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Volta ao Mundo em 80 Socos - Índia ou a parada (forçada) em Agra

Revue
 
 

Volta ao Mundo em 80 Socos

June 10 · Issue #12 · View online

Um casal meio perdido saiu por aí e agora está jogado pelo mundo. Relatos do mais desajustado da dupla.


Esse relato cobre os eventos de 07/05/2019 a 12/05/2019
Amigos e amigas, eis aqui mais um episódio da sua perda de tempo (quase) semanal. Eu tento manter uma constância de envio de cada relato, mas a vida acaba sempre entrando no caminho. Dessa vez fiquei muito ocupado assistindo vídeos de mais de dez minutos com os melhores lances do Ronaldinho Gaúcho. Acho que passei uns dois dias inteiros nessa, intercalando isso e vídeos de alguns homens de meia idade e com cara triste comentando sobre o Palmeiras. É incrível o poder do ser humano de se ocupar com coisas inúteis quando se tem algo para fazer (vide você que está lendo isso agora invés de trabalhar). Enfim eu estava com preguiça e mais uma vez fui tomado pelos deuses da procrastinação, desculpe.
Os leitores agraciados com uma memória mais potente vão se lembrar que o último relato parou quando estávamos prestes a sair de trem da deliciosamente maluca Varanasi, mas o destino não queria que deixássemos um solo tão sagrado de maneira fácil. Chegamos na estação cerca de 8:30 da manhã, correndo igual loucos pois achávamos que perderíamos o nosso transporte. Para nossa alegria não perdemos nada, pois não havia nenhum transporte. Vimos o horário errado e o único trem que sairia para o nosso próximo destino, Agra, só deixaria a estação às 18:30. Como estávamos meio longe da parte mais interessante da cidade e estava um calor de belzebu, resolvemos ficar pela estação mesmo, afinal gastar tempo em hubs de transporte é nossa maior habilidade. Uma coisa curiosa e ainda não bem resolvida (para mim) aconteceu nesse dia. Descobrimos uma área designada apenas para turistas, um lugar amplo e confortável, com vários sofás e ar-condicionado. Bom, não? Sim, mas ao mesmo tempo uma multidão de indianos tinha que esperar pelos seus trens do lado de fora, com o conforto sufocante do chão duro e do clima escaldante. E o pior, o espaço de turistas estava vazio, ficamos apenas eu e a Marina a maior parte do tempo lá. Não, o pior não foi isso, o pior foi que estou aqui criticando essa divisão, mas me aproveitei dela, a hipocrisia nunca foi tão sedutora quanto um sofá aconchegante e um clima refrigerado. Não sei o que eu poderia ter feito para mudar aquilo, mas a verdade é que me acomodei ali no canto e nem pensei muito sobre. Com certeza o espaço era amplo o suficiente para abrigar vários locais. Um canadense que passou brevemente pela sala comentou comigo sobre a estranheza da situação, mas se resignou ao dizer “life is not fair” como um mantra da desigualdade. Talvez ele seja mais verdadeiro consigo mesmo do que eu, que não concordo com a frase dele, quer dizer, a vida não é justa mesmo, mas não acho deveríamos nos acostumar com isso, então concordo com a frase mas não como foi usada. Eu, mesmo incomodado, aproveitei até mais dos peculiares benefícios dessa maldita sala que ele e o máximo que eu fiz por essa situação foi desabafar aqui com vocês. A viagem está aí também para abrir as cicatrizes de nossas contradições e nos assolar com momentos que parecem pequenos, mas que vira e mexe assombram a consciência.
E depois dessa descida nos recantos mais escuros da minha mente, volto ao relato. Esperamos o dia inteiro na salinha dos turistas e no momento correto fomos para o esperado trem. Como compramos de última hora só tinha lugar no vagão leito sem ar-condicionado, que é no geral piorzinho que sua versão mais cara. Foi uma viagem tranquila, mas longa, mais de 12 horas (o trem atrasou) para percorrer cerca de 600 quilômetros e o nosso vagão não era o lugar mais limpo do planeta. Chegamos sem sono, mas não descansados em Agra. 
Uma breve visão do Taj Mahal, ainda do trem, já nos mostrou a grandeza do mausoléu, o negócio é bonito mesmo, mas mal sabíamos que nossa visita que parecia tão próxima se adiaria por uns bons dias. Era manhã quando o trem nos largou na estação de Agra Fort e só iríamos no Taj na madrugada do próximo dia, tática para evitar o calor e as multidões. Aliás o calor foi o primeiro a nos cumprimentar na cidade, ali era mais abafado e mais insuportável que em Varanasi. No tuktuk a caminho do hotel fuleira de número 3442 da viagem já deu para notar como a influência muçulmana criou uma cidade com uma arquitetura bem diferente do que vimos em Varanasi, uma diversificação muito interessante. Deu para reforçar também a (acertada) impressão de que o clima de Agra estava semelhante ao de Mercúrio, o cabisbaixo planeta que fica perto demais do sol. Rapaz, que quente. 
Agra foi uma cidade de uma grata surpresa, pois lá conhecemos o Caio (@caindopelomundo), outro viajante gente boa demais com quem fizemos amizade e que vale a pena seguir, a viagem dele está muito boa. Mas foi só isso mesmo, porque de resto foi só desgraça por lá.
