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"A." • ( aperte o alt ) - Edição Nº8

( aperte o alt ) - Renato Alt
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O autor da carta postada (aqui) semana passada, recebe sua resposta.

A.
21 de maio
Nenhum dia é mais belo do que aquele em que minhas mãos seguram palavras tuas.
Me angustiam os dias de silêncio. Me angustia esse teu estar não-sei-onde, sujeito a homens e aos humores da natureza. Me angustia imaginar o que pode ter acontecido no minuto seguinte ao adeus em tua carta, e ainda mais a idéia de que esta, que ora escrevo, possa não chegar-te às mãos. Me angustia tua busca incessante, me angustia esta sociedade que te impõe sua versão de sucesso, me angustia que eu mesma não tenha impedido tua partida com todas as minhas forças, me angustia o monstruoso nascimento das milhas entre nós. Me angustia não poder ver teus olhos, e me angustia saber que qualquer frase que eu diga agora levará ainda tantas cavalgadas para se fazer ouvir por ti.
Peço perdão pelo desabafo, mas as palavras se impuseram, exigindo-me liberdade. Não quero que o que digo esmoreça tuas mãos ou teu espírito: é apenas a voz de quem sente tua falta mais do que poderia compreender.
O tempo arrasta-se numa lentidão impossível, e temo que minha lucidez desvaneça a cada pôr-do-sol. Flagro-me olhando pela janela, a que fica em frente à Rua Principal, na esperança de a qualquer momento ver-te caminhando em minha direção; mesmo sabendo eu que ainda se irão muitos dias até que isso aconteça. Não fico em paz se me ausento por mais de dez minutos, temendo não estar à porta para receber-te, para tirar a poeira do teu rosto e a saudade do coração.
Hoje tivemos uma tarde de sol inclemente, mas a noite trouxe chuva, e ela permitiu sentir-me mais próxima a ti. Sinto agora o cheiro da terra molhada, e conforta-me saber que é o mesmo que tu sentes quando chove também sobre teus dias.
Minha ansiedade por enviar-te logo algumas letras fez-me sair correndo ao encontro de Henrieta, com teu recado. Tempos atrás ela procurou-me, quase aos prantos, pedindo notícias tuas, dizendo não compreender a si mesma, punindo-se por ter agido como agiu. Na ocasião eu a confortei, antecipando o que tu dirias. Sei com que homem casei. Mas, para ela, ver tua caligrafia perdoando-a foi como ter devolvidos vinte anos de vida.
O que disseste sobre Daniel me entristece, mas não surpreende: nele havia apenas o romantismo da aventura. Não hei de estranhar se bater brevemente à nossa porta, munido de alguma história incrível e rica em detalhes para justificar sua deserção. Não te permitas nutrir qualquer sentimento desconfortável em relação a ele: de nada adiantaria, e o excesso de pensamentos poderiam roubar-te a paz. Se tristeza acometer tua alma, busque refúgio nos Salmos e na lembrança desta que, com absoluta certeza, também estará pensando em ti, porque é assim que permaneço a todo tempo.
Meu pai, mais uma vez, pede que te diga que estás sempre em suas preces. Saiba que ele sente-se um fiel participante da tua empreitada, uma vez que as ferramentas que tu ora usas são aquelas que ele mesmo escolheu. Amigos dele estão aqui agora, jogando algum carteado incompreensível, e posso garantir já ter ouvido teu nome ao menos três vezes, e em todas as três ouvi, também, admiração. Isso me conforta grandemente.
Anseio pelos dias em que conversaremos sobre tudo isso à volta da mesa, sob os olhares atentos dos nossos filhos, enquanto comem biscoitos recém-saídos do forno e pensam não estarmos vendo quando dão alguns deles para os cachorros.
Envio com esta alguns potes da compota feita por minha avó. Ainda que ela tenha reclamado à exaustão que eu quisesse tantos, preferiu ficar horas ao fogão a dar-me a receita. “Você a terá quando tiver de ter”, repetiu, enquanto mexia a enorme panela, espalhando o perfume adocicado por toda a casa. Espero que cada um deles sobreviva aos solavancos dos cavalos e à curiosidade (e consequente apetite) dos homens que os levarão até tuas mãos.
Prometa-me cuidar mais de ti mesmo. Prometa-me trabalhar, mas não cultivar uma obsessão, estendendo tua estada para além de nós dois.
Com mais amor do que eu saberia expressar,
A.
•••
Enquanto você ainda está aqui
Se você é fã de “Sons of Anarchy”, provavelmente vai reconhecer logo a voz e, principalmente, a carga de emoção que Jake Smith, AKA “The White Buffalo”, imprime em cada nota. Se não, esta “The Whistler” vai mostrar o quanto é incompreensível que um artista como esse não seja mais conhecido.
The White Buffalo At: Guitar Center "The Whistler"
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