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Volta ao Mundo em 80 Socos - Índia ou a loucura de Varanasi

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Volta ao Mundo em 80 Socos

May 30 · Issue #11 · View online

Um casal meio perdido saiu por aí e agora está jogado pelo mundo. Relatos do mais desajustado da dupla.


Esse texto cobre os eventos de 2/5/19 a 6/5/19
Recomendo muito acompanhar os stories do @sejogaai para entender melhor esse relato.
Olá desbravadores de palavras alheias, bem vindos a mais um capítulo do seu nonsense semanal favorito.
No último relato terminei de contar sobre nossas peripécias nas montanhas dos Himalaias e sobre nosso tempo de preguiça em Phokara.
Era hora de nos movermos de novo, quebrar a aura de torpor e gula que tinha tomado conta de nós, e, para a tristeza dos restaurantes da região, saímos de lá em direção à Lumbini. 
Foi mais uma daquelas viagens de poucos quilômetros e muitas horas. Mais um ônibus sacolejante e quente no Nepal, daqueles que sugam as energias de qualquer viajante. Depois de um tempo considerável, uma paisagem linda e uns bons litros de suor derramados pelo meu corpo chegamos ao nosso destino.
Lumbini fica bem ao sul do Nepal, já em terreno plano, seco, quente e fora da influência vertical dos Himalaias. Sim, existe uma parte do Nepal tomada por uma selva, lá não são só montanhas. Lumbini também fica perto de um dos pontos mais populares de passagem terrestre para a Índia. Isso não era coincidência, afinal depois de visitar a cidade atravessaríamos para o país onde as vacas são sagradas. 
Paramos em Lumbini porque lá é o local de nascimento de Siddhartha Gautama, o Buda. Achamos que seria interessante conhecer. Mas vou dizer, Buda poderia ter nascido em Cesário Lange que seria melhor viu. Baita tempo infernal que passamos na cidade. Tudo bem, existe um complexo super legal lá em que é possível visitar templos budistas de diversos países do mundo e todos são muito lindos e nesse mesmo complexo fica a casa (hoje um museu) onde Buda nasceu. Bonito, interessante e importante. Mas é “só” isso. Lumbini não oferece muito mais que essa atração que pode ser visitada em algumas horas, só uma horda de motoristas de tuktuk que ficam com os olhos brilhando ao avistar algum turista. Oras, mas até aí a cidade não ter grandes atrações não é problema nenhum, afinal fomos ver algo específico e procurar um teto antes da nossa troca de países. O problema foi que estava calor demais em Lumbini. Um calor seco e infernal que nunca senti antes. Pior até que a baforada úmida de lugares como Bangkok e Manaus. Mas não era só isso, antes fosse. Ficamos em um quarto simples em um hotel simples (do jeito que a gente gosta) que foi planejado especificamente para ser quente. Acho que durante a construção o empreiteiro do lugar pensou “qual seria o equivalente imobiliário a um forno gigante?” E aí foi e criou nosso quarto. Ele ficava na esquina do prédio que tinha formato em L, recebia sol o dia todo e tinha uma ventilação pífia. Para melhorar tempestades castigaram a região quando estávamos lá, por isso a luz vacilou mais do que já vacila normalmente no Nepal, ou seja, nosso ventilador, nosso único amigo, apenas tinha pequenos soluços de vida. Mas calma, você acha que acabou? Claro que não, eu não brinco em serviço na hora de reclamar de alguma coisa. Pense em todo cenário que já descrevi até agora: calor extremo, atmosfera sufocante e desconforto. Sabe o que pode melhorar tudo? Mosquitos. Sim, além de tudo o nosso quartinho dos infernos ainda era um portal para uma dimensão habitada apenas por mosquitos. Vocês podem estar pensando que estamos frescos, que o lugar deveria ser tranquilo e nós que não aguentamos o tranco, mas digo o seguinte: já dormimos em diversos “buracos” nessa viagem, já cansei de descrever quartos como “cativeiro” e mesmo assim esse foi pior, sendo que ele era até bonitinho (aparências não é tudo). Foram duas noites complicadas e sem descanso.
