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Volta ao Mundo em 80 Socos - Índia ou o beijo de língua no Ganges

Revue
 
 

Volta ao Mundo em 80 Socos

June 22 · Issue #13 · View online

Um casal meio perdido saiu por aí e agora está jogado pelo mundo. Relatos do mais desajustado da dupla.


Esse relato cobre eventos de 13/05/2019 a 18/05/2019
Como vão os amigos e amigas desse lamaçal odioso chamado existência? Já descobriram se somos mais que um amontoado de carne movido a eletricidade ou não? Eu ainda não. 
E é com essa abertura cheia de alegria e otimismo que eu os saúdo em um feriado e os presenteio com mais um episódio da newsletter, dessa vez um relato de nossas aventuras na ponta limpa do Ganges, em Rishikesh.
Chegar em Rishikesh, como chegar em qualquer lugar a 30 quilômetros de distância na Índia, foi penoso. Não. Será? Talvez eu tenha sido duro demais. Em termos práticos foi bem tranquilo na verdade. Pegamos um ônibus noturno/leito gostoso (mas sacolejante), trocamos de ônibus de manhã, andamos mais um pouco por estradas acidentadas, nos largaram em um cruzamento perdido em uma rodovia poeirenta e lá fomos recebidos por uma massa de motoristas de tuktuk. Quando um turista pisa fora do ônibus eles parecem uma horda zumbi indo em direção à presa. É a vida e o negócio deles né, quem não correr perde a vez. Depois do tsunami de ofertas e a habitual negociação embarcamos em mais um desses veículos improvisados e após alguns minutos montanha acima finalmente chegamos à cidade. Uma curta andada e estávamos no nosso hostel. Eu deixei toda jornada mais dramática do que ela foi, mas qualquer pessoa que já viajou um pouco pode ver que o processo foi até que simples (comparado a outros perrengues já enfrentados), mas mesmo assim essas locomoções já tinham dado no nosso saco. 
É sempre um tal de: pega a mochila, deixa a mochila, procura o ônibus certo, opa não é esse, pega a mochila de novo, chacoalha mais que massa de bolo na batedeira, pega a mochila outra vez, surta, joga a mochila no chão e tira tudo de dentro, sai correndo só de cueca gritando…. Enfim, deu para ver que estávamos em uma fase de pouca tolerância para perrengue. Acho que é normal, até o mochileiro mais raiz da história tem sede por conforto e descanso de vez em quando e se ele disser que “não”, com certeza estará mentindo. É bom demais gastar o tempo com a pança pra cima também. 
E foi após essa jornada “simples, mas não tão simples assim” que chegamos em uma cidade que se move em outro ritmo do que tínhamos visto até o momento na Índia. Rishikesh fica perto das montanhas, na base do começo dos Himalaias indiano, é um lugar de tradição espiritual e comunhão com a natureza. Ainda é uma cidade indiana e carrega parte das particularidades do país, mas lá tudo parece ter um nível menor de intensidade. Pôde-se inclusive dizer que Rishikesh é uma cidade tranquila, na medida do possível. 
O rio corta parte de Rishikesh bem ao meio e para atravessar de um lado para o outro só usando as famosas pontes Ram Jhula e Lakshman Jhula, e essa travessia é uma experiência a parte (mais disso a seguir). Como a cidade fica em um vale verdejante as margens do Ganges são encurraladas por encostas inclinadas de ambos os lados, por isso os inúmeros cafés, templos, hotéis, Ashrams e milhares de outras construções que compõem o cenário urbano vão ficando cada vez mais altos em relação ao rio, formando uma escadinha de cimento colorido no meio da vegetação. É sim uma cidade bonita.
Como é um lugar nas montanhas e de clima mais ameno, pegamos Rishikesh em alta temporada, afinal grande parte do restante do território indiano estava ardendo sob um calor infernal. Foi onde mais vimos turistas, tanto estrangeiros quanto indianos. Acho sempre sensacional ver um país sendo visitado pela própria população, parece bobagem, mas após ver como isso é raro no sudeste asiático dá até uma sensação de alívio perceber que os únicos aproveitando/conhecendo o país não são apenas uns branquelos esquisitos.
E por falar em turistas foram eles, especialmente um tipo específico de turista, que me irritaram em Rishikesh. A cidade, com seus inúmeros retiros de yoga e meditação, é um imã poderoso para um tipo de viajante que já vi em vários outros locais, o pseudo-local-transcedental. Aquela pessoa que está há pouco tempo no país e já compra todas supostas roupas tradicionais possíveis (daquelas que vendem nas inúmeras lojinhas espalhadas pelo lugar e que nunca vi uma pessoa local usando), que começa a andar descalça pelas ruas para indicar intimidade com a energia da região, que exibe pinturas e marcas nativas pelo corpo, que desfila por aí como próprio Buda reencarnado e parece rejeitar qualquer traço de sua verdadeira terra natal. Sim, é aquele tipo “iluminadão” que parece saído de um festival hippie. Por que eles me irritam? Oras, nem eu sei direito. A resposta que eu mais gosto é: porque tudo me parece falso, uma maquiagem exagerada para tampar alguma cicatriz feita pela insegurança. Para mim parece um uniforme usado por um tipo de pessoa que quer se encaixar até demais na cultura que está visitando. A resposta mais complexa e que eu menos gosto é: eu sou amargurado e invejoso. Isso mesmo. Talvez eu tenha algum tipo de inveja de pessoas que consigam se deixar levar e submergir até esse ponto em uma nova cultura. E o pior é que não estão fazendo mal para ninguém. Não é novidade nenhuma que eu gosto de reclamar dos outros e qualquer coisa pinica minha alma azeda, eu até tenho orgulho de ser tão simpático quanto um velho com dor nos quadris. Provavelmente é isso, minha tendência a ser reclamão sempre precisa achar um alvo para colocar em prática o que eu faço de melhor. Mas o fato de eu saber que o problema é 99% meu e não dessas pessoas não faz eu gostar mais delas. Não me entendam errado, eu gosto de yoga, de meditação e até de hippies. Eu também sei que todo mundo compra uma calça de elefante quando vai pra essas bandas, uma bata, uma regata diferente ou uma saia toda estilosa, mas usar o conjunto todo, a união de todos esses elementos de uma vez que forma o megazord da petulância, o “iluminadão”, é passar dos limites (para a visão onipresente desse juiz chamado Rafael). E sim, eu sei que estou generalizando e implicando com o estilo alheio, mas você realmente quer argumentar com um cara que escreveu um parágrafo gigante para falar do desgosto dele por pessoas que foram “full hippie”?
Feito o devido desabafo, vamos a parte mais descritiva do relato. 
