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Volta ao Mundo em 80 Socos - Austrália e o capítulo da exploração oeste - parte 2

Revue
 
 

Volta ao Mundo em 80 Socos

May 2 · Issue #8 · View online

Um casal meio perdido saiu por aí e agora está jogado pelo mundo. Relatos do mais desajustado da dupla.


Olá, amigos e amigas. 
Sim, eu sou persistente e estou aqui mais uma vez enchendo a sua atribulada caixa de e-mails. Mais uma oferenda digital para ajudar você na sua empreitada em adorar o deus da procrastinação e não focar em coisas realmente importantes, como aquela reunião que não deveria nem existir. Pegue um café, chá ou qualquer outra bebida reconfortante e se prepare para mais umas bobagens.
Esse é mais um capítulo sobre a Austrália e nossas aventuras rodoviárias por lá. E é o último - depois desse o próximo relato já será sobre o Nepal e as andanças pelos Himalaias. Eu falei que iria acelerar a Newsletter e, bem, ela já está quase em sincronia com nossa viagem.
No capítulo anterior estávamos em Perth, usufruindo de um Airbnb em um bairro asiático e prestes a começar uma nova viagem de carro. Foram poucos dias parados, pois nos despedimos do Paulo e logo na manhã seguinte já fomos pegar nosso incrível veículo na locadora.
Essa seria uma road trip menor, de oito dias, por isso optamos por “estilo” invés de “funcionalidade”. Alugamos uma campervan, pois queríamos muito ter a experiência de “viver no nosso carro”, a epítome do espírito livre que é inerente às road trips. 
Mas não foi qualquer campervan. Não foi nem ao menos uma boa campervan. Foi um furgão velho da Suzuki levemente modificado e com uma pintura externa singular. Ele apenas tinha compartimentos de madeira acoplados em sua parte traseira e alguns equipamentos, como colchonetes, fogareiro, panelas, pia, etc… tudo bem simples. Caso você busque por “van life” no YouTube vai achar diversos vídeos sobre carros incríveis e ajeitados de forma magnífica, com modificações inteligentes que criam um senso de conforto e autonomia. Não era o nosso caso. Basicamente alugamos uma “rape van” de 140 mil kms com colchões, mas foi divertido. Pelo preço esperávamos algo melhor, mas a vida nos fez de otários de novo. Pelo menos fomos otários felizes por alguns dias (assim que aprendemos a lidar com os mosquitos). Importante - campervan são diferentes (e bem mais simples) de motorhomes e trailers.
Um último ponto importante sobre nosso veículo, além de ele estar sempre na eminência de perder alguma peça vital na estrada, não conseguir ultrapassar 90km/h sem capotar e ter um cheiro peculiar - ele também não era nada discreto. Alugamos ele na Wicked Campers, uma empresa toda modernosa que serve a jovens “rebeldes” que ainda não sentem dores nas costas e gostam de ficar nus por aí (no escritório da empresa tem um monte de fotos de clientes nus perto dos carros, não entendi o porquê até agora). Os carros da Wicked Campers tem pinturas interessantes e engraçadas, como por exemplo um motorhome que é igual a Mistery Machine do Scooby-Doo. O nosso furgão tinha um trabalho estético mais peculiar, algo meio urbano e ameaçador, que não era nem bonito nem legal. Sabe aquele tipo de carro que você olha e pensa “olha lá o imbecil chegando”, então, esse era o nosso. Parecia um carro de gangue, mas aí quem descia dele eram dois turistas desajeitados e as pessoas só podiam imaginar que estávamos escapando do nosso cativeiro ou algo assim. 
Pode parecer que eu não gostei do nosso furgãozinho, afinal foram dois parágrafos apenas criticando ele, mas eu gostei sim. Eu não adorei logo de cara e esperava algo muito mais legal, mas com o tempo criei um certo carinho por aquela coisa estranha. Acho que é mais ou menos assim que minha mãe deve se sentir em relação a mim. 
Nosso plano era explorar a parte sul da WA (Western Australia) dessa vez, indo até Esperance e voltando por alguns locais interessantes ao longo da costa. Foi uma viagem curta em dias, mas quase tão longa quanto a anterior em distância, cerca de 2.100 kms rodados. Vou colocar, junto com as fotos, o itinerário/mapa igual fiz na newsletter anterior caso alguém se interesse (e consiga entender). 
Já adianto aqui, essa foi mais uma viagem incrível. Impossível não comparar o sul com o norte da costa oeste. Fomos de uma área praticamente deserta e isolada para locais mais verdes e mais populosos, na medida do possível, claro.
 Saímos de Perth e cortamos parte do interior para chegar direto a Esperance, no litoral. Foi um dia longo e em que atravessamos uma paisagem parecida com o meio oeste americano (ou pelo menos parecido com o que eu vejo nos filmes): cidades de uma rua só, imensos campos dourados se estendendo até o horizonte, poeira e algumas árvores retorcidas. Passamos por uma Austrália bem interiorana no nosso primeiro dia, até mais isolada que as minúsculas vilas que vimos ao norte. Como nosso carrinho não conseguia cobrir muita distância acabamos dormindo no meio do percurso, em uma cidadezinha esquecida pelo mundo chamada Lake King. 
Claro, como qualquer lugar na Austrália que tenha mais do que três pessoas, Lake King tem um caravan park (camping). Para ficarmos lá precisávamos pagar a estadia na taverna local, que fica ao lado do camping. Vou falar, quando entrei na taverna me senti em um filme - sabe aquele tipo de cena em filmes de faroeste em que todos param de falar e encaram o forasteiro entrando no saloon? Foi isso que aconteceu. Já me preparei para sair na mão com uns locais, mas eles foram todos bem gente boa e nada aconteceu, para sorte deles.
E foi nessa primeira noite que nos deparamos com um problema que seria uma dor de cabeça nos próximos entardeceres: os mosquitos. Dormíamos na parte de trás do carro e ele ficava um forno sem nenhuma abertura (sem falar que não é muito indicado dormir com as janelas fechadas), mas qualquer frestinha era um portal para uma horda sanguinolenta de mosquitos nos atacar. Foi uma péssima noite de sono. Apenas dias depois, após algumas gambiarras mal feitas (inclusive usando papel de presente), uma chacina de insetos e poucas horas descansadas que chegamos à conclusão definitiva para esse problema: como não achamos mosquiteiros próprios para carros improvisamos panos de cozinha, daqueles coloridos, presos nas janelas. Eles eram arejados na medida certa e uma bela rede de proteção contra esses minúsculos arautos do inferno. Uma solução digna de MacGyver de dona Marina. 
