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E o Golpe não Veio...

Boletim do Cesar
E o Golpe não Veio...
Por Cesar Nascimento • Edição Nº8 • Ver na web

O presidente Jair Bolsonaro no 7 de Setembro. Marcelo Camargo/Agência Brasil.
O presidente Jair Bolsonaro no 7 de Setembro. Marcelo Camargo/Agência Brasil.
O 7 de Setembro veio e foi embora sem o golpe prometido pela imprensa. Alguns bolsonaristas mais aloprados ficaram frustrados com o anticlímax. Afinal, não estava tudo combinado? E não foram apenas bolsonaristas que acreditaram na narrativa fatalista, que também deixou muito esquerdista ansioso, mas também uma parte dos próprios jornalistas que anunciavam a catástrofe. Parece que ensaiaram tanto diante do espelho que assumiram seus personagens. E quem não ficaria com receio ao ver diversos formadores de opinião dando como certa a subversão da ordem, com sangue nas ruas e expurgo de comunistas? De fato, uma jornalista da CBN chegou a recomendar às pessoas que “evitem sair na rua, porque esse pessoal estará armado e doido para matar comunistas”.
Luciano Hang
Olhem o desespero desta apresentadora da Rádio CBN, (globo). @taniamorales acha que os brasileiros são idiotas e que ainda acredita nestes veículos de desinformação. Estão enganados acabou o monopólio e o Brasil vai as ruas neste dia 7 de setembro. https://t.co/IDExKe7IsE
Descontadas as aberrações como essa, persiste o fato de que a grande imprensa vinha alardeando diariamente a “ameaça autoritária” do presidente, cujo clímax tinha tudo para ocorrer no 7 de Setembro. Quem estava prestando atenção, no entanto, terá percebido que a mesma imprensa dizia insistentemente que o golpe não era viável, que Bolsonaro falava bravatas, que os generais não embarcariam em uma aventura irresponsável como essa. Em suma, duas narrativas conflitantes estavam em circulação. E o golpe não aconteceu.
O fato é que não havia e não há condições materiais para um golpe de Estado ou governo de exceção, pois não há apoio popular, da imprensa ou de parte significativa dos principais centros de poder no país. Um governo ilegítimo, para se sustentar no poder, teria de empregar meios excessivos de repressão, com elevado custo de violência e possivelmente grande número de mortos e feridos. Ninguém com um mínimo de poder, seja no governo, nas Forças Armadas ou em qualquer outra posição de responsabilidade no país deu qualquer sinal de que apoiaria isso, não obstante a insistência da imprensa em tratar o golpe como questão de tempo. Tampouco há ambiente internacional que facilite a ruptura em um país da importância regional do Brasil.
Como bem explicou o sempre sensato J. R. Guzzo:
Dar um golpe de Estado, ao contrário do que acham os editoriais, os cientistas políticos de esquerda e o governador João Doria, não é um negócio assim tão simplesinho; não basta fazer umas lives, meia dúzia de passeatas de motocicleta e uma bateria de “disparos” no Twitter. Não adianta desfile com trator em Brasília, dizer “pátria amada, Brasil” e chamar o general Braga. – Manual Prático do Golpe, Revista Oeste
Essa é a situação atual. A situação futura pode ser diferente.
Outros países do nosso hemisfério já deram provas de que as democracias liberais são muito vulneráveis a instabilidade estimulada por movimentos políticos. A enorme devastação recentemente promovida nos Estados Unidos pelos agitadores do Black Lives Matter e executada com apoio de antifas e arruaceiros de várias vertentes demonstra que mesmo um regime democrático sólido pode ter de enfrentar violência revolucionária em larga escala, sem capacidade para reagir de forma ativa.
Se, por um lado, as autoridades americanas dispunham de meios coercitivos para suprimir a revolta e reestabelecer a ordem, por outro, não tinham capacidade política ou moral para reagir. Em alguns estados, políticos comprometidos publicamente com agendas endossadas pelas hordas em fúria preferiram não as confrontar ou, em muitos casos, incentivar inicialmente os distúrbios. Mesmo em áreas controladas por políticos conservadores, faltava a disposição moral para aceitar os custos humanos da supressão do vandalismo. Note-se que não estou argumentando que a decisão sobre a supressão de vândalos e incendiários deveria ser baseada apenas na disponibilidade de meios. Os meios são apenas uma condição necessária para a ação. A decisão deve ser alcançada nos planos político e moral.
