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Volta ao Mundo em 80 Socos - Nepal ou o capítulo das andanças pelos Himalaias 2

Revue
 
 

Volta ao Mundo em 80 Socos

May 22 · Issue #10 · View online

Um casal meio perdido saiu por aí e agora está jogado pelo mundo. Relatos do mais desajustado da dupla.


ALERTA DE TEXTÃO - esse relato tem praticamente duas vezes mais palavras que os outros. Desculpe, eu queria acabar logo com o tema Nepal. Se você conseguir ler até o final é um campeão/campeã. O texto cobre os eventos de 25/4 até 01/5.
E após quase sufocar no buraco sujo e escuro que foi essa última temporada de Game do Thrones consegui recuperar o fôlego e vir aqui escrever umas pataquadas para vocês. Mas sério mesmo hein, que finalzinho apressado o de GoT, não foi? Os roteiristas das duas últimas temporadas estavam com mais pressa para terminar tudo do que meu tio Apolinário estava para chegar em casa quando foi acometido por um furioso desconforto intestinal durante um show do Biquini Cavadão no Réveillon de 93. Spoiler: ele não achou um banheiro a tempo. Bom, pelo menos as duas histórias terminaram em merda. 
Mas chega de falar de série de fantasia com zumbi, dragão e gente brava, o negócio aqui é sério. Agora é hora de falar de um casal que andou tanto que praticamente cruzou a muralha e foi parar num lugar gelado que mais parecia a terra dos selvagens. Ok. Pronto. Juro que agora acabaram as referências à cultura pop.
No último relato descrevi nosso trekking até Namche Bazar, a fascinante vila/cidade no topo das montanhas. Foi um período gostoso da nossa caminhada, pois ficamos duas noites no mesmo lugar, algo raro quando seu objetivo é andar todo dia. Nossa estadia “longa” se deu pela necessidade de fazermos aclimatação à altitude, ou em outros termos, tentar acostumar nosso corpo o máximo possível às grandes alturas. Um dia não é o ideal, mas também não dá para ficar a vida toda lá na montanha, então é melhor do que nada. 
No nosso dia de aclimatação fizemos um trekking rápido até um ponto de observação super perto da vila. Subimos de 3.200 metros até 3.880 e depois descemos de novo. Parece pouco, mas vai você pegar uma subidinha bem da inclinada a mais de 3.000 metros do nível do mar. O pulmão fica bem debilitado, me senti uma daquelas tias fumantes dos Simpsons. Claro, depois que você encontra seu ritmo fica tudo mais fácil, mas até isso acontecer o ar “some” constantemente. O dia estava bonito e o céu azul e bem limpo, por isso conseguimos ver pela primeira vez o Everest no horizonte. Foi bem emocionante perceber que a partir daquele momento já poderia dizer “vi o Everest quase de perto”. A visão do mirante era incrível, dava para acompanhar os trekkers seguindo a trilha lá embaixo fazendo zigue-zague nas encostas do vale e algumas grandes montanhas ao fundo, como Ama Dablam, Lhotse e o próprio Everest. Aliás dava pra ver só uma pontinha meio sem graça da maior montanha do mundo, que é tímida e bem inferior esteticamente comparada às outras companheiras, mas é o topo de tudo e com certeza tem uma mística inegável. Everest é aquela famosa pessoa “feia” com charme. 
E foi esse nosso dia de aclimatação em Namche. 