Mas voltando à estrada - no dia seguinte seguimos cortando o interior e finalmente chegamos até Esperance. A vegetação ficou mais verde, até mais árvores apareceram, e de repente estávamos em uma costa com diversas praias de areia branca, mar azul, violento e frio. Esperance é uma cidade interessante, tem certa estrutura e praias lindas ao redor. Com certeza moraria lá por um tempo. É longe de tudo, mas é legal. 
Fizemos a Great Ocean Drive (não é Great Ocean Road), um passeio curto por inúmeros pontos locais, e paramos em uma praia belíssima e “nude friendly”. Não tinha ninguém pelado lá, só um tiozão que usava apenas um chapéu e parecia uma estátua sentado em umas rochas dentro do mar congelante. E ele realmente não se movia, estava comprometido com a nudez, porque eu não teria aguentado dois minutos ali. O melhor de tudo é que ele ficava bem no limite da área “nude friendly” da praia, fazendo um contato visual estranho com todos que ousassem entrar em seus domínios. Ele era o guardião dos peladões. Enfim, nos andamos mais para dentro da onde era legal ficar nu, longe dos olhares do tio indiscreto e, bom, tiramos as roupas. Ou melhor, a Marina tirou tudo e ficou muito feliz. Foi uma baita experiência de libertação para ela, algo intenso e importante. Eu consegui ficar um total de dois minutos nu, mas aí minha neurose e repressão tomaram conta da mente e logo já estava de shorts novamente. Esse negócio de ficar pelado é pros bêbados e pros corajosos, e eu que nem alcoolizado ganho coragem já sei que isso não é pra mim. 
No dia seguinte continuamos em Esperance e visitamos o Cape Le Grand National Park, um parque nacional que fica pertinho da cidade e tem umas praias surreais. Passamos a maior parte do dia em Lucky Bay, a praia de água azul turquesa que os humanos dividem com cangurus. Lugar incrível. Ainda visitamos Thistle Cove, Hellfire Bay (que tem o nome mais legal do mundo) e o Frenchman Peak. O parque é muito bonito, vale a pena visitar. 
Depois de dois dias de gracejos estéticos demos adeus à Esperance e partimos em direção a área de Margaret River. Para isso cortamos de novo o interior da região sul, dessa vez em direção a oeste, e de novo nos enfiamos nos infinitos campos planos e poeirentos do “meio oeste” australiano. Nesse dia fomos em direção a uma poderosa tempestade, enfiámos o carro num mar de nuvens negras e raios intimidadores, me senti no filme Twister. Foi uma sensação incrível, e fiquei muito feliz de não termos saído voando por aí. Dormimos em uma cidadezinha bem interiorana chamada Kojonup. O povo lá tinha olhar desconfiado e era mais reservado do que o australiano médio, algo típico de cidades menores e pouco visitadas. Ficamos em um caravan park sinistro, com diversos moradores “fixos”. Uma turma bem estranha com uma vibe “massacre da serra elétrica”. Eu não me surpreenderia se alguém nos atacasse durante a noite, mas como já disse na newsletter anterior, estou preparado para esse tipo de situação. 
Conforme nos aproximamos de Margaret River os povoados ficaram maiores e com mais estrutura. A paisagem mudou de novo, novamente voltando a ficar mais verde e até mesmo mais “temperada”, com bosques de pinheiros mesclados ao bush australiano. Essa é uma região muito bonita e charmosa, e bem mais turística do que outros pontos que visitamos (até por ser próxima de Perth). É uma espécie de Campos do Jordão com praia - e eu sei que sempre uso Campos do Jordão como comparação, mas é que meu repertório de cidades é baixo, desculpe. 
Ali perto existem diversas vinícolas, fábricas de queijo, fábricas de chocolate e bons restaurantes. E também a alguns poucos quilômetros ficam praias lindas. É um canto bem feliz da Austrália. 
Aliás o que eu chamo de Margaret River é uma região que engloba varias pequenas cidades e vilas, inclusive a própria cidade de Margaret River, como também Dunsborough e Yallingup (que visitamos). Passamos três dias por ali e: comemos sorvete, chocolate, degustamos vinho, fomos a uma feira de orgânicos, conhecemos praias absurdamente bonitas, escalamos rochas e nos divertimos muito. Apesar de tudo já mencionado, diria que o ponto alto das atividades foi assistir uma mulher que estava falando ao telefone e comendo pizza derrubar um teco da comida, colocar o pedaço de pizza no chão para pegar o que tinha caído, se levantar, pegar tudo do chão e sair comendo de novo. Uma lógica assustadora para os germofóbicos.
E assim foi nossa terceira e última road trip na Austrália. Todas foram incríveis e eu já escrevi sobre a mágica desse tipo de viagem. Essa foi especial pois acho que nunca tinha ficado tanto tempo na estrada (dirigindo) com apenas a Má. Até ao nosso carro nos apegamos, mas confesso que fiquei feliz de devolvê-lo e parar um pouco de dirigir. 
Voltamos para Perth no dia 25/03 e até o dia 06/04 ficamos em um Airbnb em um bairro um pouco afastado, só recarregando energias para enfrentar nossa próxima empreitada, um trekking no Nepal. 
Foram dias gostosos em que nós cozinhamos muito e estabelecemos uma rotina, algo quase impossível nessa vida de viajante. Foram também dias importantes para aprendermos varias coisas, mas eles não foram dos mais emocionantes, por isso não vou me alongar aqui sobre esse período.
Dois pontos de destaque porém: visitamos uma ilha belíssima que fica muito perto de Perth, a Rottnest Island. Lá é o lar de milhares de quokkas, o bicho mais figura que existe. Se você viu um quokka de perto já pode morrer feliz. E o outro ponto, conhecemos mais brasileiros gente boa, um casal que tinha acabado de se mudar para a cidade, e que (também) chamam Marina e Rafael. Eu quero me distanciar de pessoas, mas o universo fica colocando uma turma bacana no meu caminho. Mas ainda prefiro os quokkas.
E assim acabam os relatos da Austrália, um lugar que com certeza eu gostaria de chamar de casa por um tempo.
Sim, isso quer dizer que o próximo relato já será sobre o Nepal e nossa trilha até o Everest. 
Aguarde. E não morra até lá.
Beijos quentes.