Passamos uns dias gostosos e calmos, bem ao ritmo de Rishikesh. Andamos muito a beira do rio (não tem como escapar disso) e nos aventuramos na travessia das pontes que conectam as margens. Atravessar Rham Jhula é especial inclusive para os indianos, pois o local onde ela foi construída faz parte de um mito hindu importante, Mas enfim, para mim, um ocidental perdido, o motivo de ser algo único foi outro. Imagine a rua 25 de março perto do natal, ou a onda de pessoas que vai atrás do trio no carnaval de Salvador, ou qualquer outra multidão que brotar na sua cabeça. Agora coloque essa multidão em um espaço estreito e comprido, talvez com uns dois metros e meio de largura. Coloque ainda, no meio disso tudo, algumas vacas e umas pessoas com motos. E lembre que essa farofa humana acontece naquele espaço apertado que já descrevi e que ainda fica suspenso a uns bons metros de um rio gelado, ou seja, a única direção é pra frente, sem saídas de emergência. Você se sente apertado como uma sardinha, mas ao menos tem uma bela vista. O melhor é quando você acha que não dá para ficar mais cheio e aparece um bovino preguiçoso deitado no meio do caminho, aí todos tem que se afunilar em um espaço menor ainda. Eis que você quer tirar foto da vaca na ponte, mas demora demais e BIBIBI, já tem uma moto buzinando na sua orelha. Sim, você não esperava por isso, mas eles permitem que motos passem por ali, o que parece meio maluco. Aliás a coisa toda é bem maluca. Só a Índia para transformar a experiência de atravessar uma ponte em algo único e intenso.
Foi mais ou menos assim que me senti na primeira vez em Rham Jhula. Depois nós nos acostumamos com as travessias e verdade seja dita, não é sempre que as pontes estão super cheias. Mas essa primeira vez foi especial. 
Além de andar muito pra lá e pra cá, curtir o visual da cidade e o raro clima de calmaria, também nos aventuramos em algumas cerimônias religiosas. Ao fim da tarde existem celebrações exaltando o rio semelhantes as de Varanasi, a beira do Ganges, mas as de Rishikesh são menores e mais intimistas.
Fomos em uma que ficava bem na curva do rio, em uma escadaria limpa e organizada. A cerimônia aconteceu durante o pôr do sol e como estávamos na margem leste a bela estrela de fogo desceu até a terra bem a nossa frente, dando tons alaranjados para uma estátua gigante de Vishnu que vigiava o ritual. Em dado momento fomos até essa estátua que ficava contra a escadaria e ver toda celebração por outro ângulo foi incrível, estavam todos juntos, apinhados na escadaria, uma hemorragia de cores escorrendo até o rio ao som de palavras sagradas. Foi uma bela visão.
Achamos esse um evento mais “confortável” e agradável de acompanhar do que todos os outros que vimos em Varanasi. Acho que acolhedor é o melhor termo para descrever essa diferença.
A Má, já em outro dia, participou de mais uma dessas celebrações, no templo de Shiva, um dos maiores e mais importantes da cidade. Ela foi ativa no ritual todo e aprendeu alguns conceitos hindus, mas eu não posso transmitir aqui como foi essa experiência, pois como ela foi com mais outras 4 brasileiras que conhecemos por lá e eu me retirei para o hostel e joguei um pouco de video game. Eu sei, eu sei. Sou um fracasso. 
E o tão alardeado Ganges? Oras, ele não é limpo nessa região? Sim, claro, você está certo fiel leitor. E nós interagimos com ele, fique tranquilo. 
A primeira parte dessa interação foi um simples banho em uma das inúmeras praias que tem pelas suas margens. Existem lugares lindos e quase desertos para nadar no Ganges, mas nós escolhemos um bem populoso e sem nenhum capricho estético. Como o cenário não ajudou nossa primeira entrada no rio foi pífia, um simples banho de canela. Porém já tinha sido mais do que fizemos em Varanasi (ou que eu tive coragem de fazer em Varanasi). Mas, claro, teve a segunda parte da nossa interação com o Ganges e essa foi mais intensa, afinal fizemos um rafting nele.
Rafting sempre foi um daqueles (muitos) negócios que eu sempre quis fazer e nunca tinha movido uma palha para concretizar. Quando surgiu a chance de realizar a atividade em um rio tão sagrado e famoso nos animamos muito. Fala aí, legal demais puxar um papo falando “já fez rafting? Então, certa feita eu estava na Índia e acabei fazendo no Ganges e menina você não vai acreditar…” Bom, é um jeito bem pedante também de começar um assunto, mas tem sua mágica. E lá fomos nós para o tal rafting. 
Foi rápido, mas foi gostoso. Pegamos algumas corredeiras mais fortes, pulamos na água gelada do rio e apreciamos um visual incrível entre montanhas indianas. Em nenhum momento o rolê ficou radical ou desafiador demais, acho que nós já estávamos acostumados com sacolejadas. Mas foi bom sim, recomendo muito para quem um dia estiver por lá e quiser fazer mais que yoga. Agora posso dizer que minha relação com o Ganges ficou bem mais íntima. Eu já nadei nele, eu já rezei nele e eu já engoli água dele (que seria equivalente a um beijo talvez?). Então tá aí, eu já beijei o Ganges de língua. 
E fora tudo que já foi descrito a única atividade que fizemos por lá ainda não mencionada aqui foi yoga em um Ashram, aqueles retiros famosos, sabe? Bom eu não fiz nada disso, mas a Marina e nossas amigas brasileiras acharam um que aceitava pessoas de fora para uma classe e se aventuraram por lá. Eu fiquei pelo hostel me sentindo deslocado perto da galera jovem e cool que frequentava a sala comum. Não é fácil ser uma alma velha presa em um corpo semi jovem e capenga. 
E assim foi Rishikesh, um lugar de muitas andanças, mas também de muita calmaria e refeições lentas. Um lugar que nos ajudou a relaxar em um país tão intenso como a Índia. O lugar onde fizemos novas amizades e renovamos votos com as antigas, como o Ganges. O lugar que me fez pensar nas diferenças entre cidades que permeiam o mesmo rio e o mesmo país, cada uma com sua magia. E o lugar que foi um belo jeito de fechar nossa estadia na Índia.
Sim, isso mesmo. Apesar de termos ficado apenas em 3 cidades (em 17 dias), encurtamos nosso tempo indiano. Decidimos comprar uma das poucas passagens baratas para Maldivas e curtir um pouco de praia e sol. Nada pessoal com a Índia, um lugar incrível, mas já chegamos feridos em seu solo e lá, com sua intensidade, mais algumas cicatrizes se abriram, precisávamos de tempo para descansar e sarar. Bom, fica a vontade e necessidade de voltar.
E foi assim que direto de Rishikesh partimos para o aeroporto de Delhi e depois para as Maldivas. Mas isso é assunto da próxima newsletter.
Beijos Quentes