Após isso seguimos viagem, agora éramos nós percorrendo a sinuosa trilha entre os morros e que acompanha o vale que vimos lá do mirante. Esse foi um dia puxado, pois andamos bastante e logo após o almoço enfrentamos uma subida de duas horas com vento frio e um começo de chuva. Foi um dos piores dias da trilha para mim, pois não me agasalhei bem então toda vez que eu parava para descansar o vento gelado parecia me cortar em pedacinhos. Culpa, principalmente, da minha irritante mania de suar em demasia. Meu deus isso é um saco, pois não posso me mover para pegar algo como o controle remoto que começo a transpirar. Comer algo no calor? Transpiro também. Andar até o carro após fazer compras no mercado? Com certeza estarei suando. Assistir um vídeo de um filhote de cachorro sendo resgatado de um rio com corredeiras bravas? Pode ter certeza que eu transpirei de nervoso. Essa minha maravilhosa característica é principalmente ruim no frio, pois qualquer roupa pesada me faz transpirar, caminhar com roupa pesada então só piora tudo. E aí eu fico molhado, as roupas ficam molhadas e qualquer brisa fria é intensificados em 1000%. É chato e foi especialmente chato nesse dia. Depois de vencer esse desconforto imenso chegamos em Tengboche, uma cidade ao topo da nossa subida de duas horas a 3.800 metros de altura, onde fica o mais importante monastério da região. Belo lugar para se construir um monastério, no alto de uma montanha e com outros picos ferozes e brancos de neve ao redor. Com certeza é mais fácil encontrar algum tipo de iluminação ali do que em um apartamento apertado em São Paulo. Fica a dica para os leitores que procuram iluminação. Enfim, nem dormimos em Tengboche pois a vila estava cheia, por isso seguimos viagem até Deboche, alguns quilômetros a frente. 
De Deboche fomos até Dingboche em um bonito e pedregoso caminho em que finalmente superamos a marca de 4.000 metros. Aliás Dingboche fica a 4.410 metros de altura. Ali muita gente já começa a sentir bastante os possíveis efeitos da altitude: dor de cabeça, enjoo, dificuldade de respirar, possíveis delírios e vontade de assistir Caldeirão do Huck. Inclusive nesse trecho a mudança de vegetação e do cenário em geral é bem nítida, tudo fica praticamente rochoso, cinza, marrom e branco. As poucas plantas que ainda insistem em aparecer são rasteiras. Também foi nesse trecho do percurso em que presenciamos nossa primeira nevasca. Foi um momento muito especial, ainda mais porque não somos íntimos com neve (graças a Deus), mas mal sabíamos que daqui alguns dias estaríamos amaldiçoando essa porcaria branca.
Dingboche foi mais uma vila em que fizemos aclimatação, é melhor ainda, foi mais um lugar muito interessante e bonito que encontramos pelo caminho. Pequena e simples (não existe nada no trajeto todo como Namche), a vila é praticamente guardada pelo Ama Dablam, uma das montanhas mais bonitas dos Himalaias. Lá também tem um café super gostoso e lotado de turistas, lugar que curtimos com nossos amigos (falarei deles mais abaixo) e onde encontramos outros brasileiros. O mirante em que fomos no nosso dia de “descanso” tem uma vista surreal em duas direções: uma para o vale que segue em direção ao Island Peak, um lugar cinza e branco tomado por montanhas de aparência implacável. Na outra direção fica o caminho que os trekkers seguem para o acampamento base guardado por picos como o Cholatse e Taboche. Foi ali em cima, observando esses horizontes tão distantes da minha realidade que senti pela primeira vez que estava entrando em um mundo alienígena.
Após a aclimatação seguimos pelo percurso que eu chamo de “começo do vale do Khumbu”, mas sei que esse termo não é correto tecnicamente, já que o vale do Khumbu é uma região muito maior do que essa que descrevi, mas a newsletter é minha e sinceramente eu não tenho um nome melhor para essa região que quero descrever. 