Algumas fotos sobre o relato
Mapa itinerário
Mapa itinerário
Bumbum do nosso carrinho
Bumbum do nosso carrinho
Perfil do nosso carrinho
Perfil do nosso carrinho
Costa de Esperance
Costa de Esperance
Costa de Esperance
Costa de Esperance
Lucky Bay
Lucky Bay
Eu todo zen em uma rocha
Eu todo zen em uma rocha
Relaxando em Lucky Bay
Relaxando em Lucky Bay
Quokka, o ser definitivo
Quokka, o ser definitivo
Enquanto isso no passado
Enquanto você não estava olhando o blog foi atualizado de novo, dessa vez com um capítulo detalhado sobre o dia em que nos perdemos em um parque chinês e quando pegamos um trem lotado por 18 horas. Só coisa boa.
China 4 ou o capítulo dos “perdidos no parque” – Volta ao Mundo em 80 Socos
Indicações
Como o que mais fizemos durante essa road trip foi escutar o podcast Projeto Humanos e eu já indiquei ele por aqui (vai lá ouvir,caceta), minha indicação da vez é ser feliz. Vai lá. Tenta. Você não vai conseguir por muito tempo, a vida é um buraco negro especializado em sugar alegria, por isso aproveite enquanto pode. Beijos.
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