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( aperte o alt ) - "Su Filindeu" • Edição Nº18

Renato Alt
Renato Alt
Su Filindeu
Ele se orgulhava do seu pesto, e era para se orgulhar mesmo, e por isso sempre fazia mistério quando, todo quarto domingo do mês (ou quinto, fosse o caso), punha-se cozinha adentro para sua alquimia.
Ainda que tenha envelhecido junto com meu avô, fazendo da relação empregado-patrão uma coisa da qual a nenhum dos dois sequer se lembrava, ainda chamavam-se de “senhor” e de “rapaz”, porque já não sabiam mais como chamar um ao outro à essas alturas, e com isso faziam todo mundo rir: era desse jeito que também discutiam, como se o mundo fosse acabar, durante as infindáveis partidas de xadrez. Meu avô respeitava os domínios do seu amigo-filho-empregado, e sua soberania diante das caçarolas e do fogão à lenha - que, para ele, era indispensável.
Logo pela manhã, então, ia lá o alquimista à feira, para buscar nozes e manjericão e pecorino (que fazia questão de ralar ele mesmo), cada um de um mesmo lugar de sempre. Voltava de sacolas cheias, e se embrenhava na cozinha, onde não havia santo que o fizesse dar pistas sobre a técnica que desenvolvera para conseguir, ele mesmo, produzir o azeite que dizia ser a alma da sua criação, “da mesma forma que todo azeite é alma de toda a culinária”, como sempre repetia, enquanto saboreava os pedaços de ciabatta que passavam pela mistura do tal azeite com pimenta do reino e vinagre balsâmico.
Mas era meu avô quem escolhia o vinho.
Éramos muitos nessas tardes domingueiras, e lá se iam uns tantos litros, e à tardinha todos já riam de qualquer piada e ficavam mais faladores e barulhentos do que nos lembrávamos. Muitas das mulheres reclamavam de alguma inconveniência, mas ao mesmo tempo, se divertiam lembrando daquelas outras de quatro (ou cinco, fosse o caso) domingos atrás. Essa era sempre a hora em que alguém começava a lembrar de passagens da infância de cada um de nós, mais novos, para nosso constrangimento: a gente estava naquela idade em que as primas começam a parecer, digamos, com mais curvas e cores, que é quando queremos que também elas nos vejam assim; mas nós ainda usávamos calças curtas, e nosso limitado repertório de flerte (se é que havia um) nos dava pouco ou nenhum raio de ação: ainda hoje tenho a convicção de que só as meninas amadurecem: nós, meninos, nos limitamos a crescer e envelhecer.
A imensa mesa de madeira era colocada no quintal e sobre ela jogavam uma toalha tão antiga quanto a família. Todo mundo já sabia o que fazer: logo estavam presos os cães e preparada a lona para uma eventual chuva súbita, coisa que não raro acontecia ali; os quartos estavam devidamente arrumados e suspirosos, esperando por seus cantores ébrios e piadistas incontroláveis: naquele dia ninguém pegaria a estrada, mesmo porque o rancho era tão isolado que qualquer problema no caminho para a cidade acabaria mesmo tendo de esperar pela manhã seguinte, ou ainda pela outra, para encontrar solução.
O sol era sempre o de um verão à tarde. O campo era sempre dourado, a brisa sempre morna e leve: em seus ventos, carregava partículas que brilhavam como purpurina. Em algum momento todos concordaram, mesmo sem dizer palavra, que ninguém usaria qualquer cor escura nesses encontros: todos vestíamos branco, ou bege - sabendo que bege é um estado de espírito - ou azul ou amarelo ou verde, ou ainda o multicolorido avental que o “rapaz” acabava por ostentar quando, saindo da cozinha, trazia a travessa: o cheiro do molho que reluzia verde, mal saído do pilão, vinha à frente, anunciando sua chegada.
E havia aplausos quando ele chegava.
O rapaz sentava-se ao lado do meu avô: ele, na cabeceira. Fazia questão de servir um a um. Não havia pressa, porque havia apetite e havia histórias. Porque havia vinho, e pessoas. Porque havia a cassata de frutas vermelhas, que já estava cansada de descansar na geladeira, e que desaparecia tão logo era vista, como se nunca houvesse existido.
Ficavam uns pela mesa, outros caminhavam um pouco para ver como estava o rancho e assim sugerir melhorias que raramente eram feitas - tudo estava bom do jeito que estava, desde sempre. As crianças - nós - corriam descalças ou se revezavam na bicicleta, ou brincavam com os cães, ou ainda com a enorme tina de água que, um pouco mais à frente, perto dos silos, se exibia, convidativa.
E de repente, sempre mais cedo do que devia, o sol se punha.
Era mais um fim de tarde, de mais um quarto domingo - ou quinto, fosse o caso-, de um ano perdido na memória.
Enquanto você ainda tá aqui, vai lá.
REFRESCOS | Revue
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Renato Alt
Renato Alt @aperteoalt

Porque tem horas em que a gente precisa dar uma escapada.

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