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Às vezes eu falo de palavras simples boas de cantar

Fernanda Castro
Fernanda Castro
Esta newsletter só devia existir lá pro fim de setembro, mas eu tive um dia difícil e… a gente finge que eu mandei com um intervalo razoável.

Às vezes eu falo de palavras simples boas de cantar
Desde que Lágrimas de Carne bateu asas e caiu no mundo, recebo com frequência o elogio (que me deixa bobinha, admito) de que a prosa do livro é bem trabalhada, que é “poética” e que “tem as palavras no lugar”. Já escutei também (bobinha outra vez) que minhas preparações de texto têm uma certa sensibilidade com a prosa alheia.
Depois disso, comecei a prestar mais atenção e a me perguntar que tipo de coisa passa pela minha cabeça na hora de escrever ou alterar não a história em si, mas o conjunto de palavras frase a frase. O que me faz escolher uma palavra e não a outra?
O texto a seguir não é uma aula, não é uma grande descoberta ou um conjunto de regras imutáveis de boa escrita (das quais, atualmente, quero distância). É só um devaneio. E aprendi recentemente com a Maggie Stiefvater que uma das melhores maneiras de ganhar intimidade com o próprio processo é se debruçar a fundo no processo dos coleguinhas.
Então vamos ver…
Acho que, antes de tudo, é importante dizer que não acredito na escolha de palavras perfeitas, porque existem muitos jeitos ótimos de dizer a mesma coisa, mas acredito na escolha de boas palavras.
Palavras, mais do que o significado intrínseco, carregam sensações. Elas têm gosto, som, formato, pausas. Quando penso em prosa bonita, penso em frases que me fazem carinho na boca, que enrolam na língua. Palavras difíceis. Palavras simples para dar um bom contraste, porque se tudo for pesado, você afunda. Uma boa pontuação pra amarrar tudo no lugar. Também gosto de ler em voz alta e de “declamar” as coisas (minhas e dos outros), para sentir o peso e o balanço, o vai e vem das marolas. É quase um test drive.
(E é bem provável que você já conheça, mas sempre bom lembrar da crônica Defenestração, do Veríssimo, que combina muito com essa conversa.)
Engraçado que, quando tento visualizar uma prosa bonita na cabeça, a cena que chega até mim é de uma valsa, palavras que me fazem mexer a boca em ritmo e compasso, com momentos de gravidade e leveza.
Mas que música seria essa? Bem, é aí que a prosa trabalha a seu favor. Uma história não precisa ser contada apenas no enredo, nos diálogos e ações dos personagens. Quando a prosa trabalha em prol da história, ela é como a trilha sonora de um filme, colocando o leitor no estado emocional correto e entregando subtexto.
Por exemplo, se digo que “João era um rapaz saudável e querido por todo mundo”, a prosa é neutra (o que pode ser bom!), mas, se digo que “João era viçoso e bem quisto”, você automaticamente pensa em algo mais antigo, histórico. Se eu digo que “João era rapaz viçoso e bem quisto em qualquer botequim do Rio de Janeiro no qual pusesse com graça os seus sapatos bicolores”, você já sabe exatamente o tipo de cenário de que estamos falando, certo? Talvez já esteja escutando os copos tilintando no balcão, o bonde passando e os jornais sendo abertos nas mesas pelos clientes mais assíduos que chegaram para tomar café no botequim. Botequim, essa palavra linda… Se eu troco “rapaz” por “moço”, sinto automaticamente 10% mais empatia e paixonite por João, porque “moço” é uma palavra mais afetuosa e que implica um vocabulário mais doce ou inocente para o narrador. “João era moço com viço, moço de bem-querer”. Sentiu o ar sonhador, quase com saudade? Espero que você esteja se apaixonando por João, porque eu já estou vendida (e provavelmente João vai quebrar nossos corações daqui a duas páginas).
É claro que todas essas impressões são bem particulares, e, como eu falei lá em cima, existem outros mil jeitos mais ou menos floreados de passar a mesma sensação. Então qual vai ser a sua combinação de temperos?