O complexo de templos e o museu, como eu disse, são bem interessantes. Sabe o melhor? Lembra que falei que estava um calor infernal? Sabe como exploramos tudo? De bicicleta. Isso mesmo. As vezes eu e a Marina temos umas ideias que vou te falar. Apesar de quase termos derretido sob sol do meio dia foi um passeio bacana. Na casa do Buda está demarcado o ponto exato onde ele nasceu, o que achei interessante, pois uma coisa é saber o local de nascimento (como a cidade), outra é o ponto exato de onde o jovem saiu do ventre. E pior que um monte de gente faz preces e oferendas ali, mas vai que o rapaz que fez a demarcação errou por alguns metros e todo mundo está adorando o local onde, sei lá, dormia o cachorro do Buda. 
Bom, brincadeiras a parte foi impactante conhecer um lugar com tamanho peso histórico e importância espiritual (para esse lado do mundo principalmente). Aliás, achei a mistura de hinduísmo com budismo do Nepal incrível. Alguns locais nos disseram que tem como religião, como guia espiritual, o hinduísmo, mas que seguem o budismo como modelo de pensamento. “Good thinking” foram as palavras deles, achei interessante. 
Profundo, impactante, importante… Posso usar o adjetivo que quiser, mas a verdade é que não gostamos da maior parte do nosso tempo em Lumbini e finalmente tinha chegado a hora de ir embora. O dia começou cedo, antes das 6 da manhã. Precisávamos pegar um ônibus até um cidade vizinha e depois outros ônibus até a fronteira. A ideia era pegar o primeiro transporte disponível no dia, mas assim que arrumamos tudo uma tempestade tomou conta dos céus e tivemos que esperar. Lá pelas 8 da manhã conseguimos sair e entramos em um ônibus que tinha cara de “vou quebrar”. E ele quebrou. Esperamos outro no meio de um caminho enlameado. Demoramos quase duas horas para andar 20 quilômetros, mas enfim chegamos na cidade vizinha. Mais um transporte público de 15 minutos e estávamos em Sunauli, a movimentada fronteira. Eram milhares de caminhões e ônibus de um lado e do outro. Nós atravessamos a pé, passamos na sinistra imigração do Nepal e depois, quando chegamos na imigração indiana, tivemos que esperar por mais uma hora pois o aparelho de scanner deles estava quebrado. Era um daqueles dias. Nesse meio tempo conhecemos outros viajantes e decidimos rachar um táxi com eles, afinal nossa jornada estava longe de terminar. Não era só passar para a Índia e pronto. Tínhamos que ir até Gorakhpur e de lá pegar um trem até Varanasi, nosso verdadeiro destino. Mas da fronteira para Gorakhpur o ônibus leva umas 3 horas e o trem até Varanasi mais umas 6 horas. Ainda tínhamos muito chão pela frente.
Para ganhar tempo invés de ir de ônibus rachamos o táxi com outros turistas, como já disse, até Gorakhpur. Chegamos de tarde, mas ainda em tempo de pegar o último trem do dia. A estação estava abarrotada, parecendo um campo de refugiados com pessoas jogadas pelo chão. Finalmente estávamos na Índia. Compramos o bilhete de trem mais barato que já vi na vida e logo depois descobri porque ele era tão barato assim. Quer dizer, logo depois nada, pois caiu um aguaceiro sem precedentes e o trem atrasou mais de uma hora. O que foi juntando de gente naquela plataforma semi alagada não foi brincadeira, comecei a ficar nervoso, pois não sou o maior fã de multidões. Quando o bendito trem resolveu dar as caras no horizonte a multidão já se preparou. Estavam todos cientes do que iria acontecer e sabiam o que era necessário fazer, menos eu e a Marina, duas baratas tontas no meio de um formigueiro. O trem foi se aproximando e mesmo sem parar as pessoas já corriam para subir nos vagões ainda em movimento, quase fomos atropelados umas três vezes. Corremos junto com a boiada, mas em ritmo muito mais lento, por isso em todo vagão em que entrávamos todo espaço físico possível já estava tomado. Nós entrávamos como dois touros numa loja de porcelana, com as mochilas gigantes nas costas batendo em todo mundo. Depois de alguns infernais minutos de luta em que eu xinguei muito o universo e transpirei em quantidades olímpicas (eu queria muito conseguir ser mais sereno nesse tipo de situação, como sou em tantas outras) conseguimos achar um vagão menos lotado, em que dava pra guardar as malas e ficar em pé pelo menos. Logo dois indianos muito simpáticos abriram espaço pra gente sentar, então não foi tão ruim. Foram seis horas cansativas, ora com o trem cheio, ora com o trem vazio, pois paramos em várias cidadezinhas pelo caminho. Foi bom para já termos um contato intenso com o dia a dia indiano. 
