Volta ao Mundo em 80 Socos - Nepal ou o capítulo das andanças pelos Himalaias 1

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Volta ao Mundo em 80 Socos

May 13 · Issue #9 · View online

Um casal meio perdido saiu por aí e agora está jogado pelo mundo. Relatos do mais desajustado da dupla.


Olá fiéis seguidores dessa estranha jornada pelo mundo e pela minha mente. Chegou o dia de vocês apreciarem mais um conto sobre a “viagem”. Quer saber por que eu usei aspas na palavra viagem? Porque na verdade estou há 9 meses sem sair de um quarto escuro na casa da minha mãe, alternando entre jogar videogame e chorar em posição fetal. Inventei essa história toda de “volta ao mundo” apenas para vocês gostarem de mim. Brincadeira. Ou não. Agora vocês nunca saberão a verdade. 
Essa introdução meio estranha não deixa de ter sua parcela de verdade, eu realmente passei os últimos dias em um quarto escuro, pois fui acometido por um desarranjo intestinal aqui na Índia, coisa normal. Por isso também demorei um pouco mais para escrever essa atualização. Espero que vocês entendam.
E agora vamos falar sobre o Nepal e o nosso trekking.
Saímos de Perth com um certo peso nas almas, uma mistura de receio com preguiça, afinal estávamos deixando nosso cantinho organizado e familiar para nos jogarmos no caos de sons e cores que é a Ásia. Adoramos nossos 7 meses asiáticos, mas eles nos cansaram bastante. Como seria nossa volta?
Após um atraso considerável no voo, umas voltas nervosas no avião por cima do aeroporto de Katmandu, um pouso inesperado em Calcutá, finalmente conseguimos chegar. Voltamos para a bagunça novamente. 
E o Nepal já logo mostrou sua cara no aeroporto, nos deparamos com aquilo tudo que já tínhamos visto de uma maneira ou de outra por onde passamos: aglomerações invés de filas, taxistas te assediando, pessoas invadindo seu espaço pessoal para vender tours, multidões, buzinas e tuktuks. O trânsito também é uma confusão, uma mistura perigosa de falta de leis (ou fiscalização) com motoristas ousados demais. A cidade não é grande e logo que saímos do aeroporto nos deparamos com vielas iluminadas por neons, construções tradicionais, templos e restaurantes em “buracos” na parede. E assim percebemos - estávamos é com saudades desse caos todo. Uma volta da sensação de aventura, de movimento, de viajar no “hard”. Ir pra Austrália é incrível, inegável, mas o sentimento é outro ao chegar em cantos mais “misteriosos” do mundo. 
Katmandu é fascinante e peculiar, mas não dá para falar que é uma boa cidade. Tem muita história, alguns templos sensacionais, um bairro turístico muito interessante, mas é suja (não como a Índia), poeirenta e ainda muito destruída, consequência do terremoto de 2015. Triste ver como o dinheiro de ajudas internacionais e dos milhares de turistas que vão pra lá todo ano praticamente não é revertido em benéfico da população. 
Thamel, o canto onde ficam os turistas, é uma cidade a parte. Apesar de não refletir a realidade de Katmandu, é interessante. Conta com vários restaurantes bons, bares de origem suspeita, milhares de lojas de equipamento de caminhada e lojas de souvenir e tecidos, todos espremidos em vielas antigas e de arquitetura única. Parece um hub de exploradores do mundo todo. 
Ficamos apenas dois dias lá antes de começarmos nossa própria aventura. Foram dois dias bem corridos, pois fechamos tudo com a agência e compramos equipamentos e suprimento que faltavam. Inclusive se você estiver precisando de casacos, jaquetas, calças ou qualquer coisa da North Face recomendo dar um pulo em Katmandu. Lá tem tudo o que você imaginar, só que muito mais barato. Claro, você pode acabar adquirindo produtos da Face North ou North Fade sem saber, mas mesmo assim vale a pena. Comprei vários produtos genéricos e todos aguentaram o tranco durante nossa trilha. 
Aliás, a trilha. Melhor explicar um pouco sobre ela antes de entrar em detalhes sobre os próximos dias. Bom, nosso grande objetivo ao ir para o Nepal era fazer um trekking até o acampamento base do Everest. Esse é um percurso que sai de um ponto com 2.800 metros de altitude e chega até outro com 5.400, ou seja, vai até bem alto, onde tem pouco oxigênio no ar. Falando de distância percorrida, são cerca de 130 quilômetros andados para ir e voltar. É bem frio também. São doze dias (ou mais) passando por pontes sacolejantes, caminhos beirando precipícios, rios gelados e iaques com cara de bravo. Mas assim, claro, não foi nada demais, coisa boba que fizemos por diversão. Brincadeira, é uma aventura, com certeza. Mas isso não quer dizer que subimos o Everest. De novo, fomos “só” até o acampamento que todas expedições de alpinistas que realmente tentam alcançar o cume usam como base principal. Mas eu não vou ligar se vocês entenderem errado e dizerem por aí que estivemos no topo do mundo. Se não for muito trabalho podem falar também que eu encontrei um Yeti no caminho e obviamente ganhei dele em uma briga corporal. E ele ainda tinha uma faca. 
No dia 10 de abril, uma quarta feira, acordamos duas da manhã, pegamos uma van da morte (mais uma) que nos levou por encostas sinuosas e curvas malditas até Ramechhap, uma cidadezinha que fica a umas 5 horas da capital e tem um dos aeroportos mais tristes que já vi. Bom, nem é um aeroporto na verdade, é uma pista de pouso curta que tem uns casebres em volta onde o pessoal improvisou imigração, balcão de cia aérea e etc… Inclusive estou falando do aeroporto pois era esse nosso destino, lá pegaríamos um avião até Lukla, uma cidadezinha nas montanhas onde o trekking realmente começa. Chegar e sair de Lukla de avião é uma das experiências mais aterrorizantes que já tive, e olha que eu já fui chamado para subir ao palco em um daqueles teatros interativos. Os aviões que chegam até lá são modelos pouco mais avançados do que o saudoso 14-bis e a pista de pouso de Lukla é melhor que qualquer montanha-russa do Bush Gardens para gerar emoção - ela é curta e de um lado termina em um morro e do outro em um desfiladeiro. Caso esteja duvidando de mim basta dar um Google em “Lukla AirPort” e ver por você mesmo. 
