Volta ao Mundo em 80 Socos - Austrália e o capítulo da exploração oeste - parte 1

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Volta ao Mundo em 80 Socos

April 24 · Issue #7 · View online

Um casal meio perdido saiu por aí e agora está jogado pelo mundo. Relatos do mais desajustado da dupla.


Esse relato cobre os eventos de 3/3/2019 a 17/3/2019
E vejo que você, leitor, mais uma vez se desprendeu do limbo da existência para encontrar conforto nessa newsletter. Vou me esforçar ao máximo para não te decepcionar, mas já adianto, é melhor diminuir um pouco suas esperanças. Ou não, a nossa realidade anda tão sombria (principalmente no Brasil) que até esse amontoado de palavras vai te fazer bem.
Peço desculpas pela demora de um novo relato, mas é que eu estava fazendo uma trilha de 12 dias nos Himalaias. Isso mesmo, uma trilha passando pelos perigos da altitude, frio e gravidade. Se vocês não me chamarem de Indiana Jones brasileiro depois dessa eu não sei mais o que fazer. 
Mas aqui, por enquanto, estamos falando de calor, não de frio. Então segue o texto das nossas desventuras australianas.
O último relato terminou quando estávamos embarcando para Perth, no lado oeste da Austrália. E é desse ponto que vou continuar.
Fomos para WA (Western Australia) pois queríamos explorar um canto menos turístico e menos cheio desse país gigante. Pesquisamos um pouco e ouvimos de outras pessoas que esse é o lado mais selvagem e até mesmo mais bonito dessa ilha continental. Não posso confirmar que um lado é mais belo que o outro, mas que a parte ocidental é bem linda, isso é. 
Chegamos cedo em Perth, mas não deu para conhecer muito a cidade pois ficamos nos preparando para a nossa a viagem. Iríamos fazer mais uma road trip, essa muito mais longa que a que fizemos na Great Ocean Road, seriam 12 dias de estrada. O plano era ir de Perth até Exmouth (e voltar), que fica a cerca de 1200 kms ao norte. E foi o que fizemos. Claro, paramos muito pelo caminho, pois tem muita coisa bacana para ver. 
Para essa viagem decidimos alugar um carro confortável e comprar apetrechos de acampamento para ir parando nos inúmeros campings que existem por toda Austrália. Uma alternativa para isso seria alugar uma campervan, motorhome ou até mesmo trailer, mas essas são opções caras, mesmo que você economize com acomodações. Acredite, sai mais em conta alugar uma boa SUV e caçar lugares em conta para dormir. Claro, existe todo um estilo associado a uma campervan - é legal se sentir como o cara estranho da cidade que mora no carro e vende produtos de origem ilícita, mas só por alguns dias, uma viagem assim um pouco mais longa cansa. Essa foi uma vontade que matamos em nossa terceira road trip, mas isso é assunto para um próximo relato. 
E mais um ponto para termos escolhido um carro invés de uma campervan: não fizemos essa viagem sozinhos, pois o Paulo, um grande amigo de infância, veio do Brasil nos encontrar só para cair na estrada. Sim, foi um momento muito feliz receber alguém, nossa primeira “visita” na viagem, e nos sentimos extremamente queridos. E não é pouca coisa vir do Brasil pra Austrália, ficar uns 17 dias e voltar. Ou o Paulo gosta muito da gente ou ele não tem mais nenhum amigo. Acho que as duas opções são verdadeiras. Pelo menos nós também gostamos muito dele.
Enfim, o dia que chegamos em Perth (02/03) foi um dia de preparativos e espera, pois pegamos o Paulo no aeroporto apenas ao fim da tarde. E ali já começaram as provações que ele iria enfrentar. Como passaríamos apenas uma noite m Perth, reservamos um hostel bem fuleira. Eu e a Marina estamos acostumados com esse tipo de acomodação, são quase 8 meses viajando por aí, mas o Paulo era/é menos familiarizado com perrengues da estrada. E vou ser justo agora, não era um hostel dos mais legais que já vi. Aliás foi o em que senti a energia mais estranha - nunca a frase “festa estranha com gente esquisita” fez tanto sentido, mesmo que não existisse festa nenhuma, só a “gente esquisita”. Quase conseguimos ficar sozinhos em um quarto, mas acabamos com um único companheiro, um senhor inglês de pouca higiene e adepto ao caos. Uma figura peculiar, mas bem gente boa. Tinha umas boas histórias, quando dava para entender o que ele falava. Eu, por exemplo, entendia 63,2% do que saia da boca dele.
