Às vezes eu falo

Por Fernanda Castro

Às vezes eu falo de carregar um aquário nas costas (e pré-venda!)

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Fernanda Castro
Fernanda Castro
(Fica até o fim, preciso falar da pré-venda de O Fantasma de Cora, mas surgiu um assunto doido™ que precisamos discutir primeiro!)

Parte I
Vou começar a newsletter com uma das afirmações mais clichês do mundo online moderno: os últimos meses têm sido transformativos. Uma jornada.
Mas calma, nada de good vibes, não precisa ter medo. A gente também aprende muita coisa na base da porrada, infelizmente. E o que são os últimos anos senão uma boa sova coletiva na massa da humanidade?
Entre algumas desventuras, quis contar uma bem lúdica.
Desde criança, tenho um sonho recorrente. Ele acontecia com mais frequência em determinados períodos da minha vida, ou tinha modificações em algumas cenas, mas era basicamente o mesmo. Eu o chamava de “o sonho dos três peixes pretos”.
Sempre fui uma pessoa que se autocobra muito, principalmente com relação aos outros. Descumprir um prometido, falhar com um combinado, decepcionar… tenho pavor de qualquer sensação de ter prejudicado alguém por não ter sido perfeita o suficiente nos meus acordos.
Mas voltemos aos peixes. No sonho, eu sempre estava em casa, indo fuçar o quartinho da despensa do apartamento dos meus pais, que era aquela espécie de depósito para enfeites de Natal, sobras de reforma e qualquer outra coisa que não tinha muito espaço no resto da casa. Eu tateava as prateleiras, afastando caixas e quinquilharias a esmo como quem pretende fazer uma faxina, até que encontrava um aquário.
Sujo, com o nível de água baixo, o vidro cheio de lodo, ele cheirava a putrefação e sargaço. Estagnado, abandonado, esquecido no tempo.
Lá dentro, formas que se mexiam.
Meus pais nunca deixaram que tivéssemos gato ou cachorro em apartamento, então minha infância foi povoada por pets “exóticos”, incluindo, além dos clássicos hamsters e psitacídeos, aranhas e tatuzinhos de jardim (e um famigerado circo de pulgas, mas deixo essa para outra newsletter).
Eu também tive muitos peixes. Molinésias de barriga inchada parindo dezenas de filhotinhos, piabas transparentes que viviam mais de dez anos, guppys que mudavam de sexo para balancear o número de machos e fêmeas e que viviam em pé de guerra. Eu tive um peixe daqueles limpa-vidro que de vez em quando saía do aquário e ia dar um rolê pela minha mesa, era um inferno (o nome dele era Zé). Acho engraçado que pessoas que nunca tiveram aquários, quando pensam no assunto, costumam visualizar aqueles peixinhos-dourados nadando sem rumo em um recipiente redondo de água perfeitamente transparente, porque criar peixes é tudo menos isso.
Enfim, eu tive muito TEMPO para, como uma boa criança introspectiva, ficar observando o comportamento daqueles peixes confinados. E os peixes, eles são… estranhos. Alienígenas em seus comportamentos, em suas feições estáticas, em sua movimentação para qualquer ângulo e direção. E não digo que peixes não mereçam nossa empatia ou não sejam capazes de sentir uma miríade de sensações complexas (muito pelo contrário, uma das minhas piabas adorava receber cafunés), mas acho que, de todo os meus bichinhos de estimação, os peixes foram os que mais me ensinaram sobre o lado amoral da natureza.
Se não capturássemos os filhotes de molinésia depressa, eles eram comidos pelos adultos. Se um peixe começava a dar sinais de doença, ele era sumariamente executado e consumido pelos outros. Eu, criança, tinha verdadeiro pavor de lidar com os cadáveres. Não por estarem mortos, essa é a parte engraçada, mas por estarem molhados. Pelo cheiro de brejo que eles exalavam ao serem pescados na redinha e despejados na lixeira. Pela pele lisa e brilhante, pelo fato de que às vezes um peixe demora a morrer. Ele fica lá, parado por horas no fundo do aquário, deitado de lado, e, de repente, um espasmo. Os olhos sempre abertos, sempre vigilantes.
Meus pais também eram avessos a tomar qualquer uma das nossas responsabilidades com os pets. Se o peixe morto era meu, eu que deveria lidar com ele. O resultado disso era uma procrastinação enojada, uma tentativa de ignorar o que precisava ser feito por puro asco. E assim o cadáver ia pouco a pouco sendo consumido por seus pares, tornando-se adubo e matéria viva do aquário em constante transformação. Meu aquário estava longe de ter as condições ideais de limpeza, de iluminação — eu fazia o meu melhor, juro, e sei que meus peixes tiveram mais dignidade que 90% de seus primos nas pet shops, mas o manejo de um terrário, seja de qual tipo, jamais deveria ser o trabalho de uma criança. E eu, de certa forma, sabia que estava falhando com eles. Eles me atraíam e me causavam repulsa ao mesmo tempo. Porque eram lindos, eram queridos, e eram também a prova de que eu não dava conta. De que eu não os merecia. De que era fácil esquecê-los e ir viver minhas aventuras de criança.