Subimos em nossa carroça voadora, demos sorte pois não morremos, chegamos em Lukla, conhecemos nosso porter e já começamos a andar. E sim, nós contratamos um porter, o Gopal (no último dia ele me disse que esse não era o nome dele, mas pedia para a gente chamar ele assim). É estranho e desconfortável olhar uma outra pessoa carregar a maior parte das suas coisas, mas conversamos com muitos viajantes que já tinham feito a trilha antes e todas disseram que em época de alta temporada é bom ter um porter ou guia, pois eles te ajudam a reservar lugar nos lodges que ficam pelo caminho, ir sozinho é correr o risco de chegar em vilas mais elevadas e inóspitas e ficar sem teto para dormir. E isso realmente acontece. Outro ponto - essa é a única profissão deles, muitos como o Gopal só trabalham durante temporada, então não sei o quanto isso é ajudar diretamente a economia local ou não. Talvez eu só esteja me enganando. Mas é perfeitamente possível fazer a trilha sem um guia ou algo do tipo, tudo é bem sinalizado, milhares de pessoas andam pela mesma região e daria sim para completar a caminhada com mais peso nas costas. No fim eu e Má fomos bem econômicos, juntamos todas nossas coisas em um mochila que ficou com 13 quilos (essa o porter levou), eu levei uma mochila com mais algumas coisas aleatórias e uns casacos (ficou com uns 7 quilos) e a Má levou um mini mochila com menos de 1 quilo. Estávamos bem leves. 
Outra coisa que esqueci de dizer e é bom explicar - em nenhum momento é necessário acampar durante o percurso, só se você quiser (para economizar) ou se ficar sem lugar pra dormir. Existem diversas vilas pelo caminho e sempre tínhamos onde parar para comer e para dormir. Ficávamos nos famosos lodges, hospedagens pequenas e simples espalhadas por todo canto nesse ponto do planeta. Certo, agora que tirei isso da frente posso prosseguir.
Começamos em Lukla, quase sem dormir, após rir na cara do perigo ao embarcar em um ”avião” e com fome. Ainda bem que o primeiro dia foi curto e pouco cansativo. Mesmo assim já deu um gostinho do que viria pela frente. Lukla fica 2.800 metros acima do nível do mar, já é um pouco frio, mas ainda não se sente muito a altitude. Até Phakding, a vila onde dormimos, andamos por um verdejante vale dos Himalaias, sempre acompanhando um rio cor de jade. Ao fundo montanhas cobertas de gelo vira e mexe davam a cara, mas nenhuma dessas era ainda o Everest. O primeiro e o segundo dia de caminhada, em que a vegetação é mais densa, as vilas maiores e mais fartas e os arrozais visíveis me lembraram um pouco do nosso trekking pelo Vietnã, só que com muito mais stupas budistas pelo caminho. Um visual calmo, tranquilo e quase isolado, não fossem os cerca de 30 mil turistas que passam lá por ano. Uma coisa diferente entre o primeiro e o segundo dia foi o nível de esforço físico necessário para alcançar nossos destinos. Saímos de Phakding, a 2.600 metros e precisaríamos chegar em Namche Bazar, a 3.200. Foi um dia longo, de lindas paisagens e em que cruzamos a ponte mais famosa desse trekking todo, que inclusive aparece no filme Everest de 2015. O problema é que após ela tivemos que enfrentar uma subida contínua de quase 2 horas. A primeira “mega subida” da trilha toda. Isso em um caminho estreito, perigoso e que precisávamos dividir com outros turistas e burros de carga. Foi cansativo, com certeza, mas normalmente o pessoal acha esse um dos pontos mais complicados do percurso e eu tive mais dificuldade em outros, vai entender. A Má cansou bastante, ela ainda não tinha encontrado o ritmo ideal de caminhada dela, uma coisa muito importante em uma empreitada dessas. No meio da subida passamos até por um lugar em que supostamente é possível ver o Everest de longe, mas o tempo tá sempre encoberto perto dele, baita montanha tímida viu, nunca quer aparecer pros outros. 
O importante é que suados, cansados e talvez até um pouco assados finalmente chegamos em Namche Bazar, pra mim a vila mais impressionante do caminho todo. Foi um momento bem “uau”, pois só dá para ver Namche em sua totalidade ao passar por uma curva super fechada em um penhasco, e aí do nada lá está ela: uma cidade toda na montanha. Mas é engraçado que ela não está no topo da montanha, ela parece acompanhar a encosta em forma de ferradura, como se estivesse na beira do precipício. Para mim Namche lembrou uma cidade em uma pequena baía marítima, só que essa baía está uns bons metros acima do mar. E na frente da vila o que tem? Montanhas, claro! Duas, bem grandes, brancas e imponentes, ali paradas, apenas exibindo seu topo tomado pela neve. Eu achei o lugar incrível e com uma vista incrível, realmente me marcou. Hoje é mais desenvolvida que outras vilas, afinal é o último grande ponto antes de o caminho se enveredar por terrenos mais complicados, talvez por isso seja menos “autêntica”, mas ainda assim notável. Lembro de pensar duas coisas quando cheguei lá: realmente se Shangri-la existe fica em um lugar naqueles vales perdidos dos Himalaias e talvez ela seja uma cidade parecida com Namche Bazar. 
Foram dois dias na vila, pois lá fizemos nossa primeira aclimatação. Mas isso eu vou detalhar mais no próximo e-mail. 
E vou parar aqui o relato, senão esse será a maior newsletter já escrita, ainda tem muito o que falar sobre nossa caminhada. Bom, terei que dividir o texto em duas partes, mas é melhor do que gastar a paciência de vocês. 
No próximo capítulo falarei sobre a parte mais alienígena da trilha, como quase perdi a mão, a dificuldade dos banhos e mais o que der na telha. 
Beijos Quentes 