Algumas fotos sobre o relato
Rishikesh e o Ganges
Rishikesh e o Ganges
Rishikesh e o Ganges 2
Rishikesh e o Ganges 2
Na travessia 1
Na travessia 1
Na travessia 2 (falei que tinha vaca)
Na travessia 2 (falei que tinha vaca)
A cerimônia no rio 1
A cerimônia no rio 1
Vishnu bonitão
Vishnu bonitão
A cerimônia no rio 2 - a vingança de Marina
A cerimônia no rio 2 - a vingança de Marina
Rafting
Rafting
Molhando o joelinho (tava frio)
Molhando o joelinho (tava frio)
Gostou? Liga lá
Gostou? Liga lá
Direto do passado
E mais um relato de dias longi
E mais um relato de dias longínquos da nossa viagem saiu. Esse tem basicamente o álcool como tema. Quer dizer, o álcool e a Tailândia. Leia lá.
Tailândia ou o capítulo etílico – Volta ao Mundo em 80 Socos
Indicações
MYTHOS - esse livro é escrito por Stephen Fry, um famoso e engraçado ator inglês que você não vai saber quem é por nome, mas ao ver uma foto com certeza vai pensar “já vi esse mané por aí”. Nele o ator escreve a sua maneira, leve e fluída, sobre os principais mitos gregos. É cômico e leve, um bom jeito para ter um primeiro contato com mitologia. Ou para relembrar algumas coisas. Enfim, é bom ler algo sobre os mitos gregos que não se leva tão a sério, afinal eu dou é risada quando lembro que Afrodite nasceu do pinto decepado de um ser supremo.
Mythos: The Greek Myths Retold by Stephen Fry
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