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Volta ao Mundo em 80 Socos - Capadócia e a maculação da minha alma

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Volta ao Mundo em 80 Socos

August 1 · Issue #16 · View online

Um casal meio perdido saiu por aí e agora está jogado pelo mundo. Relatos do mais desajustado da dupla.


Esse relato cobre os eventos de 06/06/2019 a 13/06/2019
Olá, participantes dessa maratona de sofrimentos chamada vida. Aguente firme, chegou mais um episódio das lastimáveis aventuras e patéticas reclamações do menor casal que já viajou o mundo.
No último e-mail contei sobre o nosso rápido e tórrido caso de amor com Istambul. Foi triste e trabalhoso sair de lá, afinal estávamos com tanta preguiça que até comprar um sorvete na esquina configurava-se como “trabalhoso” para nós, mas a vida segue e nossa viagem também, por isso fomos nos enfiar em mais um ônibus por cerca de 12 horas.
Estávamos indo em direção a Göreme, uma vila quase no centro do que é chamado de Capadócia, que é uma região e não uma cidade, estado ou coisa do tipo. A viagem foi tranquila e sem nenhum grande perrengue, o que de certa forma é uma novidade nessa newsletter. Achei curioso que no ônibus o rapaz que atua como cobrador e ajudante de motorista também se arrisca como comissário de bordo durante a viagem. Sim, em dado momento ele tirou um carrinho dobrável e umas comidinhas de um compartimento secreto e passou servindo chá, água, suco e snacks. Chique. 
Foi um ônibus noturno, por isso no outro dia de manhã chegamos em nosso destino. Ou quase. Como Göreme estava com acomodações muito caras acabamos reservando um lugar em Ürgüp, uma vila próxima (10 quilômetros de distância) e também parte da região da Capadócia. Por isso lá fomos nos caçar uma van local quase que de madrugada para nos levar até nosso objetivo. Locomover-se a baixo custo é cansativo mesmo quando é fácil. 
Depois de algum tempo finalmente chegamos na casa do Mehmet, nosso anfitrião. Em Ürgüp ficamos numa casa de família, mas não foi por Couchsurfing. Na verdade esse lugar estava listado no Airbnb com um preço muito bom, por isso pegamos a oferta. Foi como se tivéssemos alugado um quarto na casa dele. No fim foi uma experiência incrível, mas foi estranho chegar logo cedo na casa de outra pessoa, principalmente porque o Mehmet tinha entendido errado nossa mensagem e achou que nos chegaríamos à noite, o que nos levou a: 1) acordar ele 2) acordar a família dele toda que estava passando o Ramadã lá (a celebração estava em seus últimos dias) 3) tomar um café da manhã com a família toda, que nós acordamos, sem o Mehmet, porque ele precisou sair correndo para trabalhar. 
Foi uma daquelas cenas surreais que surgem as vezes em obras de realismo fantástico, como se estivéssemos em um filme co-dirigido por Fellini e Roberto Benigni - o casal atordoado, a família confusa, uma criança elétrica e eles sem falarem um pingo de inglês e nós com entendimento zero do turco. Claro que nos entendemos, no fim todo mundo se entende, e um café da manhã com todos tipos de azeitonas possíveis ajudou muito. Aliás eu adorei a concepção de café da manhã dos turcos - alguns tipos de queijo (de cabra principalmente), tomates frescos, pepino, pães diversos, milhares de azeitonas, pistache e nozes, manteiga, frutas e geleias. É farto, gostoso e leve. Quer dizer, se você comer a mesma quantidade que eu comi não é leve não, mas ok. 
Rimos, comemos e (não) nos entendemos, foi interessante. Depois saímos para conhecer Ürgüp enquanto eles arrumavam nosso quarto, pois não nos esperavam tão cedo. 
A vila é charmosa, arrumada, pequena e da mesma cor de todas as vilas da Capadócia, um bege amarelado que tem o mesmo tom das rochas onde as construções eram escavadas antes. É uma sensação estranha observar uma cidade que tem o mesmo tom o tempo todo, sem um escape de cor, parecia que um gigante tinha jogado um balde de areia em cima de todas construções. De longe os detalhes, que são muitos, parecem se perder em uma massa uniforme, mas ao chegar perto de cada casa ou prédio é sempre possível se surpreender com alguma coisa nova. Aliás a Capadócia e suas vilas são uma visão surreal. Vindo de Göreme para Ürgüp já tínhamos visto uma pitada do que essa região tem para oferecer. Construções escavadas na pedra, cidade fundindo-se com natureza e formações rochosas bizarras. É um lugar incrível.