Algumas fotos sobre o relato
Um pedacinho de Namche Bazar
Um pedacinho de Namche Bazar
Ponte
Ponte
A ponte mais famosa é essa em cima
A ponte mais famosa é essa em cima
Maris e a montanha
Maris e a montanha
Vilazinha perdida em um vale dos Himalaias
Vilazinha perdida em um vale dos Himalaias
Stupas
Stupas
Chegando em Lukla
Chegando em Lukla
Indicações
No Ar Rarefeito é um famoso livro sobre o desastre que aconteceu no Everest em 1996. Praticamente todo mundo que faz a trilha já leu o livro e você encontra ele pra vender em tudo quanto é canto no Nepal. É realmente muito bom, eu li antes de chegar no país e recomendo demais. Caso você seja daquela turma que odeia a palavra escrita (parece ser moda no Brasil agora), assista ao filme Everest, que é sobre o mesmo tema e usa o livro como uma de suas bases. Não é tão legal quanto, mas pelo menos dá para ver algumas das paisagens que descrevi acima.
No ar rarefeito - 9788535908473 - Livros na Amazon Brasil
Everest (2015) - IMDb
Outra indicação que vem do fundo do meu coração é uma história do Tio Patinhas, uma das minhas favoritas quando criança. Nessa ele fica totalmente estressado com o trabalho e busca por calma na mítica vila de Tralla Lá (baseada no mito de Shangri-La), um lugar perdido nos Himalaias onde a felicidade é regra e não existem riquezas. Oras, mas ele consegue estragar tudo ao instaurar (sem querer) um novo sistema monetário no local. É legal demais, quem quiser se aventurar (e achar a história), vale a leitura.
Tralla La - Wikipedia
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