(Aproveito para lembrar que tempero demais também estraga a comida.)
Aliás, gostei da analogia culinária: talvez você esteja lendo isso e pensando que cozinhar palavras é uma alquimia muito difícil. Mas, assim como a sua vó tempera “de olho” enquanto você relê 3x a receita com seu copinho medidor e erra mesmo assim, escrita é ofício de prática. Tem que ir experimentando na colherinha e ajustando até pegar o jeito. Fica mais intuitivo com o tempo.
E é claro que trabalhar como tradutora e preparadora é um exercício maravilhoso para a Fernanda escritora, porque sou obrigada a prestar atenção na escolha de palavras e de tom, nas repetições, nos ecos, no ritmo e cadência de cada história que passa na minha mão. É trabalho, mas é também estudo. Quando lemos por lazer, é fácil se perder na história. Por mais que a prosa chame atenção aqui e ali, você não vai ficar analisando linha a linha (até porque uma prosa que chame atenção demais para si mesma pode não ser uma boa ideia em determinados tipos de história). Na tradução/preparação, o texto vira quebra-cabeça.
Mas vou propor um exercício aqui.
Eu tenho uma paixão declarada por algumas músicas da MPB, tanto pela memória afetiva (viagens de carro com toca-fitas) quanto pelo ímpeto criativo que elas me despertam. Tem músicas que, eu juro juradinho a mim mesma, ainda vou transformar em história.
Além do mais, acho que alguns letristas da MPB têm uma mão muito boa para escolher palavras. Belchior, por exemplo. Chico Buarque. Zé Ramalho. Marisa Monte. Gonzaguinha. Milton Nascimento. E, coisa que me deixa mais abismada, essas pessoas são boas em usar palavras simples.
Milton Nascimento tem uma música (que conheci primeiro na versão cantada pelo Beto Guedes) chamada Veveco, Canelas e Panelas, que traz o seguinte trecho:
Queria fazer agora uma canção alegre
Brincando com palavras simples, boas de cantar
Luz de vela, rio, peixe, homem, pedra, mar
Sol, lua, vento, fogo, filho, pai e mãe, mulher
Num resumo honesto de quatro linhas, não é isso que quer todo escritor? Brincar com palavras simples e boas de cantar? Agora repare na escolha das palavras, na ordenação entre elas e na pontuação. São todas palavras “afetivas”, comuns e terrenas, coisas do dia a dia, mas que soam místicas quando colocadas lado a lado. Observe como se repete o som do F em “fogo, filho”, unindo duas categorias que anteriormente poderiam soar desconjuntadas (o que vento e fogo teria a ver com pai e mãe, né mesmo?). Leia os versos em voz alta, veja eles dançarem na sua boca. Observe como “pai e mãe” são os únicos sem vírgula, porque soa mais aconchegante falar os dois juntos, tipo família, do que “pai, mãe” e porque, se você acompanhar com a melodia da canção original, a pronúncia de “pai” já escorrega pro conectivo “e” e encaixa em “mãe” com mais suavidade do que em “pai, mãe”.
Posso estar viajando? Posso estar viajando, mas adoro destrinchar esse tipo de coisa, porque ajuda a destravar possibilidades. Essa nossa língua é muito, muito bonita.
Uma das músicas que ainda vou transformar em história é Corsário (mas na versão da Zizi Possi, veja bem). Corsário é uma música sofrida, dolorida, uma música de violência e saudade. Vou deixar o vídeo logo aqui embaixo porque escutar pode ajudar a entender meus comentários:
Zizi Possi ‎– Corsario
Zizi Possi ‎– Corsario
Acho essa interpretação tão bonita, mas TÃO BONITA, que chega me dá ódio. O instrumental já puxa o melancólico desde o começo, e a Zizi faz um trabalho excelente colocando toda essa carga e esse cansaço na voz. Note as pausas em “a voz vibra… e a mão escreve… mar”, e também o peso em “MAR”, em como ele parece algo grandioso e terrível (mais na frente, ela vai fazer a mesma coisa com a palavra “CAIS”).