No mesmo dia em que chegamos saímos para desbravar alguns pontos turísticos locais e almoçamos em um lugar chamado Sheroes, um café com um propósito bacana demais. Ele é organizado e operado por mulheres que sofreram ataques com ácido, algo ainda muito comum na Índia. As mulheres contam suas histórias e os ataques tem os mais diversos (e idiotas) motivos, claro que todos pautados em um machismo muito inerte a sociedade indiana. Sabe uma das maiores lutas dessas mulheres? Que esse ácido não seja vendido de forma tão livre como é. Isso mesmo, no país uma substância que é notoriamente usada com propósitos violentos ainda pode ser comprada por qualquer maluco com ódio no olhar. Enfim, o lugar é muito interessante de ser conhecido e você ainda paga o que quiser, ou seja, você come e faz uma doação para a causa. Nós estávamos meio quebrados e não pagamos nada. BRINCADEIRA, claro que deixamos lá uma quantia que achamos justa e que era condizente com nossa realidade. 
O resto do dia em Agra foi pautado pelo calor (sim, vou falar dele de novo), por nossa tentativa de ver o Taj Mahal de um ângulo diferente ao pôr do sol e pelos milhares de golpes que tentaram nos aplicar. Acho que por ser uma cidade muito turística, Agra é um antro de golpes e pedintes. Entendo que a realidade da população média indiana é bem diferente da nossa e ao verem um turista eles vêm uma forma de sobreviver, mas enche o saco ser enganado toda hora. Agra acabou com nossa paciência para isso. Chegou ao cúmulo de pessoas pedirem para tirar foto com a gente e depois cobrarem. Claro que não caímos na maioria dos golpes, mas toda saída na rua era uma batalha contra contatos não solicitados e maliciosos. Só para reforçar, isso foi muito específico em Agra para nós. Varanasi e Rishikesh foram locais mil vezes mais tranquilos em relação ao tema. 
O dia foi desgastante, mas pelo menos a noite terminou com risadas e um vinho indiano que o Caio compartilhou conosco. Depois era só dormir embalado pelo álcool, conhecer o Taj na madrugada e ir para o próximo destino. Ou era isso o que a gente planejava. A vida tem uma maneira engraçada de dizer “você não está no controle”. Dessa vez a maneira escolhida foi uma violenta intoxicação alimentar que me acometeu. 
Acordei no meio da noite suando, com muito frio (lembra de quantas vezes falei como estava quente?) e com aquela vontade visceral de sentar no trono. Sim, foi feio, até 40 graus de febre eu tive. Sabe quando você passa mal e sabe exatamente o que causou? Então, eu sei o que foi nesse caso. Foi o que comi no Sheroes, um prato local e gostoso, mas que não conversou legal com meu sistema. Até o momento eu estava comendo apenas comida local sem nenhum problema, mas acho que a sobrecarga de temperos acontece uma hora ou outra. Talvez tenha sido alguma vingança ”carmática” das mulheres do café pelas vezes que já fui escroto na vida. Eu sei que já fui, mas prometo que estou melhor agora (um pouco). Enfim, não deixe de conhecer o Sheroes só por causa do meu intestino frágil, eu passo mal em tudo quanto é lugar. 
O negócio é que eu fiquei em uma condição bem precária, estilo zumbi humano. Não foi negócio de um ou dois dias, por isso tivemos que ficar mais umas 5 noites em Agra e mudar de hospedagem, nosso primeiro hotel era mais indicado para quem quisesse pegar tétano do que se curar de uma intoxicação alimentar. Inclusive fomos para um lugar muito melhor quase pelo mesmo preço. Foi bom ser “bem tratado” por alguns dias. 
Aliás esses foram dias de repouso e de nada muito emocionante. Eu não comia ou comia batatas cozidas, li muito e colocamos algumas séries em dia. Inclusive começamos a assistir This Is Us e já aviso que quem não gosta está morto por dentro. 
A boa notícia é que no fim eu me recuperei. Não morri e estou escrevendo essa newsletter da minha tumba, acompanhado pelo verme vencedor, tal qual Brás Cubas. Essa é pelo menos uma boa notícia para mim, espero que para você também. E, depois de recuperado, finalmente fomos ver o maldito Taj Mahal (a essa altura eu já estava com raiva da cidade e tudo que tem nela). Realmente é lindo, uma obra magnífica, um empreendimento humano sensacional feito (provavelmente) as custas de um monte de gente sofredora (como toda grande obra de uns bons anos atrás). Posso ficar aqui falando sobre a simetria, a grandiosidade ou as cores do lugar todo, mas vocês já devem ter lido esse texto umas mil vezes. Basta dizer que é bonito demais, mas não fiquei emocionado ou embasbacado pelo lugar como muitos ficam. Acho que ver coisas como as montanhas do Vale do Khumbu (Everest), as serras do Vietnã, o mar das Filipinas ou o deserto australiano te deixam mais calejados no quesito “emocionado com visões bonitas”. 
Finalmente tínhamos cumprido nosso objetivo em Agra e era hora de ir embora, mesmo que ainda segurando as tripas no corpo de forma capenga. 
Pegamos um ônibus leito “a lá Índia” (veja os stories do @sejogaai para entender) e claro que algumas boas horas, uns atrasos e umas sacolejadas depois estávamos em Rishikesh. 
Mas esse será o assunto da próximas newsletter. Eu queria acabar logo com as escritas da Índia e aproximar os relatos ainda mais de onde estamos no mundo nesse momento, mas perdi muito tempo falando da minha intoxicação. Melhor quebrar em relatos menores e mais digeríveis então. Logo a Índia termina e aí só falta falar de Maldivas para chegar na Turquia, nosso destino atual.
Beijos Quentes