O caminho começa fácil, fomos por cima de um morro cinza amarronzado acompanhando o que parecia um antigo leito de rio ou o efeito de derretimento de antigos glaciares. Abaixo de nós víamos pessoas caminhando nesse “leito”, na direção contrária. Eram trekkers voltando de suas empreitadas na região e indo para Periche, uma vila que fica ao pé do morro em que estávamos andando. Esse foi um dia que começou tranquilo mas logo se mostrou difícil, como a vida nos ensina as coisas sempre podem piorar. Após o almoço (sempre algo “ruim” acontecia depois da nossa refeição) enfrentamos mais uma subida homérica, de novo de umas 2 ou 3 horas. Ao chegar ao topo nos deparamos com um solene e rústico memorial para honrar os mortos nas montanhas. A vista de lá também era incrível, com uma visão panorâmica de quase tudo que tínhamos andado até o momento, o único problema foi que nesse momento o tempo começou a dar uma virada, com ventos fortes e um princípio de chuva. Seguimos o restinho final da andada do dia já acompanhando o glaciar do Khumbu, que parece um imenso rio gelado cortando a rocha negra. Passamos pelo nada convidativo basecamp do Lobuche Peak (a montanha estava encoberta por nuvens) e finalmente chegamos em Lobuche, onde passamos um breve nervoso por não termos lugar para dormir (a trilha é realmente cheia de turistas nessa época do ano e as vilas ficam cada vez menores). Com ajuda dos nossos amigos brasileiros arranjamos um quarto que mais parecia um cativeiro, mas que pelo menos era um teto nas nossas cabeças. Lobuche é cinza, fria (lá o frio começa a ficar insuportável, afinal são 4.900 metros acima do nível do mar) e eu não consigo racionalizar a razão, mas odiei aquele lugar. A vila tem um clima opressor, claustrofóbico, parece que nos faz lembrar dos riscos e obstáculos desse tipo de empreitada. Mas essa foi minha impressão, obviamente. Caso queira tirar isso a limpo pode pegar um avião para Lukla, andar por cerca de 7 dias e se hospedar num dos raros lodges do lugar. 
Aliás a Má compartilha dessa minha impressão sobre Lobuche e acho que estávamos pressentindo algo, pois no dia seguinte, nosso oitavo dia de trilha e quando finalmente chegaríamos ao acampamento base, fomos presenteados com uma das manhãs mais feias que já vi em minha vida. A temperatura caiu muito durante a noite, a neve tomou conta do cenário e o dia que se iniciava estava tomado por uma espécie de névoa desoladora. Começamos a trilha sem conseguir enxergar mais do que poucos palmos a nossa frente e o gelo que agora estava presente no solo causava as mais bizarras “escorregadas”. Ver gente parando no meio da trilha para colocar grampos na bota não é uma visão muito acalentadora quando sua melhor e única ferramenta de caminhada é seu corpo meio surrado e acima do peso. De novo o clima “opressor” de Lobuche tomou conta de nossos corações, mas eis que após uma hora de caminhada o dia se abriu e o sol tomou conta do céu. Nunca fui desses hippies que dão bom dia pro sol, inclusive julgo a turma que faz isso (se você faz, desculpe, já te julguei), mas nesse dia eu quis abraçar o astro rei com todas minhas forças, mesmo que isso fosse causar uma ou outra queimadura em meu corpinho. 
O cenário que até então era depressivo transformou-se em uma das paisagens mais lindas que já vi. Estávamos em uma parte plana do vale (uma das raras ocasiões), indo em direção a uma pequena cadeia de colinas rochosas que precisaríamos cruzar para chegar em Gorak Shep, a última vila antes do nosso objetivo. A nossa frente as já mencionadas colinas, ao lado direito o glaciar do Khumbu e montanhas como Lola, a esquerda mais montanhas que não sei o nome. Tudo branco, imaculado, tudo de uma outra dimensão. Preciso admitir que a neve deixou a paisagem muito mais linda - foi um verdadeiro passeio em um planeta desconhecido. Estava difícil decidir entre andar e apreciar o visual. Esse foi um dos momentos em que tive certeza que aquela loucura junto com outras mini loucuras dessa viagem, eram a aglutinação de uma decisão muito acertada em nossas vidas. Sabe daqueles raros momentos de epifania em que você se sente em paz com um caminho traçado e ou uma decisão tomada? Dessa vez a natureza empurrou essa epifania pela minha goela abaixo. Qualquer perrengue valeria a pena para viver aquilo e nem no Everest nós tínhamos chegado ainda. 
