[News do Eric] Sucesso na literatura é o quê? 🏳️‍🌈

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[News do Eric] Sucesso na literatura é o quê? 🏳️‍🌈
Por Eric Novello • Edição Nº9 • Ver na web

Sucesso pra quem?
Venho pensando em sucesso. Mais especificamente no que seria ter sucesso como autor, como um contador de histórias.
Em 2020, numa entrevista de emprego, falei que era um autor de sucesso no Brasil, seja lá o que isso signifique (no caso sucesso, não Brasil, que significa caos). Falei sem pestanejar. Estou numa das casas editoriais mais respeitadas do país, o lançamento do Ninguém Nasce Herói bateu 4 horas de fila, consigo, há 10 anos, publicar livros que sinto serem fieis à minha proposta autoral… Autor de sucesso.
Mas quando disse essa palavrinha de efeito, meu entrevistador, que não é brasileiro, que não fala português, me perguntou: “Então seus livros já foram publicados no exterior?”
Fim do meu sucesso.
Claro que para ele fazia sentido. Ele é diretor de uma empresa de alcance global. Mesmo. Fala inglês com a mesma fluência de seu primeiro idioma, vê continentes como eu vejo minha rua. Sucesso é estar pelo mundo. E eu não estava pelo mundo. Hum… sei não esse sucesso aí, hein?
Bem, passei na entrevista de emprego. Mas a pergunta pelo visto ficou na minha cabeça. Sucesso?? Você?? Mas e os livros no exterior?? Ou em outras palavras “cadê uma prova comprovável do seu sucesso aqui na minha mão?”
É meio dramático e meio engraçado isso tudo. Não levem tão a sério essa newsletter. É tudo culpa da arte. A natureza da arte é etérea, existe além de nós mesmos que a criamos e consumimos. E quem é que está interessado em pautar sucesso por noções totalmente capitalistas e ególatras?
Pelo visto, quase todos nós. Mesmo que apenas quarenta e cinco neurônios em meio aos nossos 86 bilhões de vez em quando se espreguicem para nos dar aquela cutucada: mas e o sucesso, hein? Quando vem? Seu primo já tá empregado, passou num concurso! E as namoradinhas? É neurônio que não acaba mais, pergunta que não acaba mais.
Ubik
Assinar essa newsletter é me ouvir falar de Ubik, romance do Philip K. Dick, pelo menos uma vez por ano. Pois essa hora chegou… de novo. Ubik é um romance futurista com geladeiras que só abrem quando depositamos dinheiro nelas, pessoas com telepatia e precognição, colônias em marte e outros parangolés especulativos. Mas o “uau” de Ubik para mim é um fenômeno que faz a realidade se desfragmentar e o tempo recuar. A cada onda de desfragmentação, o mundo muda em volta do protagonista.
Para evitar que o mundo vá pro buraco de vez, o protagonista precisa achar “Ubik”, essa solução mágica, essa resposta intangível, sem aspecto definido. O problema é que cada vez que ele chega perto do Ubik, uma nova onda afeta o mundo e Ubik passa a ser outra coisa completamente diferente que ele agora precisa descobrir o que é para correr atrás… que nem o sucesso.
Porra, Ubik.
É e não é.
É mesmo difícil estabelecer uma medida pessoal de sucesso que não dependa da validação alheia. Quando olham o seu currículo, não importa se você é feliz ou não, importam os números, os prêmios. E o mais doido é se sentir alinhado a uma contracultura, é querer fugir de uma medida normativa (hetero, cis, capitalista, etc) de sucesso, mas continuar sendo arrastado por essa medida, como uma estrela engolida por um buraco negro. Arrastado? A quem eu quero enganar. É continuar querendo mergulhar de sungão e peito depilado nessa piscina mesmo sabendo que a água é rasa demais.
Quando Twin Peaks, o novelão original lá de 1990, foi indicado a uma pá de prêmios e os atores da série ficaram todos saltitantes com as possibilidades, David Lynch mandou logo a real pra galera: “não vamos ganhar”. Porque não fazia sentido uma série como Twin Peaks receber esse tipo de validação. Twin Peaks era ruptura. Receber um monte de Emmys seria justamente uma desvalidação, uma prova do fracasso. Ainda assim, lembro de ver David Lynch choroso ao receber seu Oscar honorário em 2019, finalmente reconhecido por seus pares.
É, eu não tenho uma resposta para o que é sucesso. Uma newsletter com perguntas sem respostas - num tempo onde todo mundo é especialista em tudo menos em si mesmo - talvez seja um retumbante fracasso. Vai ver é esse o segredo.
E nessa maré de incertezas me arrisco a dizer uma coisa: Noções de sucesso, e mesmo metas mais palpáveis, devem servir pra nos levar pra frente, pra nos lembrar de sonhar e planejar o caminho na direção desses sonhos, nunca como artifício de autoflagelação. Inventar um significado de sucesso só para se ver como fracassado e se sentir mal com isso é uma armadilha sempre à espera de um pé desavisado. Preserve seus pés.
Falar para 200 pessoas num auditório lotado é sucesso e vender 300 livros é fracasso? Vender bem no exterior é sucesso e vender mal no seu país é fracasso? Pagar suas contas com literatura é sucesso e nunca ter recebido validação da crítica é fracasso? Ser indicado a um prêmio é sucesso e não ganhar o prêmio é fracasso? Ter muitos seguidores é sucesso e menos seguidores que o amiguinho é fracasso?
A literatura, no fim das contas, é um território de questões incessantes. E a gente que lide com elas.
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Sucesso é criar um tuíte assim.
Um abraço,
usem máscara,
se vacinem,
e a gente se lê!
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Eric Novello
Por Eric Novello

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Se você ainda não me conhece, sou autor dos romances 'Ninguém Nasce Herói', 'Exorcismos, Amores e Uma Dose de Blues' e 'Neon Azul'.

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