Foi uma noite estranha para nosso amigo.
A primeira provação passou e logo cedo embarcamos na nossa road trip. Saímos dirigindo ao norte sempre seguindo a costa, e como era fim de semana seguido de feriado, coisa que só descobrimos depois, as estradas perto de Perth estavam bem cheias. Cruzamos com milhares de trailers e SUVs preparadas para acampar, incrível como essa cultura é forte na Austrália. Todo lugar tem camping e todo mundo sabe montar uma barraca em menos de 1 minuto. Acho que você não pode se considerar parte da WA se não souber acampar. 
Mas eles estão certos em querer essa comunhão com a natureza, pois lá é maravilhoso demais. Não vou entrar em detalhes do que fizemos a cada dia (colocarei um itinerário abaixo, para os que tiverem paciência), mas passamos por uma mistura maluca de praia, com deserto e bush (a vegetação local) que nos deixou boquiabertos. Na altura de Perth a vegetação já é bem rasteira e alaranjada pela poeira, mas isso só se intensifica ao ir para o norte e em Exmouth o deserto toma conta do horizonte e parece que estamos dirigindo no interior do país, até que o mar resolve aparecer na paisagem. É muito maluco, ainda mais para nós que estamos acostumados com uma costa cheia de vegetação como o Brasil. 
Passamos por praias lindas, que poderiam inclusive rivalizar com algumas das Filipinas. Locais de prática de wind surf, praias com o chão formado só por conchas brancas, praias que são berçários de tubarões, praias de água turquesa e com muitos corais e vida marinha. Passamos também por lagoas salgadas e quentes, por um lago rosa e um local de nascimento de tartarugas. Também conhecemos o deserto e suas magias, como os antiquíssimos paredões de pedra de Kalbarri e as estranhas formações rochosas dos Pinnacles, um cenário digno de filme de ficção. Cruzamos cidades minúsculas, uma de 190 habitantes, e em alguns momentos ficávamos muito tempo sem encontrar outro ser vivo na estrada. Vimos alguns cangurus vivos e muitos mortos, pois infelizmente são atropelados aos montes - por isso não dirigíamos após o escurecer. Bebemos nossa cota de (boas) cervejas locais e fizemos vários churrascos, inclusive porque lá na Austrália existem diversas churrasqueiras públicas espalhadas por espaços como praias e parques. É só chegar, usar, e manter a ordem. 
Vimos também uma boa quantidade de pores do sol inesquecíveis, daqueles que deixam o céu todo cor de rosa. Muita coisa aconteceu em cerca de 12 dias.
E eu posso ficar até 2020 escrevendo sobre o que vimos ou não, mas acho que as fotos cumprem melhor esse papel. O mais legal dessa experiência toda foi, apesar dos lugares maravilhosos que visitamos, a estrada. Existe uma magia em road trips que é difícil explicar. Você parece mais integrado ao ambiente, é mais fácil ir observando as mudanças ao longo do caminho e existe uma incrível sensação de liberdade de poder fazer o que quiser. Quer virar ali para ver aonde vai dar? Bora. Quer parar pra tirar foto? Fácil. Quer enfiar o carro na areia e dar uns cavalinhos de pau? Não recomendo, mas pode fazer. 
Vento na cara, mão no volante e flexibilidade para fazer o que der na telha criam uma combinação muito sedutora. 
E tem mais, a road trip gera conversas e camaradagem. Afinal são pessoas “presas” no mesmo espaço por muito tempo, e tem muita coisa que pode dar errado, mas quando a sintonia é boa, tudo fica mais interessante. 
Claro, como uma hora a conversa pode azedar eu me precavi e prepararei uma playlist com o melhor dos anos 90 e 2000 (e um tiquinho dos anos 80) para levantar o astral dos meus companheiros. Posso estar exagerando, mas acho que fui o herói dessa viagem e mantive a sanidade de todos com essas músicas. Tem KLB, Backstreet Boys, Pitty, CPM 22, Latino, Kelly Key e Avril Lavigne. Não tinha como dar errado.
Por isso fica aqui o recado, uma boa road trip precisa de uma boa playlist, vou deixar pública essa que criei no Spotify e colocar o link mais abaixo. De nada. 
Ufa, foram mais de 2400 kms rodados e muita experiência bacana, mas vou destacar apenas duas para não alongar ainda mais esse relato.