Rafael e Marina, exploradores interdimensionais presos em uma realidade feita de sal ou algo assim. Esse era o tipo de viagem que estava passando pela minha cabeça, mas logo o frio, a fome e a sede fizeram questão de destruir esse momento. Nada como a vida real martelando as durezas da realidade em nossos sonhos. Continuamos andando, era o que dava pra fazer. 
Atravessamos os amontoados de rocha que se colocaram de forma muito inconveniente no meio de nossa amada planície de neve e logo estávamos em Gorak Shep (5.164 metros) um triste amontoado de casas e resistência humana em um lugar horrível para se existir. Ainda desgosto mais de Lobuche, mas Gorak Shep foi um péssimo local para dormir. Lá é frio. É mais que frio, é muito frio. É gelado, glacial, muito além do sub zero. Isso em uma época que não deveria ser tão fria, mas tivemos a “sorte” de pegar uma primavera atípica na região. Para melhorar ficamos em um lodge em que o quarto oferecia exatamente nenhuma proteção contra o frio. Para vocês terem ideia o telhado era vazado e praticamente nevava em nossas camas. A sala comum do lugar também não era tão quente quanto às outras que passamos, e todo mundo lá só tinha cara de triste e sofredor. Resumindo, não sei se deu para perceber mas não gostamos muito de dormir em Gorak Shep.
Porém estou me adiantando na história, pois quando chegamos lá ainda estávamos animados, era dia, e só faltavam algumas horas para chegarmos ao basecamp. 
Almoçamos no lodge, esperamos nossos amigos brasileiros chegarem a vila e saímos todos juntos em direção ao tão esperado destino.
O dia já tinha perdido seu brilho, e como acontecia na maioria das tardes naquela região, ficou cinza e nublado. O caminho até o acampamento base foi tranquilo e cheio de risadas. Para chegar lá de Gorak Shep foi necessário atravessar uma série de colinas irregulares cheias de mini precipícios, tudo isso com o glaciar ao nosso lado direito. Mais ou menos o que tínhamos enfrentado entre Lobuche e Gorak Shep. 
E quando as tendas amarelas das expedições que sobem o Everest já estavam bem próximas começou uma bela de uma nevasca. Pisamos no acampamento base sendo castigados por um odioso amontoado de neve que caía do céu. Tudo ficou mais frio, mais cinza e mais escorregadio. O momento que deveria ser de emoção e orgulho virou algo nas linhas de “vamos tirar logo uma foto ali com a plaquinha que prova que chegamos até aqui e ir embora desse inferno”. 
A neve deixou a volta muito mais emocionante e fomos nos equilibrando entre pequenos desfiladeiros e pedras soltas. Estava bem frio, estávamos molhados e cansados, mas mesmo assim foi nesse momento que a nossa ficha caiu, que percebemos o que tínhamos acabado de fazer. Chegamos no basecamp e ainda estávamos enfrentando uma nevasca, coisa que não é para qualquer um. Me senti como um antigo viking cruzando uma planície gelada com meus companheiros de exploração. Não tenho a menor ideia porque pensei nisso, afinal o que tem a ver um viking com os Himalaias? Mas eu sou a pessoa que às vezes pensa que montar em um avestruz é o mais próximo que podemos chegar de montar em um T-Rex, então perdoem a falta de coerência da minha mente. 
Foi sensacional, foi marcante e foi foda. Mas voltar para Gorak Shep foi horrível. Como eu já disse, nossas roupas estavam encharcadas e a vila é o inferno gelado na terra. Demoramos muito para nos aquecermos de novo e tivemos que ficar boa parte da noite em frente ao fogão/caldeira do lodge tentando secar as únicas roupas de frio que tínhamos. E aí na hora de dormir ainda tivemos que enfrentar um quarto com uma temperatura negativa. Eu tava quase colocando fogo no meu saco de dormir para me aquecer um pouco. Iria morrer? Sim. Provavelmente causaria uma tragédia? Sim. Mas com certeza eu iria dessa para melhor bem quentinho e feliz. 
