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Volta ao Mundo em 80 Socos - Desbravando a terra do minotauro

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Volta ao Mundo em 80 Socos

November 11 · Issue #24 · View online

Um casal meio perdido saiu por aí e agora está jogado pelo mundo. Relatos do mais desajustado da dupla.


*** Desculpe a demora para atualizar essa newsletter, mas escorri pelo ralo cotidiano e estou me recuperando da volta a vida com rotina e compromissos ***
Olá, amigos e amigas
Eis aqui mais um enxame de bobagens para vocês gastarem o finito tempo de vossas vidas. Nada de abraçar os filhos, beijar a pessoa amada e estar com os entes queridos, o negócio mesmo é deixar os minutos deslizarem por baixo do alçapão celeste lendo as desventuras de um estranho em terras mais estranhas ainda. Mas isso ainda é melhor que ficar vendo os instastories da sua prima na academia, então vamos lá.
Depois de visitar a cidade que já foi um farol de conhecimento para o mundo ocidental (e hoje é no máximo um farolete), nos dirigimos para o que realmente interessa na Grécia: praia, sol, bebida e sossego. 
Fizemos a famosa dança das cadeiras de quem viaja e nos apertamos em alguns transportes durante horários nada confortáveis até chegarmos em Creta, a maior das ilhas gregas. E também um dos lugares com mais história desse cantinho abençoado por contos e causos no mediterrâneo. Os minoicos são uma civilização tão antiga quanto os mais anciãos assentamentos gregos, inclusive já dominaram Atenas e boa parte da região, no fim acabaram como poeira intergalática por uma série de fatores, mas a turma lá da ilha já foi bambambã. É justamente desse época que remonta um dos mitos gregos mais famosos, o do Minotauro, a besta comedora de pessoas que nasceu (em algumas versões do causo) do desejo lascivo de uma rainha (causado por um Poseidon sacana) e o poder sexual de um belo touro. Uma história de amor como outra qualquer lá pelas bandas do interior, nem sei porque os gregos fizeram tanto barulho por causa disso. Enfim, é um mito interessantíssimo, com personagens interessantíssimos, como Ariadne e Teseu, mas isso aqui não é aula de mitologia por isso não vou comentar mais sobre isso. Basta dizer que ninguém nunca pensou em desafiar o Minotauro para uma partida de sinuca (ou até mesmo truco), o verdadeiro jeito civilizado de resolver problemas. Parece que os gregos não eram tão avançados assim. 
Em Creta conquistamos os labirintos de areia e sal e assassinamos as bestas em nossos caminhos (apenas as metafóricas). Foram, de novo, tempos gostosos demais. 
Mas calma lá, vou detalhar um pouco mais essas aventuras. Para começar Creta é, como já disse, uma ilha grande. Bem grande. Por isso alugamos um carro para nos locomover. Logo no aeroporto já achamos o encarregado da empresa de aluguel que me levou para o pátio, um lugar que mais lembrava um ferro-velho. Eu tinha escolhido a opção mais barata de aluguel e ao ver os carros oferecidos pela nossa empresa esparramadas pelo pátio comecei a ficar um pouco receoso pelo o que poderia vir pela frente, mas eu ainda tinha uma centelha de esperança que o Universo nos presentearia com uma carruagem digna de Apolo. 
Nunca conte com o Universo. 
Conseguimos pegar um carro pior que a pior opção da empresa, uma lata-velha do tempo do rei Leônidas. Sério, eu não sei nem como eles ofereceram aquele carro para um cliente. Com certeza se meu tio Teixeira visse o veículo ele mandaria a infame piadinha “tem que tomar vacina anti-tétano pra entrar nisso”. Eu sei porque eu mandei essa piadinha. Enfim, tenha em mente que era um carro ruim, ele não andava, mas se arrastava pela estrada gritando súplicas mecânicas para qualquer que seja o deus do Olimpo que cuide das máquinas. Ele só pedia por um fim rápido para sua dolorosa vida baseada em combustível fóssil. Durante toda viagem sempre tivemos sorte com coisas alugadas, sempre ganhamos upgrades milagrosos vindo do nada, dessa vez o destino quis brincar com a gente. Mal sabia essa força misteriosa que eu domaria a tristeza metálica e ganharia uma estranha afeição pelo nosso bólido. 
Creta é um lugar maravilhoso. Cheio de história e praias lindas. E também cheia de espaço. Existem as concentrações de turistas, é claro, mas tem tanta praia e vilazinha pela ilha que dá para ir parando em lugares incríveis e quase vazios. Creta tem vida. Moradores locais que vivem de forma simples em suas casas mediterrâneas sempre integradas no horizonte azul e laranja. Me pareceu um lugar mais autêntico e variado do que Santorini, a outra ilha que visitamos. Creta tem praias lindas, cidades charmosas, vilas de pescadores, montanhas, trilhas, cavernas e o escambau. Não é a toa que Zeus foi criado lá. 