A primeira aconteceu em Coral Bay, uma cidade já bem ao norte e muito pequena (essa que tem 190 habitantes, de acordo com o Censu de 2006). Tinha acabado de começar a temporada de nado com tubarões baleia e resolvemos não deixar essa oportunidade passar. Nas Filipinas existe um local em que se pode nadar com o maior peixe do oceano, pagando muito menos inclusive, mas não nos interessou participar, pois lá os tubarões são alimentados todos os dias e parecem semi domesticados. Agora, na Austrália, o negócio seria muito mais integrado com a passagem do tubarão por aquelas águas, muito menos invasivo e muito, mas muito mais caro. Acho que essa é uma das poucas vezes que vou escrever isso na vida, mas fiquei feliz de ter pagado. Todo o esquema é muito profissional e as pessoas super treinadas - um grupo pequeno de turistas pega o barco e faz uns snorkels enquanto um aviãozinho procura pelos tubarões e, assim que os avista, avisa a equipe da embarcação. Todo o processo é bem rápido e, na minha opinião, cheio de adrenalina. Nós, turistas, assim que o bicho é visto, recebemos um briefing rápido de como se portar na água, nos separamos em dois grupos e já ficamos a postos na parte traseira do barco para cair na água. Assim que o guia diz “vai” pulamos todos no mar e nadamos igual loucos, até que uma hora ele surge. 
O tubarão baleia passa por nós como se não fôssemos nada, um ser do tamanho de um micro-ônibus nadando com toda sua graciosidade e ignorando nós, os estranhos. Por um momento conseguimos acompanhá-lo, ficando ao seu lado e é incrível. Não dá para descrever a sensação de estar ali com um bicho tão majestoso, como se fôssemos colegas nadando juntos. É o sentimento de voltarmos às raizes ali naquele oceano gigante, de sermos novamente parte daquilo tudo. Maluco demais e, para mim, uma das experiências mais incríveis da viagem toda. Para melhorar tudo claro que eu passei uma vergonha, pois o processo contínuo de “caçar” o tubarão (pular no mar, subir no barco, se preparar de novo, ficar na parte traseira do barco esperando, pular no mar, subir no barco e etc…) me causou um sério enjoo, ainda mais porque ficávamos respirando aquele cheiro de diesel do motor o tempo todo. Dessa vez fui eu quem acabei vomitando, não uma, mas duas vezes. Talvez alguém tenha visto, não sei, mas foram regurgitadas consideráveis. Gosto de pensar que fiz minha parte para atrair o tubarão baleia para perto da lancha. 
E nesse dia, além disso tudo que já escrevi, ainda fizemos snorkel com tubarões “normais” e vimos tartarugas e baleias passando por nós. Pensa em um dia especial. 
A segunda experiência que gostaria de comentar foi quando resolvemos acampar no meio do nada em um camping perdido entre o mar e o deserto chamado Gladstone. O rastro de civilização mais perto do local era um pequeno posto de gasolina comandado por um casal de velhinhos que ficava a uns 18 km de distância. 
O lugar ficava bem à beira mar, em uma praia revolta com apenas um pontão quebrado que alguns malucos usam para pescaria. Chegamos no fim da tarde e estava praticamente vazio, apenas nós e mais uns dois ou três grupos de pessoas. Como a área de camping é vasta, ficamos bem isolados de todo mundo. Pelo terreno vimos alguns trailers antigos trancados, meio que abandonados. O deserto melancólico atrás de nós, o mar selvagem à frente e uns trailers misteriosos ali com a gente criaram um clima de filme de terror -eu estava crente que alguma hora uma família de caipiras canibais iria se esgueirar até nosso acampamento e tentar massacrar todo mundo. Fico feliz que isso não tenha acontecido, mas digo também que estou preparado para esse tipo de cenário, então podem se acalmar os leitores mais aflitos. 
Mas estar longe de tudo foi bem bacana. Quer dizer, seria ideal caso fôssemos preparados e experientes, coisa que não éramos. Para começar nem fogareiro ou algo do tipo tínhamos, pois vimos pelo nosso app que o camping tinha churrasqueira, o que acabou sendo uma mentira. Tivemos que improvisar uma fogueira, algo que agora eu me dou conta que é ilegal fazer por aquelas bandas, e nem fósforo ou combustível havia por lá. Enquanto fui correndo até o posto ver o que dava pra arranjar, o Paulo conseguiu usar a pederneira da minha faca e acender a fogueira com uns jornais velhos e madeira seca. Voltei e descobri ele comemorando o feito como um homem das cavernas que acabou de descobrir o fogo. Coletamos mais madeira seca dos arbustos em volta (mais um ato ilegal nosso) e improvisamos uma grelha em um pedaço sujo de ferro que achamos no chão. Enquanto isso a Marina mostrou que já pode ser considerada australiana e montou as barracas em menos de 1 minuto. 