Foi uma noite tenebrosa. Talvez mais pela minha ansiedade do que pelas dificuldades do clima. Sei que não consegui dormir nada enquanto a Má capotou. Talvez tenha sido o fato de que acordaria 5 da manhã para subir um pico próximo da vila chamado Kala Patthar. A Má estava tranquila, já tinha pulado fora dessa. A ideia é subir bem cedo pois assim é possível ver o sol nascendo atrás do Everest e ainda dá tempo de voltar e fazer o dia render, afinal já começaríamos nossa descida de volta para Lukla. Sei que minha insônia foi tanta que acordei nosso guia/porter umas da 4 da manhã e partimos mais cedo para a empreitada. 
Logo que saímos percebi que o céu estava muito claro, com as estrelas brilhando intensamente no firmamento. De longe dava para ver as lanternas dos trekkers que já tinham começado a subida ao cume. Logo também já comecei a me arrepender da minha decisão. Talvez tenha sido efeito das roupas ainda semi molhadas ou só o clima que estava mais inclemente ainda, mas comecei a sentir um frio avassalador nos pés. Começamos a subida e eu dei um belo de um gás deixando muita gente pra trás. Também quase cuspi meu pulmão no processo e quando descobri que minha arrancada não serviu de nada, pois ainda tínhamos umas 2 horas de subida, quis chorar. O caminho estava tomado pela neve, o que deixou a trilha mais cansativa e traiçoeira. Para melhorar tudo escorreguei, como faço sempre pois acho que tenho algum gene que me faz escorregar mais do que o normal, e enfiei a mão sem luva na neve, o que foi um ótimo remédio para curar o frio que sentia no pé, porque aí eu percebi que dava pra ser muito pior. Lembrando que ainda era de madrugada e o sol não tinha aparecido ainda e embora a vista do vale do Khumbu iluminado pelas estrelas tenha sido quase onírica, minha mão estava virando uma garra atrofiada de tanto frio. Eu só queria que o maldito sol surgisse logo por trás do Everest. 
A subida até o pico foi muito difícil, talvez o único momento na trilha toda em que eu me senti verdadeiramente cansado e sem ar. Não sei se fui em um ritmo muito apressado ou se sou mole mesmo, mas sei que quando cheguei lá só queria sentar e descansar. Só depois de alguns minutos que consegui tirar algumas fotos e apreciar a vista, uma visão realmente incrível de um vale gelado cercado pelas maiores montanhas do mundo. Uma demonstração de pura potência da natureza. Fantástico e surreal. Mas eu estava com muito frio e só queria sair dali, por isso logo comecei a descer. Encontrei dois amigos brasileiros chegando, até mais acabados do que eu, e ainda avistei um rapaz vomitando ao longo da trilha. Pelo menos não tinha sido difícil só pra mim. Na descia eu só queria me jogar na neve e ir rolando até lá embaixo, seria tão mais rápido e fácil. Mas não, o nosso frágil corpo humano impede esses momentos de diversão, por isso tive que ir escorregando pela trilha, igual um bocó. Mas finalmente cheguei na base e voltei pro lodge, com uma carinha tão sadia quanto a de alguém que acabou de sobreviver a uma explosão atômica. Mal conseguia falar com a Marina. Vou dizer, foi sensacional ter atingido o cume do Kala Patthar, poder dizer que já escalei algo nos Himalaias e cheguei a 5.600 metros de altitude, mas a melhor parte da experiência toda foi finalmente voltar. 