Essa sensação me assombrou até os sonhos.
Na despensa dos meus pais, no tal aquário lodoso, eu encontrava meus peixes transformados.
Negligenciados, eles haviam virado monstros. Cinzentos e escorregadios e cheios de barbatanas e nadadeiras nos lugares errados, eles se escondiam na lama e na sujeira com dentes enormes, alimentando-se uns dos outros, comendo dejetos e se multiplicando como forma de manter a comida disponível. Um ouroboros de negligência.
A sensação desse sonho é algo que consigo recordar no fundo dos meus ossos. Nunca era medo. Era um asco profundo misturado à pior sensação de incompetência e culpa. EU os havia esquecido. EU passara meses sem lembrar que havia um aquário a ser limpo e alimentado na despensa. EU criara aqueles monstros.
E o que eu posso fazer agora?, era o que eu pensava, tentando raciocinar como tirar aquelas coisas que mordiam e se debatiam dali. Eu os odeio, eles me assustam, mas são minha responsabilidade, são meus. Eu preciso ficar com eles.
E, sempre que eu chegava a essa sensação assustadora, o sonho dava uma guinada. Três bagres pretos (daqueles com bigodinhos pendurados) vinham nadando em pleno ar para se postar ao meu lado, seus olhos miúdos parecendo as coisas mais mesquinhas que já vi. Eu nunca estranhava o fato de eles serem do tamanho de cachorros ou estarem flutuando no nada, mas sempre me sentia mal de tê-los por perto. Às vezes, se eu não me mexesse rápido o bastante, um deles mordia os meus dedos, os meus joelhos, o meu cotovelo. Eles me seguiam para todos os lados.
Outro ponto interessante é que esse sonho tinha uma paleta lodosa, como se eu estivesse enxergando tudo através de lentes esverdeadas. Como se eu também estivesse mergulhada no aquário.
Logo depois eu acordava, sempre com essa sensação ruim no peito de ter falhado com vidas que dependiam de mim até transformá-las em ódio e monstros.
Esse sonho se repetiu a minha vida inteira, com pequenas variações. Algumas pessoas sugeriram que eu tatuasse os três peixes pretos como um símbolo, mas nunca gostei da ideia. Um símbolo de quê? De algo que faz com que eu me sinta péssima?
Bem, ano passado comecei a fazer terapia (que não, não é a resolução de todos os males do capitalismo, mas eu tava mesmo precisando por causa de uma fase difícil). E então surgiu essa questão, essa minha necessidade de nunca falhar com ninguém querido, mesmo em coisas que não são minha responsabilidade. A necessidade de ser perfeita para todo mundo. Comentei sobre o sonho com a minha terapeuta, sobre como eu me sentia mal em não ter sido a dona perfeita para cada bichinho de estimação esquisito que passou pela minha mão, e o quanto isso me machucava. Ao que ela respondeu: “mas você era jovem, e animais exóticos exigem cuidados que não são do senso comum”.
O interessante é que, após mais alguns dias ruminando sobre todos esses sentimentos e sobre o jeito com que eu me apresentava para as pessoas, eu voltei a ter o sonho.
Só que, dessa vez, ao descobrir o aquário moribundo no fundo da despensa, eu o peguei nas mãos, aguentando as mordidas, o cheiro e todo o asco, e o levei comigo para fora de casa. Como no mundo onírico as distâncias são irrelevantes, a porta da minha casa dava direto numa loja de peixes que eu costumava visitar quando era criança. Era uma dessas lojas de bairro, negócio de família especializada em peixes e todo tipo de aparato bizarro para construir aquários. Para mim, aos cinco, seis anos, ela parecia infinita, parecia conter novidades e surpresas sem fim. Bichos que eu nunca tinha visto na vida. Corais, estrelas-do-mar e moreias. Era ainda mais legal porque as paredes da loja eram pintadas de preto e ficava tudo escuro lá dentro, apenas os aquários bem iluminados se destacando nas paredes. Era um portal alienígena a apenas alguns quarteirões da minha casa!
(Existe a possibilidade da loja não ter sido nada disso e você estar recebendo apenas as minhas memórias afetivas, mas tudo bem.)