Foi uma noite de improvisos, churrasco com carne suja (caiu no carvão diversas vezes), cerveja quente e KLB no som. Deu tudo tão errado que deu certo, e sujos, suados e queimados nos divertimos muito. Lá foi também onde vimos o pôr do sol mais bonito da Austrália. Toda vez que estamos passando um perrengue um pôr do sol bonito aparece, acho que é um jeito do universo de apaziguar as coisas. 
E o melhor da noite foi na hora de dormir, em que descobrimos que nosso convidado Paulo não cabia na barraca em que compramos (e ele tinha uma só pra ele, eu e a Má estávamos compartilhando outra). Ele resmungava e se debatia lá dentro, como um animal bêbado e enjaulado. Eu não conseguia parar de rir ao ver os pés dele sobrarem pra fora da tenda. Acho que se eu estivesse um pouco mais sóbrio sentiria pena. Aposto que ele ficou com saudades do hostel esquisito. 
Foi um dia estranho e diferente, mas especial a sua maneira. Hoje me dou conta que cometemos algumas ilegalidades, coisa que eu não faria de novo, mas na hora estávamos lutando pela nossa sobrevivência, então está valendo. Fico feliz de não ter começado um incêndio imenso. 
Bom, se alguém quiser saber mais dessa nossa jornada recomendo o perfil da Má: @sejogaai - lá dá para ver bem por tudo que passamos. Eu já cansei de escrever, então o capítulo está quase no fim. O que resta dizer é que voltamos para Perth e ficamos alguns dias em um Airbnb até o Paulo ir embora e até começarmos outra road trip, dessa vez só eu e a Marina. Em Perth fizemos o que fazemos de melhor, fomos à praia, fizemos churrasco e bebemos umas cervejas diferentes. Baita cidade legal também. 
Vou tentar adiantar bastante as coisas e deixar a newsletter em sincronia com nossa viagem, está quase lá! 
Espero que vocês fiquem bem e que ninguém precise passar por uma lavagem estomacal essa semana.
Beijos Quentes.

Algumas fotos sobre o relato
Tente entender nosso itinerário
Tente entender nosso itinerário
Pinnacles - baita visual
Pinnacles - baita visual
Paisagens pelo caminho
Paisagens pelo caminho
Pink Lake (Hutt Lagoon)
Pink Lake (Hutt Lagoon)
Blowholes
Blowholes
Coral Bay 1
Coral Bay 1
Coral Bay 2
Coral Bay 2
Preparação para ver o tubarão baleia
Preparação para ver o tubarão baleia
Nosso amigo (ou amiga)
Nosso amigo (ou amiga)
Outro amigo (ou amiga)
Outro amigo (ou amiga)
As barracas da discórdia
As barracas da discórdia
Nossa fogueira em Gladstone
Nossa fogueira em Gladstone
Pôr do sol em Gladstone
Pôr do sol em Gladstone
Shark Bay
Shark Bay
Kalbarri
Kalbarri
O que mais vimos nessa viagem
O que mais vimos nessa viagem
Playlist do Amor
Eu disse que iria compartilhar a nossa playlist, por isso tá aqui o link. Pode se esbaldar nesse poço de sucessos:
Road Trip do Amor, a playlist by rafael.arrigoni on Spotify
Indicações
Enquanto esperávamos o Paulo chegar em Perth matamos o tempo indo ao cinema. Assistimos a nova animação do Homem-Aranha, o Aranhaverso, e é demais. Leve seus filhos, sobrinhos, colegas e parceiros para ver essa obra. E se você não gosta de animações, bom, eu só lamento pela sua vida triste e sem graça:
SPIDER-MAN: INTO THE SPIDER-VERSE - Official Trailer #2 (HD)
E hoje temos duas indicações. A segunda é uma música que está na playlist, mas merece destaque. É a versão brasileiro de Angels. Ela se chama “Um Anjo” e é uma performance tocante dos nossos amigos do KLB. Consegue ser pior que a original, por isso é melhor. Vale o play.
KLB - Um Anjo (Angels)
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