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( aperte o alt ) • "Sazão" - Edição Nº22

Renato Alt
Renato Alt
Sazão
Quando o dia começava assim, como o de hoje, ela já sabia; e sentia, de uma vez só, tudo o que lhe aconteceria.
Há não tanto tempo mudara para aquela imensidão gelada, e ainda se flagrava surpresa quando, pela janela, via o punhado de árvores pontuando, aqui e ali, todo o campo coberto de neve que, no horizonte, confundia-se com o céu cinzento.
Não havia aquecimento ali, mas era assim mesmo que ela queria. Nada de eletricidade: o calor que aquecia o ambiente vinha de um velho forno à lenha, bem no meio da cabana de madeira, e o restante de luz que havia por ali, emanava de um lampião.
E foi ele, o lampião, encontrado repousando em uma caixa que pertencera à avó, o que encheu de sentido uma idéia romântica de autossuficiência, de simplicidade, de querer menos; ah, sempre quisera tanto mais, e buscara tanto mais, e trabalhara por tanto mais! Mas esse achado, pertencente a um tempo onde havia mais pessoas e menos coisas, mais apertos de mãos e menos e-mails, trouxe uma onda avassaladora de desapego e de cansaço, fez vir sobre ela uma urgência de fuga, de desaparecimento, de estar apenas consigo mesma.
Lembrou da cabana de caça construída e esquecida. Se pudesse, nem mesmo teria usado o carro para chegar até lá. De qualquer maneira, já não importava mais: ele estava coberto pelo mesmo manto branco, como se fosse um pedregulho qualquer; manto silencioso e cúmplice, que parecia simplesmente abraçá-la por inteiro, e compreendê-la, e respeitá-la.
Com um sorriso, mantinha juntas as mãos dentro de luvas, e o gorro, e a manta enrolada ao corpo; sobre a cama, Salinger e Caufield descansavam um pouco da sua narrativa, enquanto a madeira estalava, cuidadosa para não despertá-los, deixando-se consumir pelo fogo que fervia a água para o chá.
Mas ele, o chá, ciente das suas responsabilidades, trouxe os três de volta, quando pediu à chaleira que assoviasse educadamente e distribuísse no ar o cheiro de erva-mate.
E foi ela novamente para a cama, para o chá, e para si, sem pressa para voltar.
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Renato Alt
Renato Alt @aperteoalt

Porque tem horas em que a gente precisa dar uma escapada.

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