Mas melhor do que ficar restrito a vista das cidades ou participar de tours com mais pessoas do que deveriam caber em uma van é se enfiar no meio dos vales esquizofrênicos da região. Sim, dá para andar por conta própria pelas milhares de trilhas que existem ao redor de Urgup, Göreme, Uçhisar e outras vilas da Capadócia. É muito lugar pra desbravar. Nosso dia favorito aconteceu quando nos enfiamos no meio dos caminhos estreitos de alguns vales locais, mais especificamente o Swords Valley, Red Valley e Rose Valley. Foi um dia inteiro andando entre um lugar que parecia o filho renegado da lua com Marte. A diversidade de cenários em espaços tão próximos é fantástica. Em dado momento estávamos no fundo de um mini cânion apertado e cinza, alguns minutos depois subíamos uma colina para nos depararmos com um labirinto de morros rosas que parecia dentes saindo da terra e aí mais a diante nos víamos perdidos entre ferozes formações lunares emergindo como espinhos do chão. Isso tudo apenas nessa pequena região que mencionei. Fora o cenário de cair o queixo ainda nos deparamos com casas e até igrejas escavadas nas pedras, algumas mais antigas que aquele queijo que você deixou no fundo da geladeira jurando que um dia vai comer. É maluco demais pensar em toda história e toda gente que já viveu naquele lugar em condições tão peculiares. Uma das igrejas que encontramos era gigantesca, uma verdadeira catedral dentro de uma rocha. Ainda bem que eu não nasci em tempos mais antigos, porque o esforço necessário para criar algo desse tipo não condiz com meu nível de comprometimento e energia, se dependesse de mim os moradores da Capadócia não conseguiriam nem enfiar o dedão dentro de um pedregulho. 
Outra coisa que achei incrível é o quão complexo são os cânions e vales que se formam na região. De uma vista panorâmica parece ser uma região árida e simples, incrível, mas simples, com diversos rasgos na terra e umas colinas de formato peculiar se erguendo aqui e ali. Mas ao nos aventurarmos pelas trilhas vimos como cada um desses desfiladeiros escondiam uma vegetação vasta e mais profundidade e beleza do que era possível ver de longe. Nas nossas andanças tivemos que atravessar uma mata espessa lotada de abelhas. Provavelmente era uma trilha fechada que os dois imbecis resolveram seguir e quase terminamos como o menininho do filme “Meu Primeiro Amor”. Mas o visual que encontramos pelo caminho valeu a pena.
Bom, eu em empolguei descrevendo as belezas da Capadócia, mas é porque foi um dos lugares que mais gostei de toda a viagem. É diferente. Impressiona. Caso você passe lá um dia vá além dos passeios de balão e explore o lugar de perto. 
Aliás o dia em que exploramos os vales que mencionei acima foi especial, pois terminamos ele tomando uma cerveja com Mehmet e sua mãe (os únicos moradores fixos da casa onde ficamos) e rindo bastante. A mãe dele é incrível e não fala nada de inglês, mas mesmo assim conseguiu nos mostrar fotos de suas viagens e contar da família. 
Depois de três dias saímos de Ürgüp e fomos para Göreme, dessa vez ficamos em um hotel mesmo, assim estávamos mais perto das trilhas e vales da região. Göreme também é de onde saem os famosos balões da Capadócia e embora não fôssemos embarcar em um (no caso porque não tínhamos um fígado extra para vender e bancar o voo) queríamos acordar cedo e ver eles subindo aos céus de um mirante nas montanhas do Swords Valley. Para isso teríamos que acordar lá pelas 3 da manhã e andar por 1 hora até a desgraça do mirante. E foi o que fizemos. Infelizmente. Acordamos cedo, enfrentamos um friozinho chato, cruzamos um cemitério turco no meio da escuridão (sem querer), subimos a trilha no escuro, chegamos no topo do morro (onde fica um sofá velho para acomodar os aventureiros) e esperamos. Esperamos. E esperamos. Normalmente os balões começam a subir lá pelas 5 da manhã (nessa época do ano), pois o sol nos agracia com sua presença flamejante umas 5:15. Mas nesse dia nada. Quando deu 5:30 começamos a desconfiar que talvez os voos tivessem sido cancelados. Quando vimos 6:15 no relógio tivemos certeza disso, mas ainda decidimos esperar mais um pouco, nos agarrando a mesma esperança perversa que fazia minha tia Mirtes comprar uma tele-sena toda semana. Em algum momento, perto das 7 da manhã, decidimos voltar para o hotel e para nossas camas, tristes e traumatizados pela falta de balões. O dia até estava bonito, mas eles cancelam os voos lá por qualquer coisinha, acho que tem a ver com alguma bobagem como segurança dos turistas ou algo do tipo. Enfim, ficamos uns sete dias na região e não vimos os balões em nenhum deles, tudo culpa do mau tempo.