Chegamos em Varanasi quase às 23 horas, dois vestígios do que um dia tinham sido seres humanos. Depois de muito negociar um tuktuk e acordar um preço que eu tenha certeza que foi caro demais ele nos deixou em frente a uma rua fechada e disse que dali em diante não poderia seguir, teríamos que andar o último quilômetro restante do trajeto.
Foi aí que realmente caiu a ficha que estávamos em Varanasi. Para os que ainda não foram apresentados a esse maravilhoso lugar, Varanasi é uma das cidades mais antigas da Índia (quiçá a mais antiga) e um local sagrado para os Hindus, um lugar especial para morrer. A relação da cidade com o Ganges é íntima, afinal ele é o rio mais importante para o hinduísmo e ela fica situada na sua margem oeste. E ainda, Varanasi é intensa, como que um microcosmo intensificado de vários características da Índia - muita gente, muita cor, muita sujeira, muita espiritualidade, muita vaca na rua e muita coisa diferente. Diversos viajantes acham que é o lugar mais maluco de um país já maluco para nós ocidentais, e eu não posso negar. 
Quando o tuktuk nos largou no meio da rua ficamos meios desnorteados, a cidade ainda pulsava apesar de ser quase meia noite. Mas era uma pulsação decadente, daquele estilo fim de noite. Pessoas pareciam voltar para suas casas e os que ainda perambulavam de um lado pro outro pareciam procurar alguma coisa. Passamos por fogueiras no meio da rua, desviamos de lixo e restos animais e quase fomos atropelados por uma vaca desgovernada (era só o que me faltava). O clima era estranho, mas em nenhum momento me senti inseguro. Seguimos o mapa e chegamos até os ghats (escadarias) que dão para o rio. Fui à cometido pelo clima de grandeza e antiguidade do lugar, mas não deu para absorver quase nada, pois já era quase meia noite e a prioridade era conseguir se limpar e ficar um pouco na horizontal. Andamos pelo rio e nada. Não achava a guest house. Resolvi subir por um beco escuro e cai em um labirinto de vielas estreitas, o que eu acho que deva ser a cidade antiga que beira o rio. Perambulei por uns 20 minutos a esmo e só achei nosso hotelzinho porque Vishnu quis. Resgatei a Marina, que tinha ficado me esperando no Ganges e ufa, finalmente chegamos. Pensa num dia longo. Agora pensa num dia longo em que várias coisas dão errado. O nosso foi mais ou menos assim, mas o importante é que atingimos nosso objetivo. 
Uma observação importante porém, o dia foi cansativo fisicamente, mas sem nenhum entrave político. Depois de enfrentar a burocracia indiana em aeroportos digo que ainda prefiro os desgastes físicos aos mentais que os supracitados entraves burocráticos causam.