A paisagem é bem parecida ao longo da ilha toda. Cadeias de montanhas dominam a parte central da ilha e dividem o horizonte com o mar azul daquele marinho grego “tradicional”. O lugar é seco, árido, alaranjado e pedregoso, lembra muito do que já tínhamos visto na costa da Turquia. Alguns pinheiros ali, outras oliveiras acolá e uns arbustos no chão formam a maior parte da vegetação que vi. Mesmo assim tudo se mescla em um balé visual de tirar o fôlego, principalmente nas praias, onde a paleta de cores ganha a força do turquesa das águas mais rasas. Dá para ver que eu gostei de Creta e achei o lugar lindo. 
Dividimos nossa estadia na ilha em duas partes, uma mais perto de Chania e outra mais perto de Heraklion, ambas em casinhas alugadas extremamente confortáveis. Cozinhar, ir ao mercado, ter vizinhos e um espaço nosso deu mais vontade ainda de viver a vida grega. Depois de tanta cama dura e banheiros desgrenhados finalmente estávamos em um combo de boas acomodações (e muitos gastos).
Com nosso fiel carrinho da tristeza desbravamos locais lindos como Elafonissi, Falassarna e Seitan Limania. Ainda fizemos a versão europeia de um tour da CVC para as incríveis Grambússa e Balos, talvez os locais mais lindos de toda a Grécia. E isso foi só ali ao lado de Chania, porque quando nos mudamos para Heraklion resolvemos nos aquietar em uma prainha desconhecida bem perto da nossa casa. O lugar também era bonito. O mar grego tem mesmo um charme e um poder único, passa a mesma sensação que senti na Turquia, aquele cenário que parece que não combina com praia, mas tem praia ali. E não é feia não. Longe disso. É bonita pra caramba. Montanhas, morros, pinheiros e aridez ao redor. Uma paisagem imponente. Eu praticamente conseguia sentir Zeus me olhando do alto do monte Ida e aprovando minha sunga. Valeu, Zeus. 
Mas não foram apenas dias de calmaria, alto nível estético e felicidade. Eu quase morri. Isso mesmo, eu quase morri uma noite em Chania. Vai parecer brincadeira, mas na hora eu senti a vida escapando de mim. Vou explicar melhor. Fomos jantar na parte velha da cidade, um lugar bem charmoso, cheio de turistas e restaurantes bons. Acontece que eu não comia nada mais que uma maçã há 3 dias, pois estava mais uma vez com o intestino inquieto. Esse jantar foi a reinauguração da avenida para minhas entranhas, mas a obra de recapeamento não foi bem feita e o caminhão de comida que tentou passar acabou atolado. Comi e bebi igual um boi e depois gemi igual um porco. O exagero foi meu pecado e no fim da noite minha barriga ficou dura, petrificada, e eu tinha certeza que iria literalmente explodir. O primeiro brasileiro a morrer no exterior por comer demais. A vergonha de Itu e de minha família. Eu nem conseguia dirigir de tão debilitado que estava. E a Marina o que fez? Só ria. Ria com o riso fácil dos saudáveis, dos que gozam da vida e não sabem o que é sofrer. Ria o riso da criança inocente enquanto seu marido estrebuchava  por ter o olho maior que a barriga. 
Mas deu tudo certo e eu superei mais um obstáculo em minha vida. Estou fazendo piada aqui, mas é estranho pensar que depois de tudo que vimos e aprendemos na viagem eu tenha passado mal de tanto comer em um ilha grega. Alguns diriam que é um fim indigno para um mochilão raiz, eu diria que bem de vez em quando é bom se perder em excessos. O meu foi um excesso patético, só isso. 
Depois de Creta fomos de balsa para Santorini, uma das ilhas mais badaladas do contingente grego. Creta estava longe de ser um paraíso perdido sem turistas, mas o que vimos em Santorini foi um outro nível de turismo. Parecia uma colônia de férias para gringos e não a casa de gregos. Era mais fácil encontrar alguém falando português do que grego. Mais ou menos o que aconteceu em alguns lugares da Tailândia, mas com um nível de peruagem muito superior. Foi um lugar caro, cheio, quente e bonito. Sim, não dá para negar, as vilazinhas tradicionais gregas, aquelas bem brancas e azuis, são lindas. As praias de lá parecem legais, mas nada perto do que já tínhamos visto. Fomos ali principalmente ajudar a Vera a realizar o sonho de estar naquele cenário de filme, e só por isso já valeu a pena. Longe de mim falar que foi ruim, mas eu não volto lá não. Até porque para voltar eu preciso vender um braço meu e a Marina inteira no mercado negro. E olha que a Marina vai dar problema e vão querer devolver, então não vai dar certo mesmo. 
E essa foi nossa estadia na Grécia, um lugar de dias tranquilos e gostosos, com um ritmo muito diferente do que vínhamos fazendo porque recebemos uma pessoa querida. Olha, receber a sogra para uma viagem foi muito melhor do que eu esperava, foi bom demais.
Com a partida da Vera para o Brasil era nossa hora de continuar a viagem. Depois de visitar amigos na Europa iríamos dar um pulinho em casa por um tempo. Isso mesmo, voltaríamos para o Brasil. Mas isso eu explico melhor depois.
Beijos Quentes.

Algumas fotos sobre o relato
Direto do Passado
Confira aqui a vez em que nos aventuramos nas águas do Pacífico para assaltar embarcações e encher a cara com os filipinos.
Filipinas ou o capítulo da exploração marítima (TAO) – Volta ao Mundo em 80 Socos
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