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( aperte o alt ) "Augure" • Edição Nº28

Renato Alt
Renato Alt
Augure
Quando veio a noite - não a noite de todo mundo, dessas com televisão e jantar e cores e conversas e pequenos desleixos e filmes tardios - mas a noite onde tudo isso já se foi, quando os postes iluminam, preguiçosos, não mais do que a calçada, quando o som distante de um carro corta o silêncio, quando os pensamentos fazem pesar a cabeça; quando veio a noite, essa noite, ele viu a si mesmo.
E era só ele, e o chão de madeira, e o cheiro de umidade e de bolor, e a luz de um néon, ruidoso e reclamão, piscando para ninguém o aviso de que o bar seguia aberto. Quando veio a noite, essa noite, enfim eram só ele e uma ou duas caixas de papelão, com tudo e com nada dentro delas: velhas fotografias, revistas que não sabia por que guardava, um brinquedo que trazia desde a infância, um porta-retrato cuja foto fora, uma eternidade antes, rasgada em um momento de raiva.
Quando veio essa noite, quando em sua sala havia apenas uma ou duas caixas de papelão com tudo e com nada dentro, e a madeira cheirando a umidade e a bolor, e o ruído do néon e a luz dos postes que iluminavam apenas a calçada, ele se viu, enfim, como estava: em um lugar onde não havia braço que o alcançasse, onde não havia telefonema que lhe acalmasse, onde não havia bebida que lhe pudesse afogar a angústia.
Nessa noite, viu esquecida, em seu novo quarto, uma velha mesa de dobrar, há muito deixada de lado, e uma cadeira recostada havia tanto tempo que já deixava marcas na parede. Da bolsa nos ombros tirou o caderno de couro, que comprara em dias felizes em Covent Garden, uma vida inteira antes, quando nada importava: dinheiro, emprego, ideias. Tinham um ao outro, de que mais precisava?
Puxou a cadeira do seu descanso junto à parede. Puxou lápis e apontador (não gostava de canetas; as achava definitivas demais), e suspirou, olhando para o escuro do cômodo à frente.
Era essa, afinal, a companhia que lhe restava. E que via, agora, ser a única sempre presente, a única com que sempre pôde contar.
Em um fôlego, pôs-se a escrever.
E deixaria, naquelas páginas, também seu último.
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Renato Alt
Renato Alt @aperteoalt

Porque tem horas em que a gente precisa dar uma escapada.

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