Depois de uma boa noite de sono conseguimos sair e começamos a entender a cidade. A vida acontece no rio. Sentamos por lá no fim de tarde e vimos de tudo, pessoas se banhando, pessoas brincando, jogos de criquete, animais (vi um bode do tamanho de um cavalo), meditação, orações e, claro, as cremações. Mas daqui a pouco vou falar disso. Como eu disse, tudo acontece ali nos ghats, as escadarias que dão para o rio. Cada ghat tem um propósito específico, uns são para cerimônias que acontecem ao fim do dia, outros para banho e yoga e dois específicos são crematórios. Sentar nesses degraus e apenas observar é melhor do que qualquer programação de domingo da TV. 
Aliás observar foi basicamente o que fizemos em Varanasi, fomos em cerimônias que acontecem ao entardecer, vimos o sol nascer do Ganges em um inesquecível passeio de barco e passamos muitas horas com as nádegas no concreto em meio a bagunça da cidade. Também andamos muito pelas vielas estreitas que beiram o rio. Ora elas estavam bloqueadas por motos, ora por bovinos e as vezes pelos dois ao mesmo tempo. Macacos também rondam pelos tetos das antigas construções e inclusive atacaram a Marina, que de alguma forma desafiou eles. Acho que foi o porte físico ameaçador dela que causou tudo.
Claro que uma das experiências mais surreais de Varanasi foi visitar os crematórios. Cada um fica em uma ponta distinta do “circuito dos ghats” e um deles é bem pequeno se comparado ao outro. O crematório principal é uma visão quase lisérgica, uma mistura de fogo, animais, madeira, cinzas, água e fezes. Não é só que pessoas estão sendo queimadas em piras ali na sua frente, bem a beira do Ganges, mas todo o resto do cenário é estranhamente bonito, como se pequenas partes erradas conseguissem formar um todo magnífico. As ruínas que fazem parte do ghat dão um tom certeiro de decadência histórica (e digo isso no melhor sentido possível), elas são habitadas pelas pessoas que vão para Varanasi para morrer e estão “esperando sua hora”. Sim, como eu já disse a cidade é sagrada para os hindus e especialmente auspiciosa para morrer, segundo a crença deles falecer lá é uma forma de quebrar o ciclo de reencarnações.
É uma visão única, algo que merece ser vivenciado. Nós ficamos ali por um bom tempo só observando esse espetáculo de vida e morte. Ou só morte né, porque ninguém queimado ali quer reencarnar. Também acho que é errado chamar de espetáculo. Certo, vou reformular - “nos ficamos ali por um bom tempo só observando aquilo” - acho que agora está mais certeira a frase.
Varanasi é um lugar intenso, mas no fim das contas gostamos tanto da experiência que estendemos nossa estadia, mesmo com o calor infernal que fazia de dia. É também um lugar que cansa, assusta e te afeta de algumas maneiras inesperadas, mas que merece muito ser visitado.
Depois de lá começamos mais um round de transportes capengas pela Índia e acho que foi aí que nossa energia começou a vacilar novamente, mas esse é assunto de um próximo relato.
Beijos Quentes

Algumas fotos sobre o relato
A casa do Buda
A casa do Buda
O ônibus que quebrou
O ônibus que quebrou
Um trem cheio na Índia
Um trem cheio na Índia
Varanasi - a vida no rio
Varanasi - a vida no rio
Amanhecer no Ganges
Amanhecer no Ganges
Mais rio
Mais rio
Orações da manhã
Orações da manhã
Macacos que encrencaram com a Marina
Macacos que encrencaram com a Marina
Obstruído
Obstruído
Indicações
Já que essa é uma newsletter sobre viagem vou indicar um livro (na verdade uma sátira) sobre viagens. Meu herói Gulliver, que saiu pelo mundo e voltou com ódio do ser humano. É assim que a humanidade faz eu me sentir (brincadeira, gente). Leiam! Começa bem chato, mas é sensacional.
Gulliver's Travels by Jonathan Swift
Direto do passado
No blog tem a última parte da nossa passagem pelo Japão. Foi quando eu cantei Kiss from a Rose embriagado em um karaokê em Tóquio.
Japão ou o capítulo do karaokê embriagado – Volta ao Mundo em 80 Socos
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