E o dia não acabou aí, só tomamos café e logo iniciamos nossa descida. Andamos cerca de mais 6 horas e passamos de 5.200 metros para 4.200. Passamos por precipícios escorregadios e lamacentos, descidas trapaceiras e trilhas inundadas. Tudo culpa do amontoado de neve que começava a derreter. Claro que eu, que já levo mais tropeções que o ser humano médio e ainda estava em condições físicas horríveis pela subida feita mais cedo, quase me esborrachei no chão varias vezes. Vou dizer - eu era uma casca de ser humano andado pelo gelo, até os trekkers mais idosos me ultrapassavam (e ainda deviam me xingar). Eu sei que esse tipo de trilha não é sobre competição com os outros, mas fica difícil se sentir bem quando até a velha surda da Praça é Nossa é mais rápida que você. E olha que sou acostumado a perder para a terceira idade, certa vez tentei acompanhar o ritmo do doutor Drauzio Varella, que encontrei correndo no Ibiraquera, e quase morri. Enfim, foi nesse ritmo modorrento que chegamos em Periche, uma cidade no outro lado do morro que cerca Dingboche. Lá conseguimos finalmente descansar com mais conforto e dormir. 
Vou resumir um pouco a volta, pois senão precisarei de umas três newsletters para contar tudo sobre a experiência. A única parte diferente do caminho de ida foi passar por Periche. Para chegar e sair de lá andamos pela porção baixa do que parecia ser um antigo leito de rio. Na ida tínhamos andado por cima do morro que acompanha esse leito e realmente a visão mudou. Uma mistura de alagado com deserto cinza tomou conta do cenário sempre vigiado ao fundo pelo Ama Dablam. Depois de cruzar uma ponte e andar por uma série de incríveis penhascos voltamos para o “caminho normal”. O retornar foi uma experiência nova, ângulos diferentes transformaram vistas em familiares e estranhas ao mesmo tempo. Voltar também foi cansativo, afinal para descer caminhamos em 3 dias o percurso que subimos em 8. Haja força no joelho para aguentar o tranco. 
No fim a vontade de terminar a experiência toma conta do espírito, não tem jeito. Sabe aquela sensação de “ok, já cumpri meu dever agora só quero relaxar”? Então, talvez isso também tenha nos deixados mais preguiçoso e dificultado um pouco o retorno. 
Foi também um alento sair do frio insuportável e chegar apenas no nível do frio meramente tolerável. Alegria maior ainda foi quando voltamos a ver árvores, florestas e bosques. 
E uma hora acabamos chegando em Lukla, de uma forma meio sonolenta e arrastada, mas chegamos. O único pico de emoção na volta foi causado pela notícia da morte de um companheiro de trilha, ele provavelmente escorregou em um dos trechos mais tranquilos do percurso, o que nos fez pensar em todos buracos, ravinas e desfiladeiros lamacentos e escorregadios que enfrentamos. A vida é estranha e quis o destino que dois seres humanos de pouca estatura e uma tendência para cair no chão conseguissem chegar são e salvos após essa aventura. Ainda bem. 
Mas os perigos da jornada ainda não estavam todos superamos. Nós chegamos em Lukla e pelo menos a andança tinha parado, mas no dia seguinte ainda precisaríamos enfrentar o maldito aeroporto daquele lugar. Eu já descrevi bem o nervoso que os aviões a e estrutura de Lukla e Ramechhap me causaram na ida, mas com certeza o pior é sair do que chegar em Lukla. A porcaria do aeroporto fica na base de um penhasco e aquele avião bi-motor sem vergonha tem que acelerar com tudo e se jogar da montanha em um ato de fé que eu não estava preparado para cometer. Passei um nervoso ali que nem os desconfortos intestinais na Cidade Proibida tinham me causado. Teve um rapaz no nosso voo que até chorou. Foi intenso e agora, contando essa história, eu acho que é uma experiência válida e bacana. Mas que na hora dá um baita medo, a isso dá. 
O importante foi que deu tudo certo, pousamos em Ramechhap e após mais uma van da morte de algumas boas horas (meu deus o Nepal poderia ser um pouquinho mais plano), chegamos em Katmandu. Estava terminada uma das experiências mais especiais dessa viagem. 
