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( aperte o alt ) "Ojos" • Edição Nº33

Renato Alt
Renato Alt
Ojos
Naquela casa há uma porta, no segundo andar, que não dá pra lugar nenhum. Mas se ficar entreaberta, um tiquinho que seja, a luz foge de lá.
Ali em volta, brotam sombras e sussurros: “o que é? O que é?”
Já eu, andando por lá, passo ao largo, mesmo sendo um corredor estreito pra caramba, e abarrotado de fotos de família e de sonhos. Cada criança naquela parede me pergunta: “o que vou ser quando crescer?”
Essas crianças já não estão por aqui faz muito tempo.
Já eu, bem, eu sou nada, não cresci. Mas cresceu o que há em mim, essa coisa sem nome ou propósito claro; uma grande reserva estratégica, talvez. É esse o meu caminho? Talvez ser quem não sou, à luz da ribalta? Escrevo aqui minha pretensão, exponho a tensão, entenderão o que penso? O quanto importa? Se falo de sentido, se não exponho sentido, é a alma que me dá razão:
“Na batalha, na floresta, nos precipícios das montanhas; No grande e escuro oceano, entre dardos e flechas; No sono, na confusão, nas profundezas da vergonha: as boas ações que um homem realizou no passado… elas o defendem.”
É de onde surgem os gemidos, o vinho seco e as noites sem dormir. A respiração ofegante chama pelo nome dela, que é também o nome do vinho: fora feita um Merlot por um autor de meia-idade, que conheceu nessas coisas que a vida apronta. Ela, metade espanhola, nunca entendeu tornar-se vinho francês, naquele texto mexicano. Nós dois rimos muito quando a lemos ali, como se fosse uma microbiografia instantânea.
Hoje, parece ter sido há um tanto de vidas atrás; ou, ao menos, de personalidades. Ou, ao menos, de diálogos, quando esses existiam, antes que essa névoa pesada, feita de nada, chegasse para esmagar a amizade de tanto tempo, sem nem ao menos deixar escapar o motivo. A noite é longa, menina, e ainda que você me arraste por cada segundo dela, a manhã vai chegar.
Mesmo que não seja, ainda, a próxima.
Mesmo que você insista em se alojar nos meus pensamentos, sem me deixar mandá-la embora.
*Nota: o texto em destaque, entre aspas, foi extraído da Bhagavad Gita.
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Renato Alt
Renato Alt @aperteoalt

Porque tem horas em que a gente precisa dar uma escapada.

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