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Volta ao Mundo em 80 Socos - A volta dos que não foram

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Volta ao Mundo em 80 Socos

December 23 · Issue #25 · View online

Um casal meio perdido saiu por aí e agora está jogado pelo mundo. Relatos do mais desajustado da dupla.


Olá, companheiros e companheiras das sombras.
Escrevo mais uma vez acompanhado do bolor agourento que habita o fundo do poço escuro. Sim, esse é um capítulo especialmente soturno, até para meus padrões, pois é a última atualização desta newsletter. Ela vai acabar, como tudo na vida. É melhor que as coisas cheguem logo ao fim, o encontro com o verme primordial é o maior evento na existência de qualquer ser (?) e eu já estava prolongando esse sofrimento além da conta. A newsletter respirava por aparelhos e eu estou agora puxando todos fios possíveis da tomada. 
Nem sei quanto tempo faz que não atualizo esse humilde canal de comunicação, peço desculpas, pois a tempestade do dia a dia é complicada de se navegar. Agora com o recesso de fim de ano estou em portos mais tranquilos e novamente tenho tempo para pensar e escrever umas besteiras. 
Na última e longínqua atualização eu descrevi a última parte de nossa viagem grega, com a visita ilustre de Vera Miguel na terra do Minotauro. 
Saímos do ensolarado mediterrâneo para a sempre misteriosa e enevoada Londres. O plano era visitar alguns amigos queridos antes de voltarmos para o Brasil. Sim, isso mesmo, já tínhamos traçado o plano de pisar em solo tupiniquim desde nossa viagem de carro pela Turquia. A Marina foi acometida pelo mal da saudade e do desejo de começar uma vida nova, eu, sempre teimoso, insisti em continuar a jornada de aventuras e brigas pelo mundo. No fim chegamos a um acordo no meio do caminho: em Agosto iríamos para o Brasil por um mês e depois partiríamos para a África, para a pernada final da viagem. A Europa (de forma mais completa) foi riscada dos projetos, afinal ninguém estava a fim de vender o corpo para continuar a aventura. 
Resumindo, a ideia era passar uma semana em Londres, visitar amigos, beber, partir para o Brasil e depois partir para a África, arranjar mais brigas (possivelmente com um leão), fazer amizades, beber, descobrir uma cidade perdida e depois, quem sabe, voltar para o Brasil como os maiores aventureiros vivos. 
Não deu nada certo. 
Mentira. O plano deu parcialmente certo.
De fato fomos para Londres, ficamos abrigados na casa de amigos, descansamos, bebemos, comemos e nos divertimos demais. Se tem uma coisa que essa viagem me ensinou foi a valorizar os encontros com pessoas queridas e fico feliz de ter visto um pessoal que é raro pelas bandas das Américas. Inclusive fica aqui o meu agradecimento pelo melhor acolhimento possível. Não vou entrar em detalhes sobre as peripécias inglesas porque elas envolvem risadas inebriadas e piadas internas, ou seja, você teria que estar lá para apreciar. A cidade é incrível, mas melhor do que eu descrever para vocês é assistir Velozes e Furiosos 6 (um dos melhores da franquia), que apresenta Londres de forma estupenda. Não mostra os grandes museus, as charmosas feiras de rua ou os milhares de programas interessantes que existem nessa metrópole cosmopolita, mas mostra uns baita carrões acelerando perto daquela roda-gigante pega turista trouxa. Assista. 
E eis que após a curtição chegou a hora de voltar. Claro que antes de pisar no Brasil não poderíamos deixar de nos enfiarmos em mais um “perrengue transportacional”. Acompanhe só o rôle. Saímos de Londres dia 31 de Julho às 16 horas. Pegamos um ônibus até Genebra e por isso atravessamos a França inteira durante a madrugada. Chegamos na Suíça lá pelas 11 horas da manhã. Esperamos um pouco e aí às 15 horas do dia 1 de Agosto pegamos um avião sabe para onde? Isso mesmo. Londres. Voltamos para onde estávamos, esperamos mais umas boas horas e aí sim, lá pelas 22 horas, embarcamos pro Brasil. Oras, para que fazer tudo isso? Porque o voo saía bem mais em conta dessa forma, não me pergunte a razão. Nós só seguimos o fluxo maluco do capitalismo aéreo. 
E foi assim que no dia 2 de Agosto pisamos no Brasil de novo. Mas por pouco tempo, certo?
Não. Foi nesse ponto que nosso plano ruiu. A nossa ponte brasileira foi engolida por um tsunami de sensações e sentimentos e, para resumir uma fase bem atribulada dessa jornada, acabamos ficando por aqui. A África tornou-se um sonho febril para dias futuros que talvez nunca cheguem, mais um objetivo que morreu e virou estrelinha na constelação das ideias que não aconteceram. Quem quiser entender melhor os motivos dessa mudança toda pode acompanhar o Instagram da Má (@sejogaai), não vou entrar nesses detalhes aqui, senão o texto ficará maior do que a paciência de vocês.
