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As vantagens dos pseudônimos (e o Metaverso 🥽)

Eriq Cobra
Eriq Cobra
Mesmo para quem não é escritor, usar pseudônimo é vantagem: desde sobreviver numa ditadura fascista, até a próxima revolução do Facebook.

Foto por Alexey Demidov.
Foto por Alexey Demidov.
Mark Zuckerberg anunciou que logo passaremos parte de nossas vidas no Metaverso¹.
Com as próximas pandemias, otimização de deep fakes, e o arquivamento de dados pessoais em servidores privados, proteger a própria identidade online (de hackers e megacorporações) é uma ação de segurança básica.
Porque fabricar identidades já é brincadeira de criança.
Foto por Matthew LeJune.
Foto por Matthew LeJune.
Bolas-ovos
Pseudônimos são como as bolas de golfe nas caixas de ovos dessa foto do Matthew LeJune: representam coisas, que se parecem com outras coisas, causando reações em quem observa.
As bolas são tão reais quanto os ovos – mas elas não são os ovos.
Para alguém vendo a fotografia pela primeira vez, o que as bolas-ovos representam no contexto da imagem causa uma reação.
A reação é pensar nas bolas como uma âncora para os ovos – mesmo sabendo que não são ovos.
Ninguém vai se convencer a comer a bola de golfe por isso. Mas vai ser difícil não associar as bolas aos ovos.
Pseudônimos nem sempre são usados para anonimato
Como no meu caso, podem ser totens que retém contextos diferentes – ao mesmo tempo que limitam essas informações às áreas da vida em que cada contexto faz sentido.
Não quero meus clientes de escritor freelancer sejam meus leitores.
Como não busco leitores que se tornem clientes de escrita freelancer.
E, definitivamente, não quero minha mãe recebendo atualizações do meu currículo numa empresa.
Bolas.
Ovos.
Bolas-ovos.
Foto por Sharon McCutcheon.
Foto por Sharon McCutcheon.
Ainda usando ovos como analogia
“Nunca coloque todos os seus ovos numa cesta só”.
Informações são patrimônios. Informações são os ovos de ouro em vigência na era pós-digital².
Não esqueça que se um app, serviço, ou produto é gratuito, o produto é você: suas informações pessoais, seu comportamento, interesses, por onde você anda, e muitos, muitos, muitos outros dados…
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Liberdade criativa
Outra coisa legal de de usar pseudônimos é a possibilidade de mexer com a “realidade” dessa persona virtual como se fosse um personagem dos livros.
É mais do que segurança ou marketing: usar pseudônimo é retomar parte do controle sobre a narrativa de si próprio – alguns diriam que “a mais importante narrativa de todas”.
Dia 11 de setembro é meu aniversário. Pelo simbolismo de renascimento, me comprometi de postar a página “Sobre” no site novo até o dia 10.
Queria brincar de escrever em terceira pessoa, usando minha vida real como base para uma pequena história “fictícia” – levemente alterada para contar a história do meu novo personagem.
Alterar a realidade também foi o que pratiquei para gerar o pseudônimo Eriq Cobra: tirei algumas letras do meu nome completo.
Quando escrevia sem pseudônimo, eu tinha que ser 100% preciso sobre os fatos da minha história pessoal.
O único espaço criativo que eu tinha era o de fazer o que todo mundo fazia: mostrar as coisas boas. Exagerar as qualidades. Parecer descolado.
Impressionar.
Reter.
Repetir.
Foto por Chris Yang.
Foto por Chris Yang.
Não era só uma gripe
Quando eu era mais novo, não me importava de falar o quanto uma tentativa de suicídio na adolescência transformou minha experiência com a vida.
Foi o que me fez aceitar que eu estava deprimido e precisava de ajuda. Não era só um dia ruim. Não era só uma gripe.
Um pouco mais maduro e buscando aceitação no mercado, inserir nas minhas apresentações um episódio tão polêmico me fez perder pontos sociais.
Diminuiu minhas chances de monetizar projetos.
Ao mesmo tempo, omitir esse momento transformador fez com que eu me sentisse um mentiroso. Não contando “a história toda”, sabe?
Me escondendo na persona Eriq Cobra para interagir com a internet no que chamo de “fantasia virtual,” posso devolver tal elemento transformador à “origem do personagem”.
Do porquê Eriq Cobra escreveu os livros que escreveu.
Sabendo que é o nome do Eriq que tá para rolo, e não o do falecido³, sinto que posso ousar. Dar uma louqueadas. Brincar com os textos que publico.
Ao brincar com a prática de escrever, ela deixa de ser um peso – porque brincar de deus é viciante.
Ao alcance dos dedos, nasce um registro da história do mundo real – ou das realidades criadas do zero.
Quem vai procrastinar se é possível sentar à mesa e ser deus por horas e horas – todos os dias?
Recomendo o uso de pseudônimos para:
- Quem gostaria de adicionar camadas de privacidade online, separando os tipos de conteúdo com os quais interage pela internet;
- Criadores tímidos ou perfeccionistas (para testar uma obra sem usar o nome verdadeiro e finalmente produzir – em vez de procrastinar com “pesquisa”);
- Qualquer pessoa querendo “começar de novo” na “fantasia virtual”.
Destaque dum texto de Walter Longo para a Revista Galileu.
Destaque dum texto de Walter Longo para a Revista Galileu.
Conclusão
Assinar livros e interagir com desconhecidos4 como 007@jamesbond.com em vez de usar uma conta com o nome verdadeiro – a mesma vinculada à conta do banco e outras plataformas sensíveis – é mais seguro.
E divertido. Devolve a liberdade para explorar. Devolve a necessidade de criar por criar – a escrita pelo prazer da escrita.
Ainda diminui o desconforto de receber críticas ou feedbacks. Fere menos o “ego de autor”.
Considere as vantagens de usar um pseudônimo antes de procrastinar para escrever seu próximo livro.
Ou o primeiro. Ou um conto.
Ou seu próximo post no Twitter. ◼
Notas de rodapé
²: Walter Longo escreveu pra Revista Galileu: “A Era Pós-Digital é, basicamente, a realidade em que vivemos hoje, na qual a presença da tecnologia digital é tão ampla e onipresente que, na maior parte do tempo, nem notamos que ela está lá. Só percebemos sua existência quando por algum motivo ela nos faz falta. E essa total ubiquidade da tecnologia digital provoca impactos em todos os aspectos da vida.” Leia a ótima matéria no site da revista: https://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2015/01/bem-vindos-ao-mundo-pos-digital.html
³: Falecido é como me refiro ao nome que usava antes de assinar como Eriq Cobra.
4: Leitores interagem por si próprios com o conteúdo que autores publicam. Na maioria dos casos, um autor não tem controle sobre essa interação, já que ela só existe na mente dos leitores – e talvez nunca seja expressada. O impacto e o “tom” dessa interação (os diferentes graus entre “positivo e negativo”) variam a partir da construção psicológica do leitor reagindo ao que foi publicado.
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Eriq Cobra
Eriq Cobra @eriqcobra

Links interessantes, dicas de escrita criativa, e novidades sobre o autor de livros LGBT+ Eriq Cobra. Saiba mais no site www.eriqcobra.com.br

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