Logo depois temos um “por você, eu, teu corsário preso”. Essa é uma frase romântica pra porra. O “eu” ali destacado, o uso do “teu” em vez de “seu”, que faz a gente pensar naquelas declarações de livro antigo, de cavalaria e grandes juramentos. E vamos combinar, a imagem de um corsário preso já ativa todos os meus alarmes de romantasia.
Mas talvez a parte que eu mais goste nessa música seja esse pedacinho aqui:
Vou partir a geleira azul da solidão
Me agarrar na mão do mar
Me arrastar até o mar, procurar o mar
A gente tem o “mar” repetido três vezes, e a interpretação da Zizi mostra toda essa ânsia do corsário para alcançar o oceano, como se ele estivesse tentando de novo e de novo, um pensamento fixo e doentio. Depois, gosto muito de como temos “me agarrar na mão do mar”, que coloca o mar como entidade e passa a ideia de conforto, de apoio e tábua de salvação, para logo depois trocar por “me arrastar até o mar”, que é algo mais difícil, feito com as últimas forças, um gesto de desespero moribundo. Eu acho o uso desse “arrastar” genial, porque
a) por trás do significado da palavra, eu penso também em redes sendo arrastadas, o que combina bem com o tema,
b) o som do RR naturalmente soa agressivo para nós, porque é como um rosnado rascante (olha o RR aí). Para além do significado, estamos brincando com o som e a sensação da palavra. Ele aparece duas vezes, na verdade, porque está em “agarrar” também. Deslizar/engatinhar/içar até o mar não passaria a mesma coisa, ainda que as palavras fossem sinônimos perfeitos. E talvez por isso fazer um rasgo pareça mais drástico do que fazer um corte. A Zizi, que não é boba nem nada, capricha na hora de puxar esse RR. Ela fala quase com nojo, e, não sei você, mas eu acho que esse corsário já está ficando pra lá de pirado com o confinamento.
Por falar em pirado (a última, prometo), tinha uma música que eu cantava pequena quando estava com medo do escuro — aquele tipo de amuleto ao qual as crianças se apegam, principalmente aquelas criadas junto de vó carola — chamada Menino de Braçanã. Ela dizia “quem anda com Deus não tem medo de assombração, e eu ando com Jesus Cristo no meu coração”, such catholic, eu sei.
Porém, tinha uma parte dessa música que sempre me deixava meio assustada, como se fosse uma pegadinha na minha própria oração:
Se eu demoro, mamãezinha tá a me esperar
Pra me castigar
Só fui entender o desconforto muitos anos depois. O que me incomodava era ter uma pessoa adulta (a Maria Bethânia) falando “mamãezinha”, que é um jeito tão inocente e singelo de se referir à mãe, um cordeirinho… e logo depois essa mesma pessoa adulta falando que será castigada pela sua mamãezinha. Não parece aquele tipo de cena que tinha tudo pra ser fofa e infantil, mas com aquele detalhe que a torna um filme de terror? É como uma loja de brinquedos depois que as luzes se apagam e as bonecas ficam ali paradas no silêncio, encarando sem nunca piscar. É como um bosque lindo, mas cujas folhas caíram no inverno e agora todos os galhos parecem mãos. Era a sensação que a música me passava. Eu morria de medo dessa tal mamãezinha que só podia mesmo ser uma serial killer.
E tudo isso por uma palavra. Uma palavrinha só, soando fora do lugar, me deixando apavorada. É assim que a prosa trabalha.
***
Enfim, às vezes eu falo demais, e não quero monopolizar a conversa. Me apresenta uma música que você ame pelas palavras? Que tal você colocá-la verso a verso no microscópio?
Se você gostou do que leu aqui, é provável que vá gostar de: Nós Sempre Vivemos no Castelo (Shirley Jackson), O Gigante Enterrado (Kazuo Ishiguro).
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Fernanda Castro
Fernanda Castro @fernandaversa

esporádica . fortuita . aleatória.

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