Tentamos também fazer uma jornada pelo Brasil (para compensar a África), que foi um fracasso parcial. Viajamos por mais ou menos duas semanas, passamos por lugares incríveis, mas não atingimos nenhum dos nossos grandes objetivos e então tivemos que voltar. Se pensarmos bem tudo na vida é um fracasso parcial, esse foi só mais um.
Posso falar, no entanto, sobre como é voltar. Vou resumir, porque eu tinha escrito um desabafo de mais de 2 mil palavras, mas é Natal e sei que todo mundo tem uma tia(o) louca(o) para aguentar, então já basta ela(e). 
A volta é foda.
Não no começo, nem no final, nem no meio. É foda de um jeito diferente. É bom. Mas é foda.
É uma onda de alegria. Tem a surpresa e o sorriso das pessoas que te amam e a certeza de que alguém ainda gosta de você (será?). Mas aos poucos, como um ser rastejante no escuro, a dúvida vem. E a dúvida, nesse caso, é uma grande enfermidade. É a doença de chagas da alma. 
Foi o sentimento mais agridoce que já senti. Nunca me senti tão em casa e tão deslocado ao mesmo tempo.
A dúvida coloca em cheque a volta. Não o ato de pisar de novo no país e na cidade natal, mas a volta verdadeira, a volta que começa quando você sente o calor claustrofóbico do abraço da rotina e das pulgas infernais que pulam em você a partir desse contato desconfortável. A falta de dinheiro, a pressão para um emprego decente, o caminho esperado. Afinal você já desperdiçou um tempo da sua vida né? Melhor colocar tudo nos trilhos agora. Mas também tempo é o que não falta, o que são alguns meses de rebeldia calculada frente décadas regradas. Nada. Assim como foi também o ato de escapar. Será que não foi nada? Será que no fundo os revoltados de boutique foram recolocados na colossal esteira da inexorável produção em massa que rege nossas vidas com a mesma facilidade que um homem faminto abre a geladeira na madrugada? Sim e não. Lembro que pensei nisso quando, em uma festa, disse para um amigo que também gostaria de viajar que “um ou dois anos não são nada perto de uma carreira longa”. Na hora eu falei como algo positivo e encorajador, mas depois a ferida da dúvida começou a infeccionar. Será que existia algum valor no que tínhamos feito se depois de tudo poderíamos ser engolidos de novo pelos mesmos monstros que lutamos para escapar?
Enfim, é mais ou menos assim que a dúvida começa a atacar. Fazendo você questionar o valor das suas experiências, fazendo você se comparar com outros e fazendo você se sentir inseguro sobre qualquer decisão, seja ela referente a sair por aí ou não. 
Mas no fundo é claro que o que foi feito tem seu valor. Trouxemos conosco uma série de aprendizados e experiências que nem a rotina mais insossa pode apagar (espero muito). A vida não se mede só por quem se acha mais rebelde ou desalinhado, afinal o que é se desalinhar dos caminhos esperados? No fundo somos todos escravos de alguma coisa, não importa o quão desconectado e desapegado você seja. A gente gosta de se enganar. 
Então acho sim que tudo o que fizemos teve algum (muito) valor e o negócio agora é tentar moldar o mínimo a rotina para um caminho que nos interesse mais e esteja mais alinhado com os aprendizados da jornada. Mas é custoso entender esse sentimento. Isso é. Eu passei essas últimas linhas todas tentando me convencer disso.
O negócio é ficar em paz. Ou ser sempre incomodado. O meio termo não dá. Dá sim para entender que a felicidade (se existe), essa, não tem mesmo um percurso claro. Não precisamos fazer isso ou aquilo ou aquilo lá. Não digo para ninguém se conformar com uma vida merda ou nada dessas baboseiras (ser conformado é uma bosta), mas só para ter certeza que suas decisões refletem o que você quer. Só faça algo. De uma forma ou de outra todo mundo é otário. Melhor ser um otário (parcialmente) feliz.
Confuso né? Oras, essa volta é confusa.
E olha que eu abordei só uma das grandes aflições que o fim da jornada proporciona. Ninguém merece escutar (ler) mais sobre isso.
Feliz Natal
Beijos Quentes

Um aviso importante
A newsletter acabou mas o blog continua capenga e forte. Vou atualizar os posts lá até terminar de falar sobre a viagem. Lembrando que lá o negócio é mais caprichado e os textos sempre ganham um banho de loja, então vale a pena conferir. Está desatualizado agora, mas espero voltar com gás total até 2020.
Volta ao Mundo em 80 Socos – Uma viagem. Um monte de erros.
Algumas fotos sobre o relato
Sem foto. Ninguém tem tempo para foto. A turma gosta mesmo é de ler.
Indicações
Nada como terminar a newsletter com a indicação de uma das grandes obras do século 21 no cinema. Só assista e permita-se sentir.
Fast & Furious 6 Official Trailer #1 (2013) - Vin Diesel Movie HD
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