Algumas fotos sobre o relato
Trenzão leito delícia
Trenzão leito delícia
@caindopelomundo, Má e eu com a água de côco
@caindopelomundo, Má e eu com a água de côco
O bichão
O bichão
Sol nascendo atrás do bichão
Sol nascendo atrás do bichão
Pega só o estilo de fotógrafo
Pega só o estilo de fotógrafo
Uma das mesquitas do complexo
Uma das mesquitas do complexo
Indicações
This Is Us - Eu gosto de pensar que sou uma pessoa complexa e cheia de camadas, que lê Dostoiévski e assiste filmes iranianos, mas no fundo sei que tenho uma alma simplória. Basta colocar o Vin Diesel em um carro, o Stallone em um ringue e o Jackie Chan numa briga de rua e eu já fico feliz. Drama e romance não fazem parte do gosto desse Rafael “simples”, por isso que me surpreendi com essa série. Parece novela, mas é muito melhor. O roteiro é o feijão com arroz mais bem feito e confortável que você irá comer nos últimos tempos e ainda consegue surpreender às vezes. É triste também. A primeira temporada é muito boa e se você não gostar eu indico fazer um quiz online para descobrir se você é um psicopata.
This Is Us (TV Series 2016– ) - IMDb
Deuses Americanos (livro) - uma das coisas que li enquanto estava no período em que tentava diariamente recriar o Taj Mahal com fezes. Deuses Americanos é um livro estranho. Nem digo isso pelo enredo, que não é “comum”, mas todo o livro tem um ritmo estranho. Você quer continuar lendo, mas é difícil explicar a razão. Mas eu pensei tanto sobre ele depois que terminei que cheguei a conclusão que isso é a característica de uma obra no mínimo interessante. Então se você acha que só ler essa newsletter não basta , tá aí uma dica.
American Gods by Neil Gaiman
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