
  • gente que pede para descer na estrada e, avisada de que não é possível descer na estrada se tiver mala na parte debaixo, reclama do motorista (o perigo!, o perigo!);
  • gente que não levanta o banco na hora de desembarcar;
  • gente que não vira a perna para o lado do corredor para deixar a pessoa da janela passar, apenas recolhendo minimamente os joelhos, o que não ajuda em nada e obriga uma batalha de pernas por espaço.
O rol, como bem se vê, não é exaustivo. Os seres humanos são bem inventivos na hora de dificultar a própria vida e, especialmente, dificultar a vida alheia. O ônibus é só um medium potencializador dessa capacidade. Dezenas de pessoas, um espaço fechado sem ter para onde correr.
Contudo, all things said and done, eu tenho um carinho especial por ônibus intermunicipais. Afinal, são eles que me levam para casa, que me levam para Paraty na Flip, que me traziam de volta de Barbacena depois de semanas difíceis e cansativas, são eles que me levam para perto de quem eu amo, são eles que me levam para longe com a tácita promessa de me levar de volta. Claro, temos os aviões, o metrô, o trem, mas para o menino de Boituva é o ônibus intermunicipal a primeira ponte com o mundo todo.
Ainda que para isso seja preciso aguentar aquele intervalo infernal entre o embarque e o motor ser ligado, em que a temperatura interna do veículo fica em aproximadamente 50ºC.
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Gabriel Schincariol Cavalcante

Eu posso estar errado. Mas será que eu estou?
Escritor de ficção, formado em Direito pela USP (não é advogado), mestrando em Teoria Literária - FFLCH USP

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Curadoria cuidadosa de Gabriel Schincariol Cavalcante via Revue.