O resto dos nosso dias no Nepal foram de pura preguiça e recuperação física. Comemos muito, encontramos e fizemos amigos e até ao cinema fomos. Não ficamos apenas em Katmandu, fomos também para Pokhara, uma cidade muito gostosa que fica às margens de um grande lago. Lá descobri que é possível passar o dia inteiro no mesmo restaurante e não se sentir mal por isso. O ápice de nossa visita a cidade foi quando tomamos uma bebida local com alguns nepaleses conhecidos de nossos amigos. A bebida era bem ruim e ainda fomos sacaneamos de leve, mas existe algo de memorável em beber com locais em um beco escuro e misterioso. 
Após isso fomos para Lumbini, ainda no Nepal, e cruzamos a fronteira com a Índia por terra. Uma outra jornada quase tão cansativa quanto o trekking, mas isso é assunto para uma próxima newsletter.
Último tópico que gostaria de abordar foram as amizades que fizemos na montanha. Vire e mexe eu fiz referências a “amigos brasileiros” no texto, mas por pura preguiça não expliquei quem eles eram ali em cima e por isso vou falar agora, nesse parágrafo totalmente fora do fluxo do relato. 
Logo no primeiro dia de trilha encontramos o Danniel, o Baia e o Samir. Três brasileiros em uma expedição (organizada pelo Danniel) com o mesmo objetivo que nós, chegar ao campo base. Como o itinerário de quem sobe a trilha é muito parecido, acabamos nos encontrando praticamente todos os dias. Foi uma parceria instantânea e de muita risada. Eles nos ajudaram em alguns momentos críticos, como quando ficamos sem lugar para dormir em Lobuche e quando perdi meus óculos e me emprestaram um novo que me fez parecer o Morfeus dos Himalaias.
Outra amizade nova e de destaque no Nepal foi da Baby, que nos ensinou como não fazer nada e relaxar com maestria. Quem diria que teria tanto brasileiro gente boa no Nepal.
Muito obrigado, pessoal!
E agora terminou esse relato porque não aguento mais escrever sobre montanha com neve.
Beijos quentes 

Algumas fotos sobre o relato
Má no acampamento base
Má no acampamento base
Palmeiras e o óculos do Morfeus no acampamento base
Palmeiras e o óculos do Morfeus no acampamento base
Sol bem acima do Everest (pico do meio)
Sol bem acima do Everest (pico do meio)
Subindo o Kala Patthar. Ainda estava amanhecendo
Subindo o Kala Patthar. Ainda estava amanhecendo
Marina e Lola
Marina e Lola
Fila de gente cruzado de Lobuche para Gorak Shep
Fila de gente cruzado de Lobuche para Gorak Shep
Ama Dablam
Ama Dablam
O vale que leva até o Island Peak
O vale que leva até o Island Peak
O “leito”
O “leito”
Ponte
Ponte
Nossa visão saindo de Namche Bazar 1
Nossa visão saindo de Namche Bazar 1
Nossa visão saindo de Namche Bazar 2
Nossa visão saindo de Namche Bazar 2
Companheiros
Companheiros
A pista do horror
A pista do horror
Indicações
A indicação de hoje é sobre Instagram. Na verdade só queria dizer que vale a pena seguir todo mundo que conhecemos na trilha (e que mencionei no texto). O Danniel, por exemplo, organiza expedições incríveis e a Baby já viaja há um trilhão de anos pelo mundo.
Segue aí: @dannieloliveira, @babicady, @samirmohana, @felipe_baia
Direto do Passado
Tem texto lá no blog sobre parte da nossa passagem pelo Japão e sobre como quase vomitei em alguns restaurantes (adorei a comida mesmo assim). Imperdível.
Japão 2 ou o capítulo das muitas cidades visitadas – Volta ao Mundo em 80 Socos
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