O governador progressista que incentivou o vandalismo por achar faria avançar sua agenda agiu com base em suas convicções políticas e morais, por mais nocivas que nos possam parecer; já o que se acovardou, não. Da mesma forma, o líder conservador que decidisse suprimir a revolta por estar convencido de que isso seria necessário para preservar o Estado (aqui valeria fazer uma comparação com o que se passa atualmente no Brasil, em que pessoas são presas por supostamente representar ameaça ao “Estado Democrático de Direito”) estaria agindo com base em suas convicções políticas e morais, mas não aquele que não agiu por pusilanimidade.
Há, no entanto, um caso intermediário, que me parece ter predominado no gerenciamento das revoltas do BLM/antifas, ao menos por parte dos conservadores, em que, mesmo sem ver a necessidade de suprimir a revolta para preservar o Estado, entenderiam ser moralmente justificável tolerar a depredação e violência dos revoltosos para a própria proteção das hordas e para a minimização do dano humano total. Isso equivale a ver os arruaceiros como semi-incapazes ou, em outras palavras, tratá-los como parcialmente inimputáveis, protegendo-os das consequências possíveis de seus próprios atos, ou seja, da repressão pela violência que promoveram. Discordo dessa posição, mas a respeito.
Os Estados Unidos são apenas o exemplo mais visível, mas poderiam ser apontados outros, como as revoltas recentes no Chile e a crescente instabilidade em outros países da região. O que esses casos têm em comum é o substrato revolucionário de todos os líderes e agitadores que os promoveram, sempre alimentados por alguma forma regurgitada de marxismo.
No Brasil, as condições podem mudar pelo aumento do apoio popular e dos centros de poder a uma ruptura — melhor dizendo, pelo surgimento de uma demanda significativa por ruptura —, induzido pela desesperança nas instituições ou por algum impasse político insolúvel, ou pela desordem social persistente, com manifestações violentas e recorrentes de grupos ou movimentos, ou pela emergência de confrontos violentos entre grupos.
Ambos os cenários podem ser alimentados pela radicalização de qualquer dos grupos políticos ou pela ação independente de segmentos radicais de suas militâncias. Como se viu no caso do incêndio da estátua do Borba Gato, em São Paulo, há grupos organizados e com disposição de promover atos de violência. Mais importante, o vandalismo perpetrado pelos arruaceiros do Revolução Periférica não foi objeto de censura enfática por líderes esquerdistas. Ao contrário, muitos endossaram o ato e defenderam publicamente o líder do grupo, Paulo ‘Galo’ Lima, como vítima de abuso ou perseguição política.
À direita, diversos influenciadores e políticos aproveitaram a situação para jogar lenha na fogueira, sugerindo que se incendiassem ou vandalizassem símbolos de ícones da esquerda.
Comparemos esse cenário com o que se viu nos Estados Unidos e entenderemos o potencial de alastramento da violência que acompanham tais ações e seu endosso por líderes políticos e formadores de opinião. É importante enfatizar que o Brasil não toleraria manifestações violentas e persistentes como as que se viram nos Estados Unidos sem forte reação das forças de ordem. Com a aproximação das eleições, esse clima de confrontação só tende a se intensificar e pode sair do controle, se atos violentos e vandalismo não forem contidos antes que se propaguem. Assim, podemos vir a experimentar o agravamento da situação a ponto de gerar as condições, hoje inexistentes, para a ruptura do status quo.
Nesse cenário, um fato digno de nota é a relativa calmaria dos protestos recentes das agremiações de esquerda no Brasil e da ausência de provocadores esquerdistas nas manifestações de direita. Isso indica, a meu ver, que as lideranças da esquerda brasileira percebem o risco de que a violência possa sair do controle. Historicamente, as manifestações de esquerda contemplam algum nível de violência, muitas vezes com depredações e confronto com a polícia. Não obstante isso, a violência fica contida na duração do ato, não se comunicando com o resto da vida social.
No cenário atual, embora continue não havendo violência por parte dos manifestantes de direita, parece existir um segmento mais extremado que estaria pronto a confrontar os militantes esquerdistas, especialmente se provocados. Isso seria um desenvolvimento novo e extremamente perigoso na vida nacional.
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Cesar Nascimento

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Curadoria cuidadosa de Cesar Nascimento via Revue.