Mas, apesar do trauma flutuante, foram tempos gostosos demais na Capadócia. Eu ficaria por lá 1 mês tranquilamente. Fizemos outras trilhas, visitamos o castelo de Uçhisar (que também é escavado nas rochas e fica no ponto mais alto da região), visitamos uma cidade subterrânea, descobrimos cafés escondidos em cantos perdidos dos cânions, tomamos muito chá e ainda relaxamos. Ainda conhecemos um casal de viajantes brasileiros muito gente boa (@livrespelomundo), a conexão foi instantânea e poderosa, apesar de apenas um dia juntos. Foi demais.
Ou quase, pois foi lá que também aconteceu o maior trauma recente da minha vida adulta. Foi onde perdi a dignidade. Foi onde minha alma foi maculada e todo respeito usurpado do meu coração. Não sou mais o mesmo Rafael desde então, e, apesar de nunca ter sido grande coisa, ouso dizer que agora sou um homem pior do que era. Vou explicar o que aconteceu. Em uma tarde preguiçosa resolvemos tomar um sorvete. A Turquia é cheia de sorveteiros “brincalhões”, que ficam fazendo truques com a casquinha e “enganando” os turistas. Você já deve ter visto um vídeo disso, é praticamente uma atração turística por lá e as crianças adoram. Coisa que não me interessa, credo, longe de mim. Sou tão reprimido em alguns sentidos que ser feito de bobo pelo rapaz do sorvete na frente dos outros ativa uma vergonha poderosa e primitiva no meu âmago. Ou seja, eu nunca escolheria em sã consciência tomar um sorvete num lugar desses. Enfim, estávamos andando por Göreme atrás do nossa delícia gelada e achamos um lugar “normal”, não era desses cheios de truques. Ou pelo menos eu achava que não era. O rapaz do balcão serviu a Marina e, na minha vez, foi como se um riso malicioso tivesse surgido no canto da boca dele. Ele pegou o sabor escolhido colocou na casquinha e na hora de me entregar virou a casquinha de ponta cabeça e eu quase enfriei a mão no sorvete. Nessa hora meu cérebro deu uma pane, eu cheguei a pensar “meu deus, será que isso vai acontecer?”, mas já era tarde demais, o sorveteiro maligno, num golpe ágil e cruel, recolheu o braço e estocou com firmeza, enfiando o sorvete no meu nariz. Isso mesmo, eu, um homem adulto, levei uma sorvetada no nariz. Uma sorvetada no nariz do nada, no meio da praça da cidade. Meu mundo acabou naquela momento. Minha dignidade saiu correndo e eu fiquei com cara de bobo enquanto aquele turco dos infernos olhava eu morrendo por dentro. Quando recobrei a consciência resmunguei em português, limpei o rosto cheio de sorvete de melão e sai sem nem olhar para trás. Mas o estrago já tinha sido feito, eu nunca mais seria o mesmo. 
Fica aí o aviso, quando você se leva a sério demais esse tipo de coisa pode acontecer. A minha rigidez interna foi estraçalhada por um sorveteiro e até agora estou recolhendo os cacos. 
E foi essa a única marca negra que a Capadócia me deixou.
Após isso me reneguei, jurei vingança contra todos sorveteiros engraçadinhos, alugamos um carro e saímos para explorar a Turquia. Mas isso é o tema da próxima newsletter. 
Beijos quentes 

Algumas fotos sobre o relato
Marina no pigeon valley - lugar foda
Marina no pigeon valley - lugar foda
Vista do castelo de Uçhisar
Vista do castelo de Uçhisar
Rose Valley (ou Red)
Rose Valley (ou Red)
Rose Valley (ou Red)
Rose Valley (ou Red)
Uma das antigas igrejas dentro das rochas
Uma das antigas igrejas dentro das rochas
As casas da turma
As casas da turma
Ao fundo o castelo de Uçhisar
Ao fundo o castelo de Uçhisar
Ürgup
Ürgup
Direto do Passado
Caso você não tenha visto, leia sobre a vez em que levamos um golpe e passamos calor em Bangcoc.
Tailândia ou capítulo de Bangcoc e que fomos feitos de otários – Volta ao Mundo em 80 Socos
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