Dessa vez, coloquei o aquário sujo em cima do balcão. Não falei com ninguém, mas lembro de ter a certeza de que aqueles peixes seriam aceitos ali, como se eu já tivesse feito um acordo prévio com o dono da loja.
Corri o dedo pela superfície suja do vidro, olhei para meus peixes feios, com dentes, nadadeiras partidas, escamas faltando. Olhei-os com amor. E pensei:
Vocês vão ser mais felizes aqui, sem mim. Eu não tenho condições de cuidar de vocês agora, eu não tenho como honrar essa responsabilidade.
E eu fui embora. E eu fui chorando. E eu acordei chorando. E rindo.
Não sei ainda se os três bagres pretos voltarão a assombrar meus sonhos. Talvez eu ainda os encontre. Mas achei uma história interessante para contar nestes tempos sombrios. Porque geralmente são mais nesse sentido agridoce as lições bonitas que aprendemos na dor.
E, Deus do céu, como anda doendo.
Parte II
Mais eis que as cortinas se erguem. A narradora levanta o queixo e ajusta os ombros, assumindo um ar divertido que eclipsa seus olhos distantes, reflexivos. Nossa, essa newsletter virou um enterro??, ela diz, puxando um banquinho para o centro do palco.
E por falar em enterro, queria te convidar para a pré-venda do meu novo livro, que está saindo agora em abril pela Editora Gutenberg e que anda preenchendo meus dias de alegria.
Banner promocional da pré-venda, mostrando a capa (uma cena com várias pessoas em trajes vitorianos na frente de uma escadaria de teatro, com a personagem principal vestida de noiva bem ao centro, encarando o leitor) e os textos "Disponível em pré-venda. Alô, fãs de literatura nacional. O Fantasma de Cora é um romance de realismo fantástico cheio de aventura, suspense e magia. Ao fundo, o símbolo da Editora Gutenberg.
Banner promocional da pré-venda, mostrando a capa (uma cena com várias pessoas em trajes vitorianos na frente de uma escadaria de teatro, com a personagem principal vestida de noiva bem ao centro, encarando o leitor) e os textos "Disponível em pré-venda. Alô, fãs de literatura nacional. O Fantasma de Cora é um romance de realismo fantástico cheio de aventura, suspense e magia. Ao fundo, o símbolo da Editora Gutenberg.
“Em Portomar, tudo que uma moça bem-educada e de saúde frágil pode querer é um casamento adequado. Esse é o sonho de Coralina: romântica, Mister Ícaro é a síntese das suas jovens ambições. Quando a garota morre logo após a noite de núpcias, sua prima Francine – recém-chegada à capital, e ainda não totalmente aclimatada às regras daquela sociedade – decide descobrir os motivos por trás da morte de Cora, não importam as consequências.”
O Fantasma de Cora foi um livro que escrevi em 2018, em tempos muito diferentes do que estamos vivendo hoje e em uma época onde ainda me parecia muito, muito, muito distante que alguém como eu pudesse entrar em uma livraria e encontrar algo de minha autoria por ali. E acredito que, de certa forma, a história encapsulou um pouco desse sentimento com o qual foi escrita, cheia de leveza e sonhos acalentados. Um Fernanda mais jovem, mais simples e mais otimista.
Foi uma delícia voltar a trabalhar no texto para a publicação (e obrigada à Agência Magh e ao pessoal da Gutenberg por todo o apoio e paciência). Espero que o livro traga boas risadas e um quentinho no peito para todo mundo que puder lê-lo, com aquele gosto de novela das seis e lanche da tarde. Foi o que causou em mim, ao menos.
Sei que sou suspeita, mas a edição também está saindo um luxo. A capa maravilhosa (e outras surpresinhas do miolo) são obra das mãos iluminadas de Maria Carvalho, nossa mariabelhas, e eu me orgulho demais de ter uma artista pernambucana dando vida aos meus personagens. Caso não a conheça, você devia dar uma olhada em tudo o que ela faz.
A pré-venda segue firme e forte até 22 de abril, tanto em ebook quanto na edição física. Se você é do time Amazon (os fretes, eu entendo), esse link me ajuda a ganhar uma comissão pelas vendas. Caso você prefira outras lojas (o Jeff Bezos, eu entendo), aqui estão listados todos os lugares onde você pode encontrar Cora e Francine.
Nos vemos lá, talvez? Do outro lado das páginas? No casamento que vira enterro? Numa história com humor, romance, aventura, mistério, roupas bonitas, gente morta e gente desmorta também?
Obrigada pela companhia, vou tentar segurar o frio na barriga por aqui. Um livro meu, na livraria! Deus me ajude.
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Fernanda Castro
Fernanda